10 de junho de 2026

O aborto no país dos fariseus, por Newton Lemos

Tenho muito nojo da parte de nossa sociedade que aponta seus dedos inclementes contra uma menina de dez anos estuprada por um familiar.

O aborto no país dos fariseus

por Newton Lemos

Sou obstetra há 30 anos e tenho um compromisso inabalável com a vida. Na minha interpretação, a razão de ser de um ato sexual é seu livre exercício entre pessoas capazes de compreendê-lo. Qualquer modalidade de sexo com alguém mentalmente incapaz, sem maturidade ou contra sua vontade é estupro. E eu não tenho nenhum compromisso ético ou profissional com atos de estupro.

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A lei brasileira está do meu lado. No artigo 128, inciso II do Código Penal lê-se: “Não se pune o aborto praticado por médico se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal.”

Ainda no artigo 217-A do CP fica claramente tipificado que relação sexual com menor de 14 anos é ESTUPRO DE VULNERÁVEL: ”Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos: Pena – reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.”

Por fim, não há mais no Brasil a exigência da apresentação de Boletim de Ocorrência como condição para a assistência médica em causa de aborto por estupro. Estes registros policiais acabam por causar na mulher um novo e inaceitável constrangimento, que, na prática, pode afastá-la do serviço público, negligenciando a violência sexual sofrida e gerando alto ônus físico e mental para a vítima.

Tenho muito nojo da parte de nossa sociedade que aponta seus dedos inclementes contra uma menina de dez anos estuprada por um familiar. Jogam nas costas dela o peso de um ato de violência extrema na sua infância. Isto é a expressão suprema do machismo e patriarcalismo vigentes no Brasil, da falta de misericórdia, de empatia pela dor alheia e de misericórdia.

Estes que assim julgam a menina não sabem dos efeitos de uma gestação de alto risco numa criança. Das complicações orgânicas e psíquicas. Da imaturidade óssea. Do parto que muito provavelmente será uma cesariana que poderá lhe comprometer o futuro reprodutivo. Estes monstros escondidos atrás da hipocrisia cristã são a negação de qualquer preceito ensinado pelo mestre Jesus Cristo.

Tivesse este caso chegado a mim, daria sequência ao processo de abortamento, sem nenhum drama ético ou moral. Tenho certeza de que inúmeros colegas de especialidade também fariam o mesmo.

Não há imputação de crime a vítimas de estupro e seus médicos assistentes. E não há nada de cristão em se culpabilizar e constranger as vítimas de um crime tão hediondo e horroroso.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
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  1. Maria Luisa

    18 de agosto de 2020 4:47 pm

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