Em novembro passado, o Ministro Luis Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF) soltou uma de suas boutades sobre o processo jurídico-político que conduziu Jair Bolsonaro ao poder: “a sociedade brasileira deixou de aceitar o que é inaceitável“. Falava como o líder da partidarização do STF.
Ontem a menina Agatha foi assassinada pela Polícia, a sexta criança assassinada em pouco tempo. O Ministro Gilmar Mendes protestou. Barroso se manteve calado, em um silêncio sobre o inaceitável ou, talvez, aceitando o inaceitável em nome da causa justa.
No auge da Lava Jato, depois de se equiparar a outros juristas políticos, como Joaquim Nabuco, Ruy Barbosa e San Thiago Dantas, o humilde Barroso derramou sabedoria em inúmeras palestras e entrevistas, nas quais se propunha a interpretar o brasileiro: preguiçoso, superficial, malandro.
Com o tempo, o próprio Barroso se tornaria o personagem preferencial em qualquer análise sociológica sobre uma das características mais marcantes no homem público brasileiro: a tendência secular ao adesismo.
No excelente “Forças Armadas e Política no Brasil”, o historiador José Murilo de Carvalho lembra a queda da República Velha, na famosa Batalha de Itararé, aquela que nunca houve.
Embora apenas parcela minoritária do Exército tenha tomado parte na revolta, e todos os generais da ativa tivessem permanecido leais ao governo, o sistema político montado por Campos Sales no início da República já se achava suficientemente desmoralizado, carcomido, na linguagem da época, para que ninguém se dispusesse a arriscar a vida em sua defesa.
A grande batalha da revolução, a de Itararé, foi celebrada pelo poeta Murilo Mendes como a maior batalha da América do Sul que não houvera. No melhor estilo brasileiro, quando a sorte do movimento pendeu para os rebeldes, todos aderiram, inclusive os generais do presidente Washington Luís.
Em todos os golpes militares, os golpistas eram minoria. Mas, consumado o golpe, imediatamente havia a adesão em massa.
O general Leitão de Carvalho, o homem da Missão Francesa (se a memória não falha, genro de Machado de Assis), defensor intransigente do legalismo e da não politização do Exército, foi convidado por Góes Monteiro para reformar a força, no bojo do golpe de 1937 do Estado Novo. Aceitou sem pestanejar.
Em 1932, segundo relato que ouvi do meu biografado, Walther Moreira Salles, o então interventor em São Paulo, José Carlos de Macedo Soares, aderiu à revolução constitucionalista e comunicou o fato a Getúlio Vargas através de um telegrama. No final do telegrama, um PS: “minha senhora manda lembranças a dona Darcy Vargas e ao senhor”.
Trata-se de um vício intrínseco ao brasileiro que quer galgar o poder. E não se corrige com cursos em Yale ou Harvard, porque, no fundo, a intenção não é assimilar princípios e fundamentos dos pais fundadores dos Estados Unidos, mas ganhar influência no país dos bacharéis.
Sugere-se a algum acadêmico interessado começar a trabalhar o tema para sua tese de doutorado. Ayres Brito, Carmen Lúcia, Barroso, Fachin, Janot, Raquel, Luiz “mato no peito” Fux, Toffoli, forneceriam excelente material didático. Assim como os poucos que resistiram ao furor da ventania, como Celso de Mello, Marco Aurélio, Lewandowski, Gilmar com todas suas polêmicas.
Será mais elucidativo do que todas as obras sobre a jurisprudência brasileira.
Por adesismo não se entenda apenas apoio acrítico ao Presidente, mas a submissão aos esquemas de poder do momento, às ondas da opinião pública, a submissão ás linhas editoriais ditadas por interesses particulares.
Onde estariam as raízes dessa maldição brasileira, de instrumentalizar princípios em interesse próprio? Na herança escravagista e do coronelato, que obrigava cada pessoa a se abrigar na sombra de um coronel para se defender contra o arbítrio? No mercantilismo superficial de parte da elite, que enfraqueceu qualquer ideia de projeto nacional? No poder de reis e presidentes de fazerem e desfazerem os campeões nacionais? No provincianismo de se pretender cidadão de segunda classe em país de primeira classe? Na síndrome de Miami, que cativou até Ministros do Supremo?
Mais relevante é entender as mudanças das últimas décadas. Com globalização ou sem, a síndrome do puxa-saco permaneceu viva, como valor imemorial na cultura brasileira.
É desprezado por artistas populares, por chefes maduros, pela literatura, pelos humoristas. Mas resiste firme e altaneiro: o puxa-saco é coisa nossa.
Anônimo
23 de setembro de 2019 7:32 amCorrige rapidinho lá, gente: O nome da menina é Agatha.
EVILAZIO GONZAGA ALVES
23 de setembro de 2019 8:29 amCreio que o Jessé de Souza faz essa pesquisa. É o tema dos livros dele.
Anônimo
23 de setembro de 2019 8:32 amsobre o terror de Estado perpetrado contra os moradores das favelas e periferias, principalmente na Maré e especificamente no Alemão:
– trata-se mais do que apenas um sociopata dando vazão a sua pulsão de morte, ou mesmo um gestor sem qualquer escrúpulo a serviço de uma classe dominante atavicamente em guerra contra os pobres e os negros, dado seu berço escravocrata;
– temos um macabro exemplo de contra-insurgência preventiva, para desde já conter qualquer explosão de revolta vinda de um enorme complexo ao lado da Linha Vermelha e da Av. Brasil, as duas principais vias de acesso à cidade do Rio de Janeiro;
– com o grave e veloz acirramento da deterioração das condições de sobrevivência, o recado de Herr Witzel é claro: “- [Não sai de fuzil na rua não. Troca por uma Bíblia.] Se você sair nós vamos te matar.”;
– sob a capa hipócrita da Guerra ao Crime se acoberta o principal objetivo: manter os miseráveis paralisados de pavor em seus guetos.
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Anônimo
23 de setembro de 2019 8:51 amCelso Melo, o “juiz de merda”, endossou o impedimento de Dilma em discurso de shopping center; como ele, Gilmar Mendaz e Fux são politiqueiros natos, daqueles que pegam “jurisprudência” na prateleira em funçao da “capa” do processo (como gosta de dizer o MAM); Barroso foi (está) grampeado; Toffoli sabe bem de suas limitações e que está ali somente pela mão do lulopetismo, vai ter de dar provas de “desamor” por toda a vida, portanto; Aires Brito, Carmem Lucia, Risa Weber sao “maria vai com as outras” exemplares….
Todos vão para os “Egregios Tribunais” pra virarem “cavalheiros”, cada um ao seu estilo; a “nobreza obriga”; a toga faz o juiz.
Jossimar
24 de setembro de 2019 9:38 amCurioso é que apenas um – de todos os relacionados – dos que “resistiram a ventania” foi indicado por governos petistas.
Todos os outros citados, com exceção da execrável raquel, foram indicação de governos petistas.
Será que os governos petistas gostam de puxa sacos?
Se gostam, tiveram o que mereceram. Foi só aparecer um saco maior para puxar que tomaram um belo de um pé no rabo.
naldo
23 de setembro de 2019 12:05 pmOra, ora……pode por os onze no mesmo balaio……….ninguem foi, vai ou irá contra a corrente…….
O mais festejado deles presidiu o impeachment com um grande sorriso nos lábios…..outro tentou um golpe ele mesmo através da casação da chapa de Dilma no tse…..os outros se calaram diante das arbitrariedades……
È tudo a mesma sopa……..
E lembrando, graças a esse congresso carcomido e aos onze, vem aí a terceirização desenfreada do serviço publico, voltaremos aos tempos do QI, o quem indiciou mais desavergonhado……quer maior exemplo de safadeza e sem vergonhice que essa?
Maria Luisa
23 de setembro de 2019 2:16 pmPuxa-saco é coisa nossa, jaboticada é coisa nossa, Supremo que se perde na encruzilhada é coisa nossa, vice-presidente que participar de golpes e ainda diz que não podia fazer de outra forma é coisa nossa, congresso que faz processo para dar um golpe é coisa nossa, elite fascista é coisa nossa…… Mas quem disse que tudo isso é imutavel? Um dia esse bolor todo vai sair e o Brasil, enfim, sera outra coisa que esse Pais que não pensa em si como uma nação.
Paulo Henrique Arantes
23 de setembro de 2019 4:05 pmhttps://www.diariodocentrodomundo.com.br/barroso-parece-agir-como-perseguidor-nao-o-garantidor-de-direitos-que-deveria-ser-diz-pedro-serrano-por-paulo-henrique-arantes/?fbclid=IwAR0n4YvM0hpBDtkQ9PZTRPbuXFzfrSIVjE8qalswde1FCDkKEIJUFQALAJg
Renato
23 de setembro de 2019 5:39 pmO Zeca Pagodinho é demais…
André élebê
23 de setembro de 2019 8:16 pmSão três os motivos: em primeiro a escravidão, em segundo a escravidão e, em terceiro, é importante lembrar da escravidão.
Apesar de por quase toda a sua existência o Brasil ser pouco mais que um imenso deserto de homens, praticamente toda a terra já contava com “donos”, devidamente agraciados pelo poderoso de plantão, por sua vez sustentado no poder pelos agraciados. Um jogo já vindo de Portugal (que, ATENÇÃO, já deveria há tempos ter sua influência deixada no passado daqui como já foi no de lá), que aclimatou-se perfeitamente ao solo colonial, depois pátrio e, agora, neocolonial.
Nosso feudalismo tropical, cioso da sociedade baseada no “homem bom”, tinha que contar com sua cota de puxa-sacos, gente espertamente colocada na dependência do clientelismo, sempre grata por obrigação e jamais escrava por “Direito Divino”; essa é a origem da nossa classe média, que a industrialização e imigração em massa quase destruíram, ao trazer gente desacostumada às regras locais – mas que com o tempo vieram a aprender e reproduzir.
Por fim, os escravos, o grande não-sujeito da sociedade escravocrata. Mera propriedade, quase que os únicos a trabalhar em quatrocentos anos de história (não à toa até hoje o trabalho manual é tido, entre nós, como coisa de gente sem estudo e sem valor, e remunerado à “altura”, por assim dizer), neles todas as frustrações e desejos mais mórbidos eram despejados, toda a criatividade utilizada para castigar e explorar: daí termos sido uma máquina de moer carne humana muito maior que aquela montada pelos escravocratas do Sul dos Estados Unidos, onde a mortalidade era muito menor.
E, ao fim e ao cabo, qual a necessidade que o brasileiro médio (branco) tanto tem de se identificar com o europeu ou anglo-saxão, de ser um cliente deles? É a necessidade de pertencer a um lugar com muito menos pretos, de gente “de bem” como ele; não à toa o Sul é vangloriado, e não à toa um a cada dois sulistas (sou otimista) se horroriza com a idéia da chegada dos “de fora”, especificamente “do Paraná pra cima” ou “de São Paulo pra cima”. Ou seja: mais uma vez é a marca da escravidão, é o medo e nojo dos (em geral) injustiçados descendentes dos escravos.
O que é a cultura brasileira? Em grande parte, negra. Deixo de lado os motivos para assim ocorrer, mas os negros são a grande maioria dos brasileiros que se assumem brasileiros, até pela impossibilidade da busca da “legitimadora” origem europeia. A brasilidade é negra, até pela abstenção de grande parte dos brancos, que sonham em não pertencer ao que neles jamais se poderá tirar; ao mesmo tempo, com gosto reproduzem tudo o que sempre nos fez ser assim, sem perceber que, no fim, nutrem ódio de si mesmos.
Superação? É possível. Acontecerá no mesmo e exato dia em que o sistema como um todo e o conjunto da população branca em particular reconhecer na população negra seus compatriotas, de mesmos direitos e deveres. Até lá, o Brasil está condenado ao atraso por arrastar uma pobreza invencível criada pelo seu próprio desejo de negar a si mesmo.
Anônimo
24 de setembro de 2019 12:17 amPior do que o adesismo é a reciclagem de lixo que uma esquerda safada apóia.
Nassif falou claramente do nojento adesismo que políticos utilizam para mudar de posição na mesma frequência de cidadãos trocam as roupas íntimas, entretanto há outro fator que leva a esta pouca vergonha que é o adesismo desenfreado, é a reciclagem de lixo que parte de elementos de esquerda (ou se centro) fazem com os novos-opositores.
Este adesismo quando encontra na sua frente uma oposição com disposição de fazer uma verdadeira reciclagem de lixo da situação quando esta já está começando a feder, de tão podre que se encontra, dá cobertura a estes adesistas que vão aparecer em atos contra isto e contra aquilo ou mesmo terem a cara de pau como Temer para dizer que não era golpista.
Devemos simplesmente fechar as nossas fileiras para estes políticos e outros membros bem pensantes das elites (como os economistas que dizem que agora se deve aumentar o salário mínimo), pois ele vão utilizar isto para trair no futuro.
Quem é adesista inveterado muda de direção conforme o vento, não há nenhuma autocrítica, agora tem a cara de pau de dizer que o Bolsonaro é fascista! A pergunta a ser feita é quando que Bolsonaro escondeu isto? Ninguém viu seus vídeos favoráveis a tortura? A morte de opositores e a defesa da ditadura?
Os eleitores de Bolsonaro foram e muitos ainda são enganados pela grande imprensa, então os mais pobres e menos informados tem todo o direito de mudar de posição, pois foram enganados, porém os usuais adesistas da política sabiam tudo que poderia acontecer, só não contavam com a incapacidade administrativa e econômica do governo e por isto estão caindo fora.
Deviam ficar quietos e morrerem de vergonha, era o mínimo que se podia esperar.
Bruno Pinheiro
24 de setembro de 2019 10:54 amO Machado de Assis não teve filhos nem genros, Nassif.