4 de junho de 2026

Lula, o martírio e o impasse do condomínio do poder, por Roberto Bitencourt da Silva

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Lula, o martírio e o impasse do condomínio do poder

por Roberto Bitencourt da Silva

A figura da vítima, do sujeito martirizado, perseguido e acossado pelo poder é um arquétipo muito poderoso no imaginário dos povos ocidentalizados e cristianizados.

Grandes personagens na literatura, líderes políticos icônicos e indivíduos santificados no universo religioso, são frutos daquele imaginário.

No dia a dia, quantas vezes não nos pegamos torcendo por um time de futebol mais frágil tecnicamente, por um personagem cinematográfico em posição, tendencialmente, desfavorável em relação ao meio em que se desenvolve a narrativa?

Pois é. A estrutura associada de poder nacional e gringo que manda em nosso País está conseguindo incluir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva naquele panteão vitimizado (e por isso glorificado) de personagens políticos. Deliberadamente, mas a contragosto.

A seletividade das ações judiciais, dos enquadramentos e das pautas do noticiário dos conglomerados de comunicação é por demais evidente. Somente Lula interessa. Um “demônio” a ser exorcizado.

O depoimento prestado pelo ex-presidente da República, na quarta-feira, representou mais um capítulo da seletividade judicial-midiática. Como também, da fragilidade do propósito de enquadrar Lula sob o ponto de vista da moralidade privada e criminal.

Essa operação, além de arbitrária, por nada ter sido comprovado, politicamente tem sido um tiro no pé das vestais protoudenistas da “moralidade” e do “combate à corrupção”.

Não convence a amplas parcelas da população, sobretudo a expressivas frações das classes trabalhadoras populares e medianas. E tem permitido a construção da imagem arquetípica do martirizado e perseguido. A seguir a perseguição, o ex-presidente sairá mais forte, com uma imagem divinizada.

É verdade, a seletividade e as perseguições podem satisfazer o sadismo de sabor elitista de muitos setores da sociedade brasileira, notadamente de faixas da pequena e da alta burguesia, que nunca engoliram um nordestino de origem pobre e proletária na mesa da casa grande.

Mas, isso implica em um importante impasse para o poder econômico e as oligarquias políticas: de um lado, dão sequência às ações persecutórias a Lula, suspendem as eleições e fecham de vez o País – tendo que lidar com todas as consequências possíveis, como uma acentuada instabilidade social e sanções ou desgastes na cena internacional.

Se forem realizadas eleições no ano que vem, é muito difícil que Lula não vença.

De outro lado, a estrutura de poder engole a contragosto o sapo barbudo – mantendo as eleições e a participação de Lula nelas – e procura um acordo com o ex-presidente, para tentar alcançar um meio termo entre os direitos sociais garantidos pela Constituição violada e a agenda ultrarreacionária que está impondo ao povo.

Fazer esse tipo de costura entre os de baixo e os de cima, há décadas, tem sido o feijão com arroz da prática política de Luiz Inácio. Importante frisar: os governos do ex-presidente sequer arranharam algum interesse do bloco de poder enraizado no Brasil e no exterior.

Ampliou o mercado consumidor e aqueceu a economia, em meio à elevação dos preços e das compras internacionais de commodities, dentro das linhas demarcatórias do capitalismo subordinado e dependente, subalterno na divisão internacional do trabalho.

Contudo, todas as ações e bandeiras desfraldadas pelos setores conservadores e entreguistas, na grande mídia comercial, nas entidades empresarias representativas do agronegócio e das multinacionais (Fiesp e Firjan, à frente), os bancos etc., nos últimos anos, têm demonstrado um furor privatista, colonizante e vende-pátria que ultrapassa as características da trajetória de Lula. Talvez seja incompatível mesmo com os limites conciliatórios do ex-presidente.

O impasse para o poder é claro. É decisivo acompanhar os seus cálculos e as suas iniciativas e artimanhas.

Todavia, às classes subordinadas e às forças progressistas cumpre, fundamentalmente, encetar ações que proporcionem ao Povo Trabalhador ser alçado à condição de sujeito político.

Isto é, ator com capacidade de escolha e iniciativa, organizado e mobilizado, à revelia dos arranjos do poder, para que não fiquemos como meros objetos hiperespoliados a reboque do condomínio vende pátria, antipopular, burguês e oligárquico.

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

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4 Comentários
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  1. Antonio C.

    11 de maio de 2017 8:32 pm

    Comentário.

    Aécio prestou depoimento dia 2 de maio.

    Pra imprensa a soldo, não veio ao caso.

  2. Roberto S

    11 de maio de 2017 8:37 pm

    dialética

    quanto mais a elite deseje e procure barrar o avanço social, mais as contradiçoes e condições objetivas para supera-la. Muito obrigado, otimo texto (como é normal aqui no blog do Nassif)

  3. romulus

    11 de maio de 2017 8:59 pm

    Em Curitiba o “leão”… miou!


    *

    Link:

    http://www.romulusbr.com/2017/05/em-curitiba-o-leao-miou-altivez-de-lula.html

  4. Fabio Oliveira Schmidt Capela

    11 de maio de 2017 9:44 pm

    Lula é autêntico

    O problema das supostas “elites” brasileiras em enquadrar o Lula é mais complexo do que simplesmente um processo de martirização. Por um motivo básico: Lula é uma das coisas mais raras no mundo, um político autêntico.

    Existe um ditado que político nenhum resiste a ter sua intimidade aberta. Isso ocorre porque, via de regra, políticos criam um personagem, ima imagem falsa com quem os eleitores possam se identificar ou a quem possam admirar; mostre ao povo que por trás das cortinas o mágico é só um homem e o encanto está desfeito.

    Lula é diferente. Ele se identifica com o povo porque é do povo. Por conta disso, as invasões de privacidade, os vazamentos, tem efeito contrário; eles mostram ao povo que a imagem projetada pelo nosso primeiro presidente vindo do povo nunca foram encenações, que o Lula é realmente aquilo que ele diz ser. Que ele se diverte nos fins de semana indo ao rancho para andar de canoa e pedalinho, que ele carrega ele mesmo o isopor com cerveja e refrigerantes que vai suprir a família, que o apartamento que ele queria comprar está em um condomínio para bancários aposentados e cabe no bolso de muito trabalhador por aí, que no telefone ele fala como alguém do povo, e por aí vai.

    Acredito que por isso o Lula é tão resistente a perseguições. Todo político tem muito a esconder, a começar por quem ele realmente é; o Lula, não.

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