3 de junho de 2026

Flores costumeiras, por Maíra Vasconcelos

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O que seriam flores costumeiras? Entre estações indefinidas, pergunto-me. E desde a primeira palavra tenho flores em minhas mãos. Detida pela obediência e olhos sempre tão abertos. O olho cavalar. Esses olhos encharcados pelo mundo. Para ter e falar uma história que ainda não sei. Talvez, a história à espera de um novo momento, apenas. Quando virá este inusitado momento?

Não perder a lentidão, a existência do passo adiante é primordial. Cada crônica é um passo? Um-passo-atrás-do-outro. Esquecer a sequência narrativa e os acontecimentos. Se minha palavra é desgrenhada como cabelos ao vento. E o enredo foi surrupiado pelos excessos de criar. Talvez. Os excessos dessa mente imaginativa, essa mente cheia de extremo pavor pelo tédio. Aquele tédio profundo. Os excessos dessa boca faminta, as demasias de uma vida que a perdi e a mantenho quieta em meu interior. Uma voz interrompida para se ter mais vida e outras vozes, mais vida e outras vozes.

Quantas vidas? Quantas vidas serão necessárias para se ter uma história. E se a criação declinar? Acabou! Exclamação. A criação de tantas frases com flores em minhas mãos – também aquela frase promíscua que a venero. E essa fantasia que ainda não acabou. Entã escrevo como se fosse a última palavra. Amanhã.  

O que seriam flores costumeiras? Sim. Flores costumeiras podem ser como o carnaval de Shumann. Entre flores melódicas estacionais, estarei sempre a observar o arrastar de tantas flores. Todos os dias. Até quando? Meus pés meus olhos afundados em nome da paz inalcançável. E, logo, uma mentira. Respiro confortavelmente entre palavras, em cada palavra. Para aliviar toda alma exigente: uma mentira uma fantasia, uma mentira uma fantasia. Respiro. Quantos tipos de vida! Exclamação.

Vou. Pelo abrandar das estações. Toda mudança vista em cores tão fortes, quase um susto. Estações podem se acalmar? Amanhã. Para escrever novamente uma vida outra vida, uma vida outra vida. Respiro. Gargalhando, claro, cheia de gargalhada pelos avisos da morte. Quanta evidência! Exclamação. Tudo às vezes é tão evidente aos olhos entregues presos ao mundo, aos sentidos aguçados perceptivos. Tudo às vezes é tão evidente ao corpo de cores e flores. Uma selvageria de presenças. Sim. Toda mulher-animal é um instrumento da arte.

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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