4 de junho de 2026

A realidade concreta da Transição Energética

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Enviado por Almeida

do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

A realidade concreta da Transição Energética

Por: Ricardo Machado

Um dos maiores inimigos dos bancos europeus não veste vermelho, não usa barbas e seu modelo mental de análise está longe da dialética esquerda-direita. Ao contrário, o sujeito que é encarado pelos economistas de mercado como um dos principais adversários ao sistema financeiro mundial é um francês de voz mansa, rosto afeitado e de modos discretos. Não obstante seu jeito calmo de estar em público, é contundente quando se trata de defender suas teses, sempre muito bem embasadas matematicamente. O homem que enfrenta os bancos armado de seus óculos de hastes finas e seus cálculos que constragem economistas se chama Gaël Giraud.

“Nossa missão histórica é fazer a transição ecológica. As gerações que viverão no final desse século nos considerarão heróis se tivermos êxito. O trabalho é difícil, pois essa transição é muito maior que a Revolução Industrial. Se fracassarmos teremos mais cinco graus na média da temperatura global no final de século, nossos filhos se perguntarão como fizemos isso”, avalia Giraud, durante a conferência O capitalismo vindouro e a sustentabilidade: os papéis da gestão e da economia que integrou a programação do IV Colóquio Internacional IHU – Políticas Públicas, Financeirização e Crise Sistêmica.

Gaël Giraud fala sobre a necessidade de uma transição energética (Fotos: Ricardo Machado/IHU)

Desafios

Em síntese, o desafio posto diz respeito à redução em dois terços da emissão de gás carbônico – CO2 (que é emitido pela queima de combustíveis fósseis). O problema é que 80% da energia consumida no mundo advém, justamente, do uso de petróleo, carvão mineral e gases, sendo que apenas a quinta parte dessa energia advém de fontes renováveis. Some-se a isso o fato de que já chegamos no Peak Oil (capacidade máxima) do modo convencional de extração de petróleo, sendo que os novos modos de retirada de combustível exigem mais gasto energético e com isso mais emissão de poluentes. “O debate, então, é quanto de energia conseguiremos gastar para tirar petróleo e a maior preocupção dos países ricos é que sem petróleo não há guerra, por isso eles fazem de tudo para tentar controlar o Mar Cáspio e estão dispostos a tudo, inclusive a matar as populações mais empobrecidas pelo aquecimento global, para arrancar até a última gota de petróleo”, problematiza Giraud.

Mar Cáspio

Não é suficiente conciliar, a meio termo, o cuidado da natureza com o ganho financeiro, ou a preservação do meio ambiente com o progresso. Neste campo, os meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se simplesmente de redefinir o progresso (Laudato Si – 194)”

A injustiça social é a injustiça global

As grandes questões ambientais e econômicas são alicerçadas no seguinte paradoxo: os países mais desenvolvidos economicamente são os que geram maiores impactos ambientais no planeta. Enquanto o Norte global dita as regras do mercado e descumpre protocolos internacionais de emissão de gases, os países meridionais tendem, ainda, a ter instituições políticas muito frágeis. “O sul do Vietnã foi invadido pelo aumento do nível das águas. As autoridades dizem que construirão diques, mas o aumento do nível do mar muda as correntes marítimas e os diques se tornarão completamente inúteis”, pondera Giraud.

O uso intensivo de agrotóxicos pode extinguir as abelhas em poucos anos. Esses insetos fazem um trabalho de polinização que sem ele a vida humana na terra torna-se impossível. “Há economistas estúpidos que dizem que isso é bom porque poderíamos aumentar o Produto Interno Bruto – PIB com a produção de robôs que fariam esse trabalho, só que isso não vai acontecer e o que vai ocorrer na prática é que teremos novamente escravos humanos para fazer esse trabalho a mão, porque a sobrevivência da humanidade estará em risco. Os pobres vão polinizar para os ricos”, critica.

Gaël Giraud em conferência e o público do encerramento do IV Colóquio Internacional IHU

(in)Eficiência – A grande utopia da economia neoclássica

Gaël Giraud é categórico ao afirmar que a prosperidade do mundo, por assim dizer, ocidental, deve-se exclusivamente ao consumo de energia, que levou ao crescimento do PIB e ao aquecimento global. “Talvez tenhamos que buscar soluções sem passar pelo PIB porque ele é um péssimo indicador. Do ponto de vista econômico o aumento do PIB está muito relacionado a satisfação das pessoas, mas a partir de 2 mil dólares isso é insignificante”, reitera.

Os financistas e banqueiros europeus acusaram o golpe ao reagir à publicação da Carta Encíclica Laudato Si’, pelo Papa Francisco. “Se entendermos como funciona o sistema financeiro e o que custa ambientalmente o crescimento financeiro dos países ricos, concordaremos com o papa de que as pessoas responsáveis pelo colapso financeiro e ambiental são criminosas”, analisa.

“A cultura do relativismo é a mesma patologia que impele uma pessoa a aproveitar-se de outra e a tratá-la como mero objeto, obrigando-a a trabalhos forçados, ou reduzindo-a à escravidão por causa duma dívida. É a mesma lógica que leva à exploração sexual das crianças, ou ao abandono dos idosos que não servem os interesses próprios (Laudato Si – 123)”

Para Gaël, a economia ortodoxa não prova a eficácia do mercado, ao contrário, ela mostra a ineficiência do mercado quando estudada aprofundadamente. “O George W. Bush, em 2002, quando viajou ao Japão, disse em seu discurso que a economia japonesa estava em ‘desvalorização’ e os ativos financeiros em iene (moeda japonesa) perderam valor vertiginosamente. Todavia, os assessores de Bush ao escreverem o discurso erraram ao digitar a palavra ‘desvalorização’, porque eles queriam dizer ‘deflação’”, exemplifica Gaël. “Tolices proféticas como esta ocorrem diariamente e isso mostra que a financeirização de nossas sociedades não tem base teórica nenhuma. Isso que estou dizendo não vem de nenhuma teoria marxista, produzida por um marxista barbudo, cabeludo etc. É teoria matemática pura. Até mesmo os liberais admitem que o mercado é irracional e por isso vivem nessa esquizofrenia”, complementa.

Gaël Giraud detalha suas inferências matemáticas sobre a necessidade de uma transição energética

Transição ecológica, uma realidade concreta

Da falsa utopia econômica neoclássica, de que é preciso crescer o Produto Interno Bruto – PIB para prosperar, mesmo que isso signifique danos ambientais irreversíveis, à realidade concreta da transição energética, há um caminho claro e objetivo, que o professor Gaël Giraud, divide em quatro partes. “Primeiramente precisamos descarbonizar a produção elétrica, isto é, reduzir o uso de combustíveis fósseis. Em segundo lugar devemos substituir os automóveis por trens e carros elétricos. O terceiro ponto é aumentar a eficiência energética das moradias e fazermos a renovação térmica para não precisarmos nem aