24 de junho de 2026

Os riscos da instrumentalização da fé no Brasil, por Calmon & Mendonça

O fenômeno não é novo. Ao longo da história, instituições religiosas desempenharam papéis que ultrapassaram a esfera espiritual.
Reprodução

Movimentos religiosos no Brasil influenciam política, mobilizando eleitores e orientando comportamentos em eventos e redes sociais.
Líderes como Silas Malafaia e Edir Macedo têm forte presença midiática e política, enfrentando denúncias e processos judiciais.
Debate sobre transparência financeira e laicidade cresce, questionando privilégios e influência das igrejas na democracia brasileira.

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Religião, política e poder

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Os riscos da instrumentalização da fé no Brasil

por Francisco Celso Calmon e Leticia Mendonça

A crescente influência de movimentos religiosos na política brasileira tem transformado profundamente o debate público nacional. Marchas, festivais, congressos, retiros espirituais e grandes eventos confessionais deixaram de ser apenas manifestações de fé para se tornarem, em muitos casos, espaços de mobilização política, influência eleitoral e construção de poder.

O fenômeno não é novo. Ao longo da história, instituições religiosas desempenharam papéis que ultrapassaram a esfera espiritual. Foram agentes sociais, econômicos e políticos que, em diferentes contextos, contribuíram tanto para processos de emancipação quanto para a manutenção de hierarquias, mecanismos de controle moral e resistência a transformações científicas, culturais e democráticas, e, para tanto, utilizaram de ações de guerra a torturas. O poder religioso, sempre esteve ligado ao poder temporal, a forma é que vem mudando.

No Brasil contemporâneo, observa-se a consolidação de uma espécie de coronelismo religioso. Se no passado o poder local era exercido por grandes proprietários de terra, hoje parte dessa influência se manifesta por meio de lideranças que reivindicam autoridade sobre questões espirituais e, simultaneamente, orientam comportamentos políticos. Em determinados ambientes, a salvação parece ser apresentada como algo condicionado não apenas à fé, mas também e sobretudo à contribuição financeira, à obediência institucional e até mesmo às escolhas feitas nas urnas eleitorais.

Quando a fé se transforma em instrumento de poder

A história mundial oferece inúmeros exemplos dos riscos provocados pela fusão entre religião e poder político. Guerras religiosas, perseguições, tribunais inquisitoriais, colonialismo cultural, intolerância e repressão foram frequentemente legitimados em nome da fé.

Em diferentes períodos históricos, instituições religiosas estiveram associadas à perseguição de minorias, ao combate ao pensamento científico, à criminalização de comportamentos considerados desviantes e à sustentação de estruturas profundamente desiguais.

No Brasil, cresce a preocupação com a utilização da religião como ferramenta de influência política. Líderes religiosos com enorme alcance midiático passaram a exercer influência direta sobre eleições, pautas legislativas e debates públicos, frequentemente mobilizando discursos conservadores sobre direitos civis, educação, costumes e políticas sociais.

A expansão das redes sociais intensificou esse processo. Mensagens simplificadas, emocionalmente mobilizadoras e muitas vezes baseadas em desinformação, encontram terreno fértil em ambientes digitais. Em vez de promover reflexão crítica, parte desses discursos reforça visões dogmáticas, polarização política e interpretações maniqueístas da realidade social.

Fé e o poder sem limites.

Criticar a instrumentalização política da religião não significa atacar a espiritualidade ou questionar a liberdade de crença. O direito à fé é um dos pilares das sociedades democráticas e deve ser protegido de qualquer forma de discriminação. Embora, ressalte, a história demonstra que a fé religiosa retirou o protagonismo da humanidade na construção da sociedade ao atribuir esses protagonismo a seres metafísicos.

O problema sobreleva quando instituições religiosas passam a atuar como estruturas permanentes de influência política, buscando impor valores particulares ao conjunto da sociedade ou interferir diretamente nas decisões do Estado.

A laicidade existe justamente para garantir que nenhuma crença específica detenha privilégios institucionais. Trata-se de um mecanismo de proteção tanto para quem possui uma religião quanto para quem não possui nenhuma.

Quando religião e política se confundem, abre-se espaço para o enfraquecimento do pensamento crítico, da pluralidade de ideias e da própria democracia. O Estado deixa de representar a diversidade da população para se tornar refém de interesses confessionais específicos.

A igreja já foi poder espiritual e temporal e não trouxe benefícios de saúde mental e social aos seus crentes.

Igrejas, impostos e privilégios intocáveis

Outro tema que permanece cercado por tabus é a estrutura financeira das grandes organizações religiosas brasileiras.

A Constituição Federal garante imunidade tributária aos templos religiosos, princípio importante para assegurar a liberdade de culto. Entretanto, a existência dessa garantia não impede que a sociedade discuta os limites e as consequências dessa política quando determinadas instituições passam a operar também como grandes estruturas empresariais, midiáticas e políticas.

O Brasil precisa enfrentar um debate legítimo sobre transparência financeira. Se trabalhadores pagam impostos sobre salários, consumo e patrimônio, é razoável questionar até que ponto organizações que movimentam milhões ou até bilhões de reais por ano, possuem redes de televisão, emissoras de rádio, editoras, plataformas digitais e forte influência política devem permanecer praticamente imunes ao escrutínio público.

Não se trata de taxar a fé ou perseguir religiões. Trata-se de discutir mecanismos de transparência compatíveis com o tamanho econômico e político alcançado por determinadas instituições.

Nenhuma organização que exerce influência significativa sobre a sociedade deveria estar imune ao debate público, à prestação de contas e à fiscalização democrática.

Dando nome aos bois

Entre os nomes mais conhecidos está Silas Malafaia, pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que se tornou uma das vozes mais influentes da extrema-direita religiosa brasileira. Com forte presença nas redes sociais, programas de televisão e campanhas eleitorais, Malafaia participa ativamente das disputas políticas nacionais, posicionando-se sobre eleições, projetos legislativos e temas relacionados à extrema-direita.

Outro personagem central é Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da Rede Record. O bispo e outros líderes foram alvo de denúncias por remessas ilegais de grandes somas de dinheiro para o exterior, em um esquema que também levantou suspeitas sobre o uso desses recursos.

A Justiça Federal condenou Macedo e a Record ao pagamento de indenizações por danos morais coletivos. A condenação decorre de declarações consideradas homofóbicas feitas durante um programa especial natalino, onde o líder religioso associou pessoas LGBTQIA+ à criminalidade.

Também merece destaque o bispo Robson Rodovalho, fundador da Igreja Sara Nossa Terra, foi denunciado por crime de peculato (desvio de dinheiro público) no escândalo conhecido como a “Farra das Passagens”. Durante seu mandato como deputado federal (2007–2008), Rodovalho teria utilizado sua cota parlamentar de passagens aéreas para transportar artistas gospel e pastores para eventos religiosos de seu ministério, em vez de atividades legislativas. Na época das denúncias, Rodovalho negou irregularidades, mas decidiu devolver aos cofres da Câmara dos Deputados cerca de R$41.196,40 referentes às emissões.

Além de lideranças ligadas à Igreja Internacional da Graça de Deus, fundada por R. R. Soares, e a diversos outros segmentos neopentecostais que exercem influência crescente sobre parcelas importantes do eleitorado brasileiro. O Ministério Público do Trabalho processou a Fundação Internacional de Comunicação (FIC), braço midiático da igreja do pastor, acusando a instituição de promover um ambiente de trabalho abusivo, além de discriminação por raça, idade, gênero e orientação sexual. Durante as eleições, o braço de mídia do pastor foi alvo de acusações por parte de funcionários que relataram ameaças de demissão caso determinado candidato vencesse.

Democracia e pensamento crítico

A história demonstra que as sociedades avançam quando educação, ciência, pensamento crítico e debate racional ocupam papel central na vida pública. Sempre que o obscurantismo, o fanatismo e a intolerância prevaleceram sobre o conhecimento, os resultados foram marcados por perseguições, violência e atraso social.

O desafio democrático do século XXI não é combater a fé individual nem restringir a liberdade religiosa. O verdadeiro desafio consiste em impedir que estruturas religiosas sejam utilizadas como instrumentos de alienação política, intolerância social ou concentração de poder.

A democracia depende da pluralidade. E a pluralidade só sobrevive quando nenhuma instituição – seja religiosa, econômica, militar ou política – se coloca acima do debate público, da transparência e dos princípios democráticos consagrados na Constituição Federal.

Nesta mesma semana (23/06) a Polícia Federal deflagrou a Operação Miragem, que investiga suspeitas de fraudes contábeis, manipulação de balanços e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional envolvendo o Banco Digimais, instituição controlada por Edir Macedo. A operação resultou no bloqueio judicial de mais de R$ 670 milhões em bens e valores dos investigados.

Em tempos de crescente influência de grupos econômicos, religiosos e políticos sobre as estruturas de poder, torna-se imprescindível o fortalecimento da democracia, da transparência e dos mecanismos de controle social. São esses valores que devem orientar qualquer projeto comprometido com a construção de uma sociedade mais justa, plural e verdadeiramente republicana.

A história é o espelho da humanidade, olhar e percorrê-la é essencial para não alimentarmos os malefícios produzidos em nome da fé.

Francisco Celso Calmon e Leticia Mendonça

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Francisco Celso Calmon

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

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