21 de maio de 2026

A pistolagem de um ex-juiz na terra do necrojornalismo, por Gustavo Conde

Moro é o princípio de tudo. Como diz Lula, não é Moro que é filho de Bolsonaro, mas Bolsonaro que é filho de Moro.
Ilustração: Carvall

A pistolagem de um ex-juiz na terra do necrojornalismo, por Gustavo Conde

O risco como sempre é o nosso necrojornalismo. Ele tem a tendência estrutural irresistível de fomentar a manutenção de governos de extrema-direita.

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Hoje, eles já ameaçam ‘esquecer’ a demissão de Moro para voltar a dar sustentação ao governo Bolsonaro.

Era esperado, sem dúvida.

No entanto, o cenário, desta vez, é levemente diferente.

A saída de Sergio Moro desobriga a Rede Globo na arte de fomentar a manutenção da tutela por Bolsonaro.

Moro é o princípio de tudo. Como diz Lula, não é Moro que é filho de Bolsonaro, mas Bolsonaro que é filho de Moro.

E a perda do ‘pai’ costuma causar danos, ainda que seja o destino mais previsível de toda a nossa experiência simbólica – que também é política.

Bolsonaro está órfão.

Por outro lado, os militares já o rejeitaram uma vez e não terão problemas em rejeitar outra.

O discurso já está até pronto: ‘a gente tentou protegê-lo, mas ele não seguiu nossas orientações’.

O que iremos testemunhar agora no horizonte sempre sombrio de nosso necrojornalismo é um movimento de calmaria, atravessado pela ferida da ‘perda’ do filho pródigo – porque esta imprensa venal e oportunista também perdeu o seu juiz favorito, outrora confortavelmente instalado nas fendas do poder.

Globo, a mãe de Sergio Moro – e portanto, avó de Bolsonaro (desculpem, não resisti) -, terá de proteger seu rebento mimado, agora que ele perdeu a cobertura estatal.

E, para proteger Moro, ela terá obrigatoriamente de atacar Bolsonaro.

É um dilema. A pobre emissora está na posição desagradável de mais uma vez ter de tomar o protagonismo dos rumos políticos do país.

Não sejamos hipócritas: impeachment, neste país, só acontece com a autorização editorial expressa da Rede Globo.

Estamos, pois, diante de um cenário ainda bastante complexo, mas com dois elementos de distensão: a saída de Moro liberou a Globo para agir novamente.

Moro libertou a Globo.

Resta combinar com os russos, na roleta-russa de seis balas que é o Brasil pandêmico.

Tudo, a rigor, desmorona: acordo Boeing-Embraer, projeto neoliberal de Guedes, expectativa de retomada econômica, discurso anticorrupção, privatização da Petrobras e sintagmas afins.

O Brasil é um território de guerra devastado, destruído pela Lava Jato e pelo necrojornalismo.

O sistema – que ‘pensa’ e ‘opera’ acima do impressionismo editorial das mídias corporativas – vai ‘buscar’ a reorganização diante desta catástrofe.

A decisão editorial da Globo em derrubar Bolsonaro, portanto, também não é oriunda de um ‘livre-arbítrio editorial’ forjado em reuniões de executivos com os filhos de Roberto Marinho.

Todos eles trafegam tão à deriva quanto os próprios pais e o empresariado subdesenvolvido brasileiro.

Em português corrente: a decisão de derrubar Bolsonaro será ‘sistêmica’, não subjetiva.

E esse cenário já apareceu, com o golpe de misericórdia de Moro, o pai – também sistêmico – da destruição generalizada do país.

Portanto, haverá duas pressões em curso: a tendência à ‘normalização’, calcada em pressupostos tão erráticos quanto temerários dos ‘gênios’ da comunicação política infiltrados na imprensa, e a tendência à ‘explosão’ (ao fim do ciclo Bolsonaro), regida por forças que extrapolam o desejo e a estratégia.

É a luta pela sobrevivência política desesperada versus a História.

Em tempos de pandemia, em que um vírus dá uma surra diária em nosso paradigma anticivilizatório de turno, não fica muito difícil supor quem logrará êxito.

 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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5 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    26 de abril de 2020 9:47 am

    Você tá dando à Globo um poder que ela perdeu há muito tempo. Apesar de esforço hercúleo, ela não impediu do Lula e da Dilma serem eleitos 2 vezes, cada um deles, nem conseguiu impichar o Temer.
    A Globo vive do passado.

    1. Wg

      26 de abril de 2020 12:23 pm

      Lembre se de que a lava jato materializa o regime de exceção a ditadura informal que permitiu os sucessivos golpes e a Globo faz parte desse processo, sempre foi assim, desde sua fundação.

  2. Soares

    26 de abril de 2020 1:30 pm

    De fato, tudo é questão de sobrevivência. A Globo, ainda que tenha perdido força para os novos meios de comunicação (e restrições impostas pelo atual governo), continua sendo muito forte.
    De toda sorte, independentemente do que venha a ocorrer, é nítido que os dois elementos diretamente envolvidos perderam força.
    Moro, o dissimulado, tenta servir ao seu criador, utilizando-se do mesmo modus operandis de sempre: gravações seletivas. Já não é visto com os mesmos olhos pelos seus seguidores, muitos dos quais já percebem sua covardia intrínseca à personalidade.
    O Mito, por sua vez, não consegue (e não conseguirá) implantar sua “nova política”. Está
    à deriva, sem um porto seguro para atracar seu barco e tendo que lidar com um problema pessoal: fechar o cerco contra as inúmeras investigações que se aproxima do seio familiar.
    Ambos representam, atualmente, meros fantoches nas mãos do stablishment.
    E a mudança???
    Bem!
    Penso que não partirá da boa vontade de nossas instituições. É mais fácil vir da pressão do Coronavirus sob a ideologia excludente imposta à sociedade moderna.
    Aguardemos!

  3. Soares

    26 de abril de 2020 1:33 pm

    De fato, tudo é questão de sobrevivência. A Globo, ainda que tenha perdido poder para os novos meios de comunicação (e restrições impostas pelo atual governo), continua sendo muito forte.
    De toda sorte, independentemente do que venha a ocorrer, é nítido que os dois elementos diretamente envolvidos perderam força.
    Moro, o dissimulado, tenta servir ao seu criador, utilizando-se do mesmo modus operandis de sempre: gravações seletivas. Já não é visto com os mesmos olhos pelos seus seguidores, muitos dos quais já percebem sua covardia intrínseca à personalidade.
    O Mito, por sua vez, não consegue (e não conseguirá) implantar sua “nova política”. Está
    à deriva, sem um porto seguro para atracar seu barco e tendo que lidar com um problema pessoal: fechar o cerco contra as inúmeras investigações que se aproxima do seio familiar.
    Ambos representam, atualmente, meros fantoches nas mãos do stablishment.
    E a mudança???
    Bem!
    Penso que não partirá da boa vontade de nossas instituições. É mais fácil vir da pressão do Coronavirus sob a ideologia excludente imposta à sociedade moderna.
    Aguardemos!

  4. Rui Ribeiro

    27 de abril de 2020 2:24 am

    Enquanto esses cafajestes mamões das chupetas públicas ficam atirando bosta no ventilador um do outro, as pessoas estão morrendo à mingua e de fome tb

    Ratos

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