5 de junho de 2026

O novo ‘consenso de Washington’, por Rogerio Studart

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Sugestão de Ciro Daraujo

do Brasil Econômico

O novo ‘consenso de Washington’

Solução que foi proposta para melhorar a produtividade e a competitividade das economias da América Latina e do Caribe a região seria adotar mais “políticas de desenvolvimento produtivo”

Rogerio Studart

Um recente estudo, “Rethinking Productive Development: Sound Policies and Institutions for Economic Transformation”, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mostra que a produtividade e a competitividade das economias da América Latina e do Caribe têm caído de forma preocupante . Isto não é novidade. O que surpreende é a solução proposta: a região deveria adotar mais “políticas de desenvolvimento produtivo”. Ou seja, as políticas industriais voltam a ser parte de um “novo consenso de Washington”. Mas, no mundo em que vivemos, o que quer dizer isto? E o Brasil com isto?

Vamos retroceder um pouco no tempo. Nos anos 80 e até recentemente, passaram a prevalecer dois consensos nas instituições financeiras internacionais: por um lado as políticas industriais na América Latina nos anos 70 e 80 haviam fracassado “rotundamente”; e, por outro, a melhor política econômica para a região seria aquela que promovia estabilidade macroeconômica, reformas microeconômicas, e o menor intervencionismo possível. Quando comparavam os nossos problemas com o sucesso de economias do Sudeste Asiático, ressaltavam papel das medidas liberalizantes destas ultimas — e quase nada se dizia das políticas industriais. Quando “ocorreu” a China, por exemplo, apesar do ativíssimo papel do Estado chinês no financiamento e direcionamento do investimento, só se mencionavam as políticas de abertura comercial e atração do investimento estrangeiro. 

Com os anos, esse discurso tornou-se cada vez menos crível. Por um lado, economistas que estudaram profundamente os “milagres asiáticos” — como Alice Amsden, Dani Rodrik e HaJoon Chang, só para citar alguns — passaram a ganhar reputação ao desmentir a visão conservadora desses milagres. Esses autores mostraram, de forma conclusiva, que nem a Coreia do Sul, nem muito menos a China, para citar dois casos de êxito indiscutíveis, devem seu sucesso a fórmulas ortodoxas, mas a políticas industriais voltadas a criar uma base produtiva e exportadora que aproveitou amplamente a abertura comercial oferecida pelos Estados Unidos e outros países da OCDE, por razões estritamente geopolíticas. Esse “sacrilégio intelectual” desse grupo heterodoxo sequer poupou o supostamente liberal Chile pós-Pinochet: apresentaram evidências de que a política industrial naquele país foi fundamental para consolidar no mercado global setores exportadores de delícias chilenas (vinhos, salmões e outros frutos do mar) e setores intensivos em tecnologia — o que permitiu uma saudável diversificação do aparato produtivo chileno para além da indústria extrativa (especialmente cobre). 

Antes da crise de 2008, o ressurgimento do debate em Washington sobre as políticas industriais já havia sido iniciado. Interessantemente, Robert Zoellick, anterior presidente do Banco Mundial, e conhecido por sua visão republicana liberal, escolheu como economista chefe Jutin Yufi Lin — um chinês, profundamente convicto sobre a centralidade das políticas industriais no desenvolvimento econômico. É verdade que, como pude observar, as resistências internas às ideias de Lin foram grandes. Mas isso não impediu a proliferação de artigos e textos produzidos no Banco Mundial favoráveis a um papel mais ativo do Estado para promover o “desenvolvimento produtivo”, e enfrentar a crise mundial de produção (que agora é uma crise de emprego). Se muitos países em desenvolvimento ainda se sentiram cautelosos frente a esse novo consenso de Washington, as economias desenvolvidas não mostraram nenhuma timidez em acompanhar a nova onda — o que se comprava pelo número de programas de “apoio à reestruturação produtiva”, incluindo fortes componentes de financiamento direto (subsidiado) introduzidos pelas economias da OCDE (como já comentei em outros artigos nesta coluna). 

