
Com emprego e dinheiro no bolso o povo se vira com a inflação
por André Araújo
Os economistas de mercado difundiram a ideia de que a inflação castiga mais os pobres do que os abastados. É lenda. A inflação castiga os RENTISTAS, aqueles que tem capital em moeda e vivem de renda de juros. A inflação também diminui o poder de compra dos altos salários do Estado porque esses são reajustados uma vez por ano e seu valor real decresce durante o ano.
A inflação tende a prejudicar os credores e aliviar os devedores.
O pobre sabe se defender da inflação com muito mais esperteza e criatividade do que qualquer outra classe. Os economistas de mercado operam no MUNDO DOS RENTISTAS, de onde eles tiram sua sobrevivência, os rentistas são os clientes dos fundos de investimentos, gestoras de fortunas, corretoras e bancos que empregam os economistas de mercado.
Uma das narrativas sobre a inflação e os pobres diz que eles recebem o salário e ficam com o dinheiro no bolso desvalorizando. É FALSO. Nos anos de inflação 1950-1994 os trabalhadores recebiam o salário no dia 5 e IMEDIATAMENTE faziam a compra do mês, pagavam seus alugueis e prestações, investiam o que sobrava em bens duráveis como material de construção, fogão, automóvel, ferramentas. Não ficavam com dinheiro no bolso, não havia o “pobre com o dinheiro do salário no bolso”, fruto do desconhecimento do mundo real que esses economistas ostentam até hoje, eles conhecem economia teórica e não da vida.
Acompanhei a vida de centenas de operários de minha empresa nos anos de inflação, a maioria nordestinos ou do interior de São Paulo, seguiam um roteiro, compravam um lote de terreno a prestação, depois iam comprando mês a mês material de construção, iam construindo sua casa, demorava mas com esforço terminavam, depois casavam, a em seguida a compra do primeiro fusquinha usado, depois ampliação da casa com puxadinho.
Assim foram formados 650 bairros em São Paulo fora dos bairros tradicionais anteriores à industrialização, os novos bairros multiplicaram por 10 a população de S.Paulo.
Alguns, não todos, compraram a prestação apartamento na Praia Grande. Na segunda geração esses mesmos operários investiam em cursinhos para os filhos na era dos vertibulares difíceis, outros se aposentavam e abriam pequenas oficinas de consertos em sociedade com colegas ou parentes, se viravam com grande engenhosidade, tudo isso em tempos de inflação.
Havia inflação sim MAS havia ao mesmo tempo pleno emprego, os formados em engenharia já saíam da faculdade empregados porque havia crescimento na grande maioria dos anos nesse quase meio século, havia INFLAÇÃO e ao mesmo tempo um clima de otimismo na economia, novas fábricas surgiam do dia para noite, havia abundância de oportunidades.
Com a inflação era impossível viver de juros, quem tinha dinheiro corria para aplicar em ativos reais que conservavam o valor do capital, especialmente imóveis e estoques de tudo, negócios, fábricas, sítios, fazendas e com isso a economia crescia em velocidade.
A inflação não é um remédio desejado mas pode ser necessário, especialmente para SAIR DA RECESSÃO, não se sai de uma recessão sem ESTÍMULO MONETÁRIO, o que significa dinheiro nas veias da economia através de crédito baratos às empresas e investimentos públicos em infra estrutura que tem efeito multiplicador na estapa seguinte da produção de cimento, aço, tubos, fios e cabos, trilhos, asfalto, cerâmica, brita, todos setores que empregam muita mão de obra. A renda gerada pelos investimentos em infra estrutura se multiplica rapidamente para compra de bens duráveis, o que movimenta a economia.
MAS o maior dano causado à economia pelo regime de METAS DE INFLAÇÃO é a politica cambial. Foi essa politica que já vinha do segundo mandato do governo Lula que causou a recessão e não o déficit orçamentário. Deficit causa inflação e não recessão, o que causa a recessão é a VALORIZAÇÃO DO REAL que prejudica e pode acabar com a indústria e essa politica cambial é usada para se atingir a meta de inflação. Valoriza-se ARTIFICALMENTE O REAL para com isso baixar o preço das matérias primas importadas e e a partir dessa manobra segurar a inflação através da importação de bens de consumo, matérias primas e máquinas.
Ao mesmo tempo essa politica estimula as importações e dificulta as exportação, estimula o gasto de brasileiros no exterior e desistimula o turismo de estrangeiros no Brasil.
É uma POLITICA PRÓ RECESSÃO, suicida para se aplicar quando o caminho é o contrário, é estimular a exportação, encarecer a importação, induzir os que tem dinheiro a investir em negócios e imóveis e não em papeis do governo.
A super valorização da MOEDA causou a crise do fim do governo Fernando Henrique, a ruina da Argentina no governo Menem, é a causa da maioria das recessões na história econômica.
É um monumental erro de análise, difundido pelos economistas de mercado, dizer que a atual recessão é causada pelo déficit público. Este é um sinal ruim e deve ser combatido, especialmente porque ele é um déficit causado por despesas correntes de péssima eficiência como salários altos de servidores cujo valor econômico do trabalho é muito menor do que aquilo que ganham, prédios luxuosos para órgãos do governo que poderiam funcionar em áreas de aluguel bem mais barato, imensas ineficiências em hospitais, universidades e ambulatórios, descompasso entre compra de equipamentos e as instalações para abrigá-los, obras públicas paradas por meses ou anos por questões burocráticas, um DÉFICIT RUINOSO, causado por má aplicação de recursos públicos.
Mas com tudo isso não é o déficit a causa da recessão e sim a POLITICA CAMBIAL que induz a política monetária baseada no desalinhamento dos juros reais internos com os juros internacionais. Hoje a taxa SELIC de 11,25% menos a inflação de 4,2% significa um JURO REAL de 7% ao ano, quando a média internacional de juros básicos é de 1,5 a 1,75% ao ano.
Esse desalinhamento gera um custo ARTIFICIAL da dívida publica que é QUATRO vezes maior que o déficit primário, cujo ajuste é a base de toda a atual politica econômica.
O paciente está morrendo de câncer e toda a equipe médica está voltada para tratar do resfriado desse paciente, essa é a lógica da atual politica econômica brasileira.
E os economistas de mercado e seus arautos na mídia dizem que “a politica está no caminho certo e o dados indicam uma melhora” para frente, é um desejo que transformam numa fantasia, numa realidade artificial, fake news, nada, nenhum dado indica que se caminha para o fim da recessão, tampouco adianta um fim em cinco ou dez anos, apenas porque não há mais como cair, a recessão se esgota mas depois de enorme sofrimento e destruição de riqueza, por causas naturais e não por uma politica inteligente anti-recessiva.
Se a única saída de uma recessão for a natureza, de que servem as escolas de economia?
A previsão dos economistas de mercado é de um crescimento de 0,46% este ano, a fração é ridícula nem um reles prognostico, e de 2% no ano que vem. Considerando que as projeções são sobre uma base de PIB degradada em 8% nos últimos três anos, as projeções são UMA CONFISSÃO DO ERRO, está se apenas recuperando mínima parte da perda, o Pais não ganha nada, apenas repõe pequena parte da perda, toda uma série de medidas que indicam um ERRO MONUMENTAL DA POLÍTICA ECONÔMICA. Quer dizer que no fim de 2018 o Brasil continuará com um PIB ainda 5,5% ABAIXO do PIB de 2012, não há maior confissão de fracasso de um programa econômico, a estabilidade na recessão com miséria crescente.
A referendar o fracasso está a deplorável situação da Grecia hoje, após 9 anos de recessão com uma queda de 25% do PIB, a Grecia entra em DEPRESSÃO, como resultado da MESMA POLITICA HOJE APLICADA NO BRASIL, o que demonstra de forma acabada e inequívoca que NÃO SE SAI DA RECESSÃO COM MEDIDAS DE AJUSTE. O caminho da saída da recessão é o ESTIMULO MONETARIO, é a expansão dos meios de pagamento e não o seu contrário, que é uma politica de juros muito acima da média internacional para com isso ENXURGAR OS MEIOS DE PAGAMENTO e diminuir o poder de compra para fazer a inflação baixar.
O Brasil está seguindo o caminho da Grecia, com a diferença que a Grecia não tem moeda própria e o Brasil tem, não precisa se apertar na camisa de força que foi imposta à Grecia pelo Banco Central Europeu, empobrecendo extraordinariamente sua população e elevando o desemprego a 23%, na realidade é maior porque muitos não procuram mais emprego e não entram na estatística.
O Brasil tem potencialidades, dimensão, recursos muito maiores que a Grecia e tem MOEDA própria, não depende de um Banco Central fora de seu território por isso mesmo é um imenso equivoco seguir uma POLITICA DE AUSTERICIDIO Á LA GREGA, quando ao contrário da Grecia, o Brasil tem reservas internacionais suficientes para garantir o funcionamento da economia, não depende de importar alimentos e em boa parte é auto suficiente em energia, condições que a Grecia não tinha e não tem.
O custo social e econômico da atual politica monetária e cambial é infinitamente MAIOR do que qualquer risco a ser corrido com um programa de estimulo monetário para obras de infra estrutura e crédito de baixo custo as empresas. Mais de 1.500 obras paralisadas no Pais, projetos prontos e não executados por falta de verba, serviços essenciais em saúde e educação cada vez mais precários, QUAL O CUSTO DA RECESSÃO? Quatro por cento de um PIB de US$2 trilhões em 2015, equivale a US$80 bilhões, no ano seguinte de 2016 foram outros 3,8% mais os 4% carregados do ano anterior, US$152 bilhões, só nestes dois anos foram US$232 bilhões de produção perdida, mais o custo social de 14 milhões de desempregados, os custos de uma recessão superam os custos de uma guerra e no entanto o Brasil não precisaria estar em recessão exclusivamente para manter a ficção dessa fantasia
Na realidade todo esse raciocínio acima apontado se refere ao RISCO DE INFLAÇÃO implícito em uma politica de estímulos monetários, MAS em um quadro de profunda recessão um programa de investimentos em infra estrutura de R$2 trilhões há grande possibilidade de não gerar inflação dada a enorme capacidade ociosa e grande desemprego que está hoje na base da economia recessiva. Um programa de R$2 trilhões significa desembolsos espaçados de R$ R$80 bilhões por mês, o que provavelmente não irá gerar impacto nos preços dada a abundância de oferta de produto, serviços e mão de obra na economia brasileira.
Do ponto de vista politico, METAS DE INFLAÇÃO é uma ideologia concentradora de renda, aumenta a participação do capital na economia e facilita a concentração de riqueza e renda na parte da população que tem LIQUIDEZ EM MOEDA, ou seja, os ricos, rentistas e banqueiros.
Já do ponto de vista politico, um programa de expansão monetária DESCONCENTRA RENDA, a irrigação de moeda chega a todas às camadas de população diluindo o poder de quem tem alta liquidez, qual seja, os ricos. A EXPANSÃO MONETARIA é um programa benéfico às populações mais pobres porque se reverte o fluxo do rio monetário que na politica de METAS DE INFLAÇÃO corre só para cima, para quem já é rico, já na expansão monetária o rio corre para baixo, para quem não tem dinheiro ou emprego.
A politica de EXPANSÃO MONETARIA é a única politica possível para o Brasil sair da recessão dadas as condições do Pais, não somos uma Suiça ou uma Suécia para praticar a máxima ortodoxia monetária que é hoje a única base da atual politica econômica brasileira.
luiz valentim
13 de maio de 2017 2:23 pmA inflação tá muito alta!Com recessão brutal seria zero ou menos
Se fosse-mos um País normal.
A taxa de juros reais dobrou!
quatro com Dilma
oito com Temer
Telo de gastos para programas sociais e investimento
Gastos extratosféricos com a dívida pública
Mas as Mirians e os Sardemberg da vida tentam enganar a galera
Empresários e Investidores na Orodução sabem muito bem a realidade economica.
Tiraram dinheiro do bolso do povo e da classe média ex- paneleira.
Não tem como a economia girar sem consumo dos Pobres e da classe média.
Ricos são muito poucos e só tem uma boca e um ânus(só pra citar o consumo de alimentos)
Rui Ribeiro
13 de maio de 2017 2:31 pmSe eu tô empregado, eu tenho uma merreca, mas tenho
Assim, eu vou ao comerciante que tem maior oferta, pois quanto maior a oferta, menor o preço. Compro mais barato, o que força aos comerciantes que vendem mais caro a baixar seus preços. Quando os demais comerciantes baixam os seus preços ppara conquistar os clientes dos comerciants que vendem mais caro, o comerciante do qual eu era cliente vai ser forçado a baixar ainda mais os preços para não perder a clientela. Temos deflação.
Agora sem emprego é foda. E o Ministro Meirelles afirmou que a crise acabou o Brasil voltou a crescer mas o número de desempregados vai aumentar e não diminuir
baader
13 de maio de 2017 2:52 pmconfesso que não terminei de
confesso que não terminei de ler o texto, como fiz com o anterior (prisão de Dilma). sobre este, tenho a impressão que Dilma tem mais caráter do que todos os que foram ou estão presos. sobre inflação ser pior para os rentistas do que para os trabalhadores, meu deus, ‘tou variando!
C.Poivre
13 de maio de 2017 3:32 pmVenezuela, a próxima vítima
É iminente a intervenção dos EUA também na Venezuela:
https://dinamicaglobal.wordpress.com/2017/05/13/invasao-da-america-latina-exercicios-militares-com-o-brasil-patrocinado-pelos-eua-mudanca-de-regime-na-venezuela-e-agora-oficial-o-conselheiro-de-seguranca-nacional-dos-eua-mcmaster-pede-uma/
André Oliveira
13 de maio de 2017 4:06 pmInflação de 4% em um contexto
Inflação de 4% em um contexto de recessão ciclopica também é confissão de fracasso da política econômica. Com essa recessão e 14 milhões de desempregados já deveríamos apresentar deflação, inflação negativa. Comemorar 4% é coisa de idiotas.
Nicolas Crabbé
13 de maio de 2017 4:26 pmLula só copiou…
A política cambial do Brasil desde o início do Plano Real sempre foi baseada na valorização da moeda local como forma de segurar a inflação – quem não lembra em 1995 todo mundo orgulhoso com “o real mais forte que o dólar”. Essa política gera desequilíbrios externos e prejudica particularmente a indústria, cujos custos aumentam ao mesmo tempo que a concorrência de produtos estrangeiros se torna mais feroz (o preço dos produtos nacionais em dólar sobe quando a moeda local se valoriza perante o dólar).
FHC praticou essa política, que lhe garantiu a reeleição em 1998, depois o segundo mandato acabou praticamente antes de começar quando o câmbio estourou em janeiro de 1999.
Como André bem observa, Lula fez exatamente a mesma coisa, sobretudo no segundo mandato: o dólar passou de R$ 3,25 ao final de 2006 para menos de R$ 1,60 em agosto de 2008, pouco antes do início da crise financeira. Uma valorização de mais de 50% em menos de dois anos! Não há setor produtivo no mundo que consiga manter-se competitivo frente à concorrência internacional quando seus preços em dólar são duplicados em tão pouco tempo. Mesmo depois do início da crise, quando o dólar subiu bastante, o real voltou a valorizar-se e a indústria a perder comptetitividade.
Hoje, mais de 10 anos depois, o dólar vale R$ 3,15, menos do que em dezembro de 2006.
Nesses 23 anos, a única que tentou em algum momento sair dessa armadilha foi Dilma, mas o fez de forma desastrada, e não aguentou a pressão do setor financeiro que sentiu que ia perder a mamata.
emerson57
13 de maio de 2017 5:32 pmmundo real
Na observação do meu mundo real percebo que temos inflação. Altissima.
Ocorre que tenho o péssimo habito de frequentar supermercados. Na minha observação os preços subiram e muito nas ultimas duas semanas. Existe o preço “sensivel”, arroz, por ex. Subiu muitíssimo, mas, se encontrar uma boa “promoção” chamariz ainda vai se encontrar preços de 10 paus o pacote de cinco quilos de produto de boa qualidade. O diabo é que só arroz não faz a festa. O resto ficou caríssimo. Talvez para compensar o lucro perdido com a queda da demanda.
Almeida
13 de maio de 2017 5:58 pmPerfeito. Uma ótima lição de economia real.
Um salário merreca de mil reais é… mil vezes melhor do que nada!
Qualquer um que enfrenta ou já enfrentou o ‘terror operário’, o desemprego, compreende perfeitamente a lição, o que não é o caso de filhinhos de papai saídos da PUC ou outras madrassas neoliberais.
Luis Armidoro
13 de maio de 2017 6:00 pmPrezado André, não vou
Prezado André, não vou elogiar seu post, porque não é necessário. Novamente, aprendemos muito.
Algumas observações:
1 – O BACEN e o Ministério da Fazenda foram tomados em 1994. Nestes 23 anos de horror econômico neoliberal, a particpação da indústria no PIB passou de 32% para 8% (IBGE, 2016)
2 – O Itaú domina a política econômica do governo desinterino (me recuso a escrever o nome desta desgraça que deu um golpe e ocupa a presidência)
3 – No primeiro trimestre, o Itaú lucro quase R$ 6.000.000.000,00 (quase 2 bilhões de doláres). Issom, numa economia em ruínas.Isto não é um escandâlo, isto é CRIME
4 – Estes patetas, além de “não terem ligação com o mundo real”, trabalham para seus patrões, os bancos (que lucraram como nunca na destruição econômica)
Podemos ver que os bancos se tornaram inimgos do Brasil
André élebê
14 de maio de 2017 4:58 amSeu item 1 é essencial. Suas
Seu item 1 é essencial. Suas causas e consequências explicam a ruína da indústria no Brasil e a suserania nefasta dos bancos sobre toda nossa economia. Os métodos dos bancos, por sua vez, são em parte uma caixa preta (ninguém me convence de que esse JOGO TRILIONÁRIO é feito só por convicções, não propina), em parte uma monstruosidade bem conhecida (boletim Focus, porta giratória, etc).
Se ou quando alguém quiser ver o Brasil novamente contar com empresas fortes e empregos decentes para sua força de trabalho deverá topar uma queda de braço contra os bancos – e contra seus office-boys: a grande imprensa. É o caminho para a reconquista do BACEN.
Rui Ribeiro
13 de maio de 2017 8:10 pmTem algo pior do que uma inflação galopante?
Tem sim, é uma inflação baixa ou a deflação em razão do desemprego e dos baixos salários, enfim,, a inflação baixa e a deflação decorrentes do arrefecimento da economia é pior do que a inflação galopante.
Paulo F.
14 de maio de 2017 2:21 pmTem coisa pior
Chama-se estagflação. E o Brasil já experimentou esse veneno.
Rpv
13 de maio de 2017 9:48 pmA política econômica e o sonho de ser brasileiro
Sua crítica, num primeiro momento, me fez lembrar de duas metáforas, aliás, com o mesmo bicho.
Uma é do escorpião atravessando o rio. A outra é do sapo, que, quando é jogado na água quente, pula, mas quando colocado numa água que vai esquentando aos poucos, morre cozido.
Lembrei-me delas ao refletir sobre os rentistas que emprestam seu dinheiro para financiar o Estado e, ao mesmo tempo, cobram juros tão altos que inviabilizam seu desenvolvimento.
E aqui cabe observar que não há nada de errado em querer maximizar o rendimento de seu capital, o problema é que, à medida que você empresta com uma mão e tira com a outra, você inviabiliza o pagamento do seu devedor. Em outras palavras, os capitalistas financiam o Estado, gestor macro da economia nacional, e, ao mesmo tempo, sugam todo esse recurso através de juros extorsivos, os quais, no longo prazo, não apenas inviabilizam a remuneração desse capital, mas o próprio Estado e a economia nacional.
Mas aí, pensando nessa alma suicida ou na sua incapacidade de perceber o aumento da temperatura nas ruas, me dei conta de um detalhe.
A lógica dos rentistas não é suicida.
E onde está sua esperteza – o “pulo do sapo”?
Eles podem trocar real por dólar e cair fora.
Ou seja, primeiro transformam seus ativos em moeda corrente, depois emprestam a juros extorsivos e, na iminência de quebrar o Estado, trocam reais por dólar e caem fora, deixando o país quebrar “com os brasileiros dentro”.
O mico fica com a população que não pode sair do país.
E depois de tudo isso, esses mesmos rentistas podem, pós-depreciação dos ativos e apreciação do dólar, recomprá-los, embolsando a diferença. Logicamente, se acharem interessante.
E disso tudo se conclui uma coisa.
Não há nação sem patriotas. Isto é, não basta ser “elite dirigente” é preciso amar sua terra a ponto de não imaginar outro lugar para viver. Ou alguém imagina a “elite dirigente” americana pensando em morar na China?
Acredito que aí estão as vísceras da política econômica brasileira. De um lado, o desprezo à pátria e, do outro, a possibilidade de trocar reais por dólares enquanto os aviões aguardam, de tanque cheio nos hangares dos aeroportos, a hora da partida.
Tipo: “Não vejo a hora de desfrutar as riquezas brasileiras, transformadas em dólares, em solo estrangeiro”.
O que falta aos economistas é ouvir Tom Jobim, aquele que cantou e encantou Frank Sinatra, mas nunca deixou de amar Ipanema.
Falta ouvir mais os outros três “Antônios*” para aprender a amar nosso país. Não apenas para apreciar as aves que aqui gorjeiam, mas, principalmente, para valorizar nossa cor, nosso jeito de falar, nossas festas, danças, enfim, nossa cultura, nosso modo de ser, pensar e amar.
*https://jornalggn.com.br/blog/gilberto-cruvinel/3-antonios-e-1-jobim
Orides2
13 de maio de 2017 10:02 pmPor favor…
Caro Sr. André,
Poderia fazer uma explanação das principais ações que o governo Lula adotou para manter o real sobrevalorizado?
Como parece ser um aspecto vital da política econômica mas é pouquíssimo detalhado, acho que todos os leitores se beneficiariam muito, eu pelo menos desejo muito saber.
Como pederíamos enfrentar a política do governo americano de inundar o mercado com dólar moeda (chamada” quantitive easing”, perdoe se não expressei o termo correto), que ele adotou para enfrentar a crise do sub-prime? E que foi seguida um pouco mais tarde pela União Européia?
Lembro que nos tempos do governo FHC, o principal fator que causou uma sobrevalorização do real foi o “congelamento” da taxa de câmbio no lançamento no Plano Real, e que durou todo o primeiro mandado do Fernando Henrique.
Em 1996, fiz uma viagem de trabalho ao exterior, e comprei cheques de viagem em dólar, pagando R$ 0,86 por dólar!.
Antecipadamente grato!
Andre Araujo
14 de maio de 2017 1:04 amO processo que leva o Real a
O processo que leva o Real a se valorizar alem da taxa de cambio de equilibrio é a taxa de juros basicos muito acima da
media de juros internacionais. Esse ” a mais” que se paga no Brasil em JUROS REAIS, isto é a taxa de titulos do governo
ou de certificados de depositos de baixissimo risco, se esse ” a mais” for muito acima do que o aplicador obtem nos EUA ona Europa. lá ele consegue hoje 1,5% ao ano no maximo e aqui ele conseguriia 5 ou 6% acima da inflação, ATRAI capital de fora em grande volume e isso derruba internamente o preço do dolar, valorizando o Real acima do seu valor natural.
Esse processo prejudica muito a industria e a exportação, deprimindo a atividade economica. É uma politica CONTRARIA aos ditames da POLITICA ORTODOXA , que usa o cambio para reequilibrar os ciclos economicos internos. Quando há RECESSÃO
a moeda deve ser desvalorizada para tornar as mercadorias exportadas mais baratas, o BRASIL ESTA FAZENDO O CONTARIO, está aprofundando a recessão dentro da recessão.
No Governo Lula, especialmente no primeiro mandato, o Real estava sobrevalorizado MAS numa escala muito menor que a de hoje e o Pais estava em ciclo de crescimento que acompanhava o ciclo expansivo mundial pre-2008, portanto os efeito internos da valorização do Real não se fizeram sentir de forma tão acentuada como hoje.
Orides2
14 de maio de 2017 3:31 pmAgradecido
Caro Sr. André, agradeço pela gentileza de suas explicações.
Infelizmente, não vejo como nos livrarmos dessa praga dos juros aburdamente altos, que me lembro só vieram a existir em minha vida após a crise cambial de 1982, Delfim Netto era ministro da Fazenda no governo militar da época.
Não vejo como, porque a associação dos rentistas com a banca privada (nacional e internacional), é quem realmente manda no Pais, e agem de forma discreta, como se não existissem.
Toda a parafernália do Copom, metas de inflação, etc., surgiu para que essa verdadeira quadrilha sugasse uma parcela muito expressiva de nosso trabalho.
Se não me engano, é o setor financeiro um dos maiores financiadores de campanhas eleitorais. As empreiteiras aparecem muito, mas devem ser café-pequeno perto das doações do mercado financeiro.
E, além disso, acho que eles são os que de fato controlam o tom do noticiário da imprensa: sempre foram grandes anunciantes, e, afinal, tem a chave da máquina de emprestar. Com esse controle da mídia, criaram todas as narrativas que o senhor tão bem explanou em seu artigo. São eles quem mandan nos economistas, esses apenas fazem o que a chefia manda, inventarão o que for preciso para agradá-los e ganhar seu naco.
Lembro que, no primeiro governo da Dima, acho que no final, conseguiu-se de maneira que acho meio milagrosa, baixar a SELIC a menos de 7% a.a. Penso que foi naquela época que deciciu-se por criar todo o esquema que acabou destituindo-a no segundo governo.
Como enfrentar inimigo tão poderoso?
Acho que só quebrando todos eles, não importa o que venhamos a sofrer também.
Respeitosamente.
evandro condé de lima
13 de maio de 2017 11:11 pmCaro André
Eu, na minha ignorância de economia, fiquei intrigado. Caracas, os alemães antes com o marco e hoje com o euro não dependem de moeda desvalorizada em relação ao dólar. Há questões por trás que não foram mencionadas. Eu acredito que a merda é que a sobrevalorização é por decreto e não por produtividade ou semelhante.
Quanto ao que citou sobre os operários, os tempos mudaram. Se conseguem comprar um MCMV já estará bom demais. E terão de encarar uma estrutura precária de tudo, uma distância ao trabalho astronômica – as cidades cresceram – e correr o risco de milícias, tráfico, escambau a quatro.
E hoje, com os cartões, a inflação fica nos cartões, a população anda meio sem noção do quanto custa, e isso quando consegue comprar.
Andre Araujo
14 de maio de 2017 3:14 amNesta semana confirmou-se a
Nesta semana confirmou-se a venda de 49,9% da XP Investimentos ao Banco Itau por R$6,9 bilhões, um mega negocio em cima do nada economico, papel que compra papel, no circuito nenhum bem economico, nenhum emprego e nenhum valor para o pais existe, é a finança alimentando a finança em um momento de profunda recessão na economia produtiva, uma transação que significa ZERO para qualquer valor real na economia em seu conjunto. Se o ITAU investisse esses mesmo R$6,9 bilhões
em qualquer setor da produção criaria no minimo 7.000 empregos, prefere todavia criar mais 2 bilionarios que vão curtir o dinheiro em Miami, dinheiro gerado no Brasil vai voar como em outras aquisições desse tipo, o Pais se empobrece com esse tipo de negocio na nuvem.
Rpv
14 de maio de 2017 6:04 pmPerfeito
Mas além dessa questão, eu levantaria outra em relação a essa operação.
A XP disputava mercado com o Itaú. Concorria com ele forçando-o a reduzir suas margens para não perder clientes. Por outro lado, a XP também era obrigada a apertar suas margens para ganhar clientes, afinal, o Itaú é uma marca conhecida, tem um nome consolidado no mercado, e isso forçava a XP a aumentar seu “prêmio” para captar mais clientes.
Aí eu pergunto: quem perde com essa transação?
Não é o mercado, que fica mais concentrado?
Afinal, quando dois grandões deixam de brigar entre si para ter mais clientes, pois agora o resultado vai para o mesmo bolso, só resta desfrutar a boa vida de um mercado oligopolizado – de baixa concorrência.
Em outras palavras, no médio e longo prazo essa operação de compra de parte da XP pelo Itaú aumenta a margem de lucro desse gigante (num mercado bancário altamente concentrado) e diminui a rentabilidade dos demandantes – investidores individuais.
Agora eu pergunto: isso é fortalecer a livre concorrência de mercado?
Ora, somente um Estado forte (moderno – com seus três pilares de freios e contrapesos) é capaz de garantir a inexistência de cartéis (que inviabilizavam a livre e salutar concorrência mercantil). Somente um Estado forte será capaz de pairar soberano sobre todos os atores econômicos atuantes no país, a ponto de garantir igualdade de competição entre eles – nos mais diversos setores.
Um Estado fraco permite que o mercado se concentre e, assim, mate sua essência, a igualdade de competição.
Esses “liberais”, ao lutarem pelo enfraquecimento do Estado estão na verdade matando o livre mercado, e com isso a economia brasileira.
Jofran Oliva
14 de maio de 2017 3:34 amO mais triste é aguentar o ministro
O mais triste é aguentar o ministro Henrique Meireles explanando na televisão que está tudo sob controle, e que o Brasil está começando um processo de crescimento econômico, quando todo mundo sabe que isso não está acontecendo. O simples controle da inflação aliado a reforma trabalhista e da previdência não atrairá capital estrangeiro para investimento em atividades produtivas no país, não enquanto houver aplicações com rendimentos 5% a 6% acima da inflação, como disse o André Araújo. Excelente texto, espero que algum iluminado do governo o leia e alerte aqueles cabeças ocas.
Andre Araujo
14 de maio de 2017 9:01 pmO Ministro é um desses
O Ministro é um desses acidentes historicos a que estão sujeitas as grandes nações em tempos de crise existencial. Uma nulidade intlectual, dele nada se sabe sobre sua visão de Pais, de cuja distancia se deduz pela sua trajetoria. Executivo de banco estrangeiro menor, nada em sua biografia o qualifica para ser aquilo que se espera de uma grande liderança politica.
Nenhuma ligação com o Brasil profundo, aquela imanencia que liga o personagem as grandes aspirtações que vem do passado longinquo e se projetam para o futuro, aquela chama que tinham um Oswaldo Aranha, um Celso Furtado, um Roberto campos, um Delfim Neto, um Mario Simonsen, um elo do passado que se apresenta no presente e lança o futuro, o Ministro é
um passante pelo Brasil, se tudo der errado ele pode em 24 horas voltar a seu ninho em Nova York, sem qualquer prejuizo,
como pode o futuro de um grande pais, um dos cinco maiores do mundo, depender de uma figura de tal insignificancia?
E como a impresna do Partido Global esquece que essa figura era até ser Ministro o presidente do Conselho do banco
do grupo JBS, hoje sob pesada investigação? Isso não atinge o Ministro?
Por muito menos o Partido Global crucifica atores no centro da Lava Jato., não é mesmo Miriam Leitão?
André élebê
14 de maio de 2017 4:48 amApenas acrescento um ponto
Apenas acrescento um ponto ao texto e comentários (todos excelentes): ainda há inflação, mesmo durante essa hecatombe econômica que vivemos, em grande parte graças aos tais “preços administrados”. De Sarney para cá muita coisa foi desindexada da inflação, mas especialmente em relação aos salários. Aos preços, ainda há indexação.
Paulo F.
14 de maio de 2017 2:43 pmPlano Real
Faz-me rir! Existiu sim um Plano Brady!
Quanto ao relatado pelo Andy, a vida real é muito mais criativa que a cabeça dos “iluminados”. Porem a celeridade das trocas de informações influi no desequilibrio de forças para o lado do 1% .
A resposta foi enunciada por Marx há mais de cem anos: “trabalhadores do mundo, uni-vos”.
Marco Abi
14 de maio de 2017 11:54 pmFácil falar e escrever
André, meu caro, na boa: esse texto nem em grêmio estudantil secundarista!
Com a inflação dos anos Sarney a classe média tinha overnight e conta remunerada. Os pobres? Nem conta tinham. Tinha de receber o salário e torrar o quanto antes, para minimizar as perdas.
Os ricos nunca sofrem. Os rentistas ganhavam com over, seguiram ganhando com os juros do FHC, do Lula e da Dilma.