4 de junho de 2026

Não é possível cantar enquanto se lê notícias de jornal, por Maíra Vasconcelos

Bom mesmo é poder cantar enquanto se lê. Porque, às vezes, no silêncio da leitura de um romance ou de um poema, quem saberá se alguém está cantando

Não é possível cantar enquanto se lê notícias de jornal

por Maíra Vasconcelos

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Hoje, ao ler os jornais, percebi o óbvio, que não é possível cantar enquanto se lê notícias. Talvez porque as palavras de jornal tenham essa rigidez de quem deve responsabilidade e satisfação sociais. E, ainda, a tal da objetividade. Meu Deus, lemos páginas e páginas de jornal em busca daquilo que preferiríamos não ver. E nem sequer há espaço para cantar. Pior, nos tempos atuais, ler jornal pode ser como participar de um funeral obrigatório. 

E hoje, ao ler os jornais, vi a sua cara mais bruta, não era possível cantar, buscar ritmo nem harmonia. Ora, e já existiu algum jornal harmonioso? Os jornais são verdadeiros poços fundos de informação. Por exemplo, desde as informações de uma bula de remédio até para que serve cada peça de um carro, isso interessa aos jornais. Mas, cuidado, não confundir informação com realidade. Ainda que toda informação seja mesmo fundamental. E rígida de dar dó, não canta nadinha. Mas vá viver sem qualquer informação e serás um poço vazio. 

Bom mesmo é poder cantar enquanto se lê. Porque, às vezes, no silêncio da leitura de um romance ou de um poema, quem saberá se alguém está cantando, meditando ou apenas fingindo de bobo para não se ater demais as realidades. Ah. Quantas desculpas para camuflar as notícias do dia. Apenas porque alguns precisam cantar diante do horror, cantar enquanto se escreve ou se lê, isso que os jornais jamais podem mentir ou disfarçar. E, além do mais, estão proibidos de fazê-lo. Os jornais não possuem qualquer compromisso com a beleza, afinal, não trabalham para transformar os horrores. Os jornais e sua obrigação de retratar, expor e anunciar cada uma de nossas tristezas, como se não fossem. 

 

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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1 Comentário
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  1. Rui Ribeiro

    16 de abril de 2020 8:58 pm

    Quem canta, deus males espanta

    Eu vou cantar, eu vou cantar
    Eu sou Maguila, não sou McCartney

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