4 de junho de 2026

As redes sociais e o fascismo, por Ion de Andrade

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As redes sociais e o fascismo

por Ion de Andrade

A provável derrota de Marine Le Pen na França, precedida de derrotas emblemáticas do fascismo na Europa, como as da Áustria, Holanda e do plebiscito regulando a naturalização facilitada na Suíça, faz crer que nessa rodada chegamos a um teto. Na França, no entanto, o rastro de ódio deixado por Marine Le Pen, cria ambiente político inédito desde a segunda guerra mundial.

Dito isso, e é o que precisa ser enfatizado, a extrema direita cresceu enormemente nesses últimos anos, alcançando na Europa cifra que poderia situar-se em diversos países na casa dos 30% do eleitorado ou mais. É verdade que não se trata de fenômeno universal, que nem todos os países estão igualmente tocados e que os fascismos europeus constituem movimento que estranhamente sequer tem identidade comum. E há os movimentos semifascistas de cunho nacionalista como o que produziu o Brexit na Inglaterra por exemplo que compartilha com os outros fascismos europeus o medo/xenofobia do estrangeiro, uma forte base rural ou de setores urbanos de baixa renda e o fato de ter surfado uma onda de ódio, rara naquele país.

Essa onda de matiz fascista se alimenta de problemas sociais de fundo, a crise de hegemonia que vivemos hoje, a penumbra donde emergem os monstros como viu Gramsci.

Sem perder de vista esse fator causal mais importante, podemos nos perguntar sobre que alcance teria tido o fascismo na contemporaneidade, não fossem as redes sociais.

Sabe-se que as tecnologias disponíveis mudam as relações de produção, as guerras e por similaridade mudam também a política. Essa dependência entre o mundo tecnológico (subjacente) e os fenômenos superestruturais (manifestos) pode perfeitamente fazer emergir fortalecido, como num caleidoscópio, novas expressões que não se deram ainda inteiramente a conhecer.

Dito isso é importante reconceituar o fascismo não somente como um movimento de ódios, mas como um alinhamento vetorial de vontades que pretende construir uma “democracia” onde uma maioria ideologicamente vetorizada deixará de reconhecer os direitos e prerrogativas da minoria (o que caracteriza Estado de direito) aniquilando-a. Lembremos que o fascismo é um movimento pretensamente arbitral entre as classes fundamentais e que, conforme Gramsci, cria uma nova “totalidade” (donde totalitarismo) através de uma ideologia “organicamente estruturada” o que o diferencia de outros regimes de força que atuam de forma mais espasmódica no plano da repressão.

Gramsci, entretanto, e nisso me parece que erra, enxerga no fascismo, um retorno à “Sociedade Política”, ou seja um retorno à força em lugar do consenso como mecanismo de ordenamento do Estado. Discordo desse entendimento por perceber que a sua ideia de “ideologia organicamente estruturada” aponta, na verdade para a permanência de uma “Sociedade Civil” zumbi no comando da sociedade fascista, um consenso macabro que subordina com uma ideologia totalitária os consensos anteriores e continua a comandar a Sociedade Política (ou o uso da força) a partir da Sociedade Civil e isto por uma adesão “voluntária” dos sujeitos fascistizados. Ora, a supremacia dessa ideologia organicamente estruturada, esse alinhamento monstruoso de vontades, capaz de anular as pessoas (que se convertem em autômatos) só pode se dar com a interseção de inúmeros e repetidos apelos emocionais de natureza visceral e grupal tais como o orgulho da pátria, o ódio aos adversários, a violência, a inferiorização dos adversários, etc. Uma espécie de batuque hipnótico precedendo a guerra.

É onde entram as redes sociais. É interessante perceber que toda essa onda neofascista evoluiu simultaneamente ao seu desenvolvimento e universalização e que elas deram velocidade e alcance à formação dessa uniformidade de opiniões fascista e foram um veículo extraordinário para a materialização de uma “ideologia organicamente estruturada” que ainda está em fase de maturação e que, por hora, não alcançou sua elaboração final, como as do fascismo ou do nazismo.

Costumamos ver as bondades das redes sociais, entendidas como capazes de politizar as massas e de organizar ações em larga escala. Entretanto elas são portadoras de inúmeros problemas, que são o esterco para o fascismo. As redes sociais (1) desumanizam os contatos, pois nunca estamos diante de pessoas, mas de imagens, (como no trânsito onde nos transfiguramos em seres irritadiços e brigões, até o momento em que nos encontramos de fato pessoalmente com o outro motorista…), (2) convertem pessoas pacatas em guerreiros violentos cuja motivação decorre de uma indignação pré-selecionada pelo círculo de amigos, (3) filtra assuntos por uma afinidade que na verdade põe cada um dentro de uma bolha roboticamente definida de onde é incapaz de sair e formar qualquer reflexão exterior a esses limites. Em suma, em lugar de libertar, com imensa frequência as redes enjaulam as pessoas.

É esse personagem enjaulado, alimentado de forma circular por sua própria doutrina quem sai às ruas.

É também verdade que a blogosfera é parte das redes sociais e têm permitido a produção de uma cultura inteligente, plural e aberta. Esse fenômeno minoritário é o contraponto do outro.

Porém num mundo povoado por personagens como Le Pen, Trump, Putin e outros líderes que talvez venham a funcionar historicamente como balões de ensaio para um salto fascista de maior envergadura mais à frente, devemos nos perguntar se as redes sociais, tal como estão configuradas, não são prioritariamente uma escola de fascismo para as massas.

Se ao fascismo interessa a submissão passiva à ideologia totalitária em construção, numa linguagem simplificada e sem nuances, onde só há sim e não; à democracia interessa a iniciativa política e a transformação da sociedade, ou seja a construção de uma abordagem complexa e cheia de nuances.

As redes sociais parecem ser sob essa ótica, preenchidas pelo simplismo telegráfico da sua comunicação, uma ferramenta mais adequada ao uso e aos propósitos da extrema direita do que aos do campo democrático. À extrema direita dá alcance, ao campo democrático rouba energias substituindo o mundo real pelo simbólico, saciando o desejo de militância pelo clicar do botão compartilhar, que embora mantenha a resistência alerta apenas retroalimenta um ciclo que roda em torno do seu próprio eixo, sem acumular poder real para construir o novo.

Para que as redes sociais fossem melhores para a esquerda e o campo democrático, teriam que estar subordinadas a uma ação política e social capaz de convertê-la em ferramenta meio para um fim que, desde sempre, não poderia ser outro que o do trabalho árduo e cotidiano com o nosso povo nos seus locais de moradia ou de trabalho.

Para nós as redes sociais são estratégicas desde já e compõem importante campo de resistência e elaboração, o serão ainda mais quando estiverem alinhadas a um projeto consensual de sociedade de que sejam parte ativa.

Para o fascismo é o solo a perder de vista, adubado com um fertilizante natural de alta eficácia e de entrega domiciliar a milhões. Ódio, desprezo, violência e simplismo em doses diárias.

No longo prazo dos processos sociais consumados, espero que não venhamos a constatar que se tratava de uma Caixa de Pandora. Possam os cronistas do futuro constatar que foram o surgidouro de uma sociedade aberta e democrática e que foram compatíveis com os direitos e garantias individuais e com a civilidade.

Ion de Andrade

Médico, epidemiologista e pediatra, professor universitário e militante do SUS e dos movimentos urbanos.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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10 Comentários
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  1. EG

    7 de maio de 2017 6:31 pm

    concordância e observações complementares

    Ion, eu concordo inteiramente com tua análise. Apenas complemento com algumas considerações pessoais.

    a) Acredito que as análises de alguns pensadores normalmente considerados “conservadores” seriam extremamente úteis para uma fundamentação mais clara desta argumentação. Penso particularmente em Ortega y Gasset. Sua análise em “La rebellión de las masas” é fundamental para se entender como a massificação é fundamento para o fascismo. A mesma coisa vale para o “além do homem” de Nietsche e para a crítica de Heidegger ao “man”, à pessoa impessoal. Esses autores se fundam num ideal humano nobre, anterior ao igualitarismo burguês. A relação entre o igualitarismo e à submissão ao comum é o fundamento do fascismo. As redes sociais são o retrato mais claro disso hoje.

    b) Eu não conheço apropriações dessas ideias para a análise social fora do campo da teologia (normalmente olhada com preconceito enorme e bobo entre nós). Dois autores que conheço tratam dessa questão. Paul Tillich, teólogo alemão depois naturalizado norte-americano, por ter de fugir do regime nazista (só para tentar superar alguns preconceitos: amigo pessoal de Horkheimer e supervisor de Adorno em sua tese de livre-docência), desenvolveu uma crítica interessante à concepção abstrata da cidadania no ambiente burguês, exemplificada particularmente em sua obra “A decisão socialista”, ainda não disponível em português (sei do original alemão de 1933 e das traduções para o inglês e o francês). Outro teólogo interessante que trabalha com um paradigma conceitual bem distinto, mas igualmente produtivo para a crítica da massificação e a defesa de uma abordagem culta e pessoalmente engajada para a contraposição à impessoalidade do igualitarismo indiferencista que fundamenta o fascismo é o uruguaio Juan Luis Segundo. Sua obra “Masas y minorias”, também ainda não disponível em português e mesmo rara de se encontrar em espanhol, é muito instrutiva nesse sentido. Mas estas ideias de Segundo a respeito são encontráveis em várias de suas obras que estão traduzidas para o português, embora mescladas com vários outros conteúdos que talvez atraiam menos a quem só se interessar pelo aspecto social. Indico nesse sentido a obra “Que mundo? Que homem? Que Deus?”. Segundo foi um dos iniciadores da Teologia da Libertação na América Latina, embora tenha sempre sido um tanto outsider por seu caráter não populista, o que o fez menos conhecido no Brasil do que no ambiente hispânico.

    1. Ion de Andrade

      7 de maio de 2017 6:47 pm

      Obrigado. Interessantes

      Obrigado. Interessantes reflexões e fontes.

       

      Ion

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    7 de maio de 2017 8:05 pm

    No Brasil o fascismo cresceu

    No Brasil o fascismo cresceu nas redes sociais DEPOIS de ser largamente instigado por jornais, telejornais e revistas que há mais de uma década atacam diariamente o PT, Lula, Dilma e José Dirceu enquanto esconde os crimes cometidos por peemedebistas e tucanos como Michel Temer e Aécio Neves.

    Portanto, como nos anos 1930 no Brasil o fascismo é um produto tipicamente jornalístico e não um fenômeno que pode ser atribuído ao surgimento e crescimento das redes sociais. 

    1. Ane Marie

      8 de maio de 2017 2:07 am

      Sempre me pergunto…

      Por que teria o fascismo “crescido” no Brasile no mundo ( se é que cresceu mesmo)?

      Resposta para a “hipótese” : INSATISFAÇÃO.

      Quando a felicidade e o contentamento imperam, ninguém se preocupa com “fascismos”. Em todas as vezes qem que ocorreu tal fenômeno, a história mundial demonstra: HAVIA INSATISFAÇÃO REAL, E NÃO “JORNALISTICA”.

       

    2. Ane Marie

      8 de maio de 2017 2:10 am

      Por que teria o fascismo

      Por que teria o fascismo “crescido” no Brasile no mundo ( se é que cresceu mesmo)?

      Resposta para a “hipótese” : INSATISFAÇÃO.

      Quando a felicidade e o contentamento imperam, ninguém se preocupa com “fascismos”. Em todas as vezes qem que ocorreu tal fenômeno, a história mundial demonstra: HAVIA INSATISFAÇÃO REAL, E NÃO “JORNALISTICA”.

       

      1. M Gaspar

        8 de maio de 2017 4:20 pm

        Insatisfação sempre haverá

        Insatisfação sempre haverá seja de uma maioria ou minoria, mas como essas insatisfações serão canalizadas já serão outros quinhentos. Dependendo do discurso do lider ou mídia corporativa apoiadora deste lider isso pode descambar para o ódio ao outro como ocorreu no fascismo e nazismo.

  3. romulus

    7 de maio de 2017 8:32 pm

    Macron eleito: com “65%” (entre aspas!) – análise do resultado

    http://www.romulusbr.com/2017/05/macron-eleito-com-65-entre-aspas.html

  4. Justiniano

    8 de maio de 2017 12:07 am

    E no caso do Brasil? A trilha Curupira.

    É preocupante o crescimento destes movimentos e seguidores mas fico incomodado quando são taxados de fascistas. Não que sejam melhores. Ao contrário, penso que chamá-los de fascistas é dar-lhes um “upgrade” inapropriado. Me parece evidente o crescimento deste circo de extrema direita, porém mais direcionado ao terror anticivilizatório do que ao totalitarismo organizado.

    A tecnologia das redes sociais deu voz e principalmente coragem para soltar às ruas as bestas feras que estavam amarradas em tempos de convivência frente a frente. Se pensava, se acreditava, mas daí ter coragem de jogar a público as barbaridades que a língua se negava a pronunciar era o problema, o bloqueio. Isto até chegar um tal de Facebook.

    O fenômeno brasileiro, antes de buscarmos explicações em Nietsche ou Hannah Arendt, sugiro passar pelo cronista Nelson Rodrigues e suas percepções acerca do idiota na nossa sociedade. Alertava o conservador e moralista dramaturgo que os idiotas constituíam um problema a ser agravado pelo incessante crescimento na quantidade de indivíduos, até constituírem uma maioria dominadora e determinante dos destinos da nação. Parece que a morte o levou em tempo.

    Por fim, para não sermos desleixados com a História e até para não debochar de ilustres sacripantas do fascismo do século passado que não carece citar nomes, evitemos taxár estes grupelhos sumariamente de fascistas. Deixo a sugestão que utilizemos o termo subfascistas para estes casos da extrema direita brasileira de nosso tempo. Estará de bom tamanho.

     

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