Nesse contexto, é significativo, mas não surpreendente, que o BID tenha aderido fortemente ao “novo consenso de Washington”, abandonando os já ultrapassados preconceitos em relação à política industrial. A abordagem é, entretanto, cautelosa, apesar de apontar para a necessidade urgente de avançar com “políticas de desenvolvimento produtivo” para romper com um circulo vicioso, prevalecente na região, de baixa produtividade, baixa competitividade e baixo crescimento. Como compatibilizar a cautela com o sentido de urgência? Segundo o documento, através de políticas que alavanquem as vantagens comparativas das economias regionais — e resistir a políticas abrangentes que sufoquem o livre funcionamento das forças de mercado.

É impossível ler esse documento sem pensar no debate atual no Brasil. Afinal, temos uma economia continental, comercialmente aberta e que passou por um processo acelerado de consolidação da classe mádia, não acompanhado pelo crescimento da sua produtividade e oferta doméstica (especialmente no setor manufatureiro). Em suma, temos um mercado doméstico altamente atrativo, com um setor produtivo doméstico vulnerável. Precisamos intensificar e, simultaneamente, aumentar a eficiência das nossas políticas de desenvolvimento produtivo e de atração de investimento privado, nacional e estrangeiro. E, para isso, necessitamos de um debate, isento de preconceitos, envolvendo setor privado, governo e academia. Neste ano, o calor eleitoral impede esse tipo de debate. Oxalá ele ocorra já no começo do próximo ano. É urgente.

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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2 Comentários
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  1. Mogisenio

    24 de setembro de 2014 3:42 pm

    O que não se vê no “liberal”…

    Começando pelas orações finais do autor:

    (…)E, necessitamos de um debate, isento de preconceitos, envolvendo setor privado, governo e academia. 

    Segue meu comentário preliminar:( não se ofendam, não se trata de grito mal educado)

    NÃO HÁ DEBATE ISENTO DE PRECONCEITOS, MORMENTE, ENVOLVENDO SETOR PRIVADO, GOVERNO E ACADEMIA.

    É preciso ter isso em mente. Nunca, jamais, enquanto permanecermos humanos – do jeito que conhecemos até os dias atuais – conseguiremos participar de um debate com estes  fundamentos almejados pelo autor. 

    Notemos bem! Nem mesmo o idioma – falado e escrito- está isento. Noutras palavras, NÃO HÁ possibilidade de emitir QUALQUER OPINIÃO, ou mesmo TESE que sejam ISENTOS DE PRECONCEITOS. 

    Dito isso, volto-me agora para o restante do texto.

    O autor parece ter abordado uma parte da história ( ou estória) do tal de “consenso de Washingnton.  Porém, defemos nos atentar para o fato de que dependendo de onde se olha o “consenso” se parece mais com “dissenso”.

    Poderíamos vê-lo assim: O consenso é  de Washington heim! Boa parte do “resto do mundo” pode ficar no dissenso, não importa. Aliás, a expressão “resto do mundo” é particularmente interessante por que pode nos trazer um outro “significado” além daquele apropriado pelas BABOSEIRAS da “ciência econômica”.  Um significado de “Resto” mesmo , no sentido pejorativo. O resto  é que se dane…

    Em suma, quando se percebe que assuntos com abrangência multilateral, multidisciplinar, multicultural envolvendo mega multi-intereses são tratados pelos “economistas”, principalmente os tais liberais, então meus caros, podem ter em mente que a liberdade será reduzida, o “multi” tornar-se  “minus”( aqui, o menos não é mais, é menos mesmo)…

    Por fim, no jogo de interesses – com o auxílio maciço das falácias – impera o consenso fajuto , de meia tigela, para enganar e cooptar desorientados ou como  cantiga de ninar para ruminante dormir

    Inté

     

     

     

     

     

     

     

     

  2. altamiro souza

    25 de setembro de 2014 3:56 am

    não há nutralidade, inclusive

    não há nutralidade, inclusive nas chamdas ciencias.

    imagine quando se trta da linguagem.

    batou pensar para escrever

    que voce já mudou o

    que está sentindo.

    experimente.

    concordo ue esese tal de consenso

    da matriz imperialista só pode

    trazer para nós o dissenso.

    questão de interesses, cara.

     

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