4 de junho de 2026

O cordel e as artimanhas do capitalismo tardio: a maldição, por Aderaldo Luciano

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O cordel e as artimanhas do capitalismo tardio: a maldição

por Aderaldo Luciano

É fato que, tanto Leandro Gomes de Barros, como Manoel D’Almeida Filho, utilizaram-se de uma ferramenta nascida com o próprio cordel: a adaptação de narrativas de matriz ibérica. Essas adaptações terminaram por inseminar em alguns pesquisadores a certeza de que o cordel teria essa origem europeia. E esse equívoco alastrou-se pelo Brasil adentro. Inclusive com a malfadada ideia de que o cordel seria vendido pendurado em barbante e preso com pegadores de roupa. Vamos tratar dessas adaptações que, possivelmente, tenham se iniciado com o clássico leandrino A Força do Amor, a História de Alonso e Marina e que aparecem em sua obra por diversas vezes.
Nos princípios, quando um autor de cordel se dedicava a adaptar uma obra literária para o cordel, considerava apenas e tão somente o seu caráter de boa narrativa, de boa história, acreditando que, ao adaptá-la, estaria compartilhando com um público maior os seus valores estéticos, preocupado, também, com a perspectiva de que, o mesmo público, talvez nunca tivesse acesso ao livro original. Cumpria um papel social de superior importância, sempre levado em conta pelo cordel, o de atingir o leitor, muitas das vezes o ouvinte, com a beleza narrativa. Os pais do cordel tiveram essa preocupação. Todos eles, ao se depararem com histórias que lhes agradavam, transportaram-nas para as sextilhas do cordel com êxito poético e mercadológico, pois também se pensava em colocar comida na mesa, trocando poesia por pão. Esse fenômeno, com essa característica de compartilhamento, funcionou até a década de 1990, aproximadamente, por infeliz coincidência, década da morte de Manoel D’Almeida Filho.

Aconteceu que, com as políticas de incentivo à formação de leitores, fomento de criação de bibliotecas nas escolas geridas pelo governo, lançamento de um Programa Nacional de Bibliotecas na Escola (PNBE) em 1997, visando o acesso à leitura por meio da distribuição, pelo governo central, de obras de literatura, pesquisa e referências, várias editoras descobriram uma maneira mais fácil de ganhar dinheiro do Estado: publicar obras que não vão para o mercado, que servem apenas para vendas ao governo. Criou-se um vasto filão, com acirradas disputas por essa fatia. Nesse rol infernal foram arrolados os poetas de cordel, enganados pela previsão de ganhar dinheiro facilitado, caso sua obra seja contemplada no programa. E criou-se um sistema maléfico, travestido de fada madrinha. E as adaptações, de valor poético e literário duvidosos, invadiram o mundo do cordel brasileiro.

Quem se atrever a pesquisar mais sobre o assunto encontrará coleções criadas somente para esse fim, trazendo em suas vestimentas o selo do cordel. Ou seja, o que, no princípio fora tão somente uma atividade lúdica, poética e literária, da transposição de uma obra para a linguagem cordelística, transformou-se em um negócio milionário e vários autores, seduzidos pelo canto da sereia, embarcando na nau dourada do engano.

 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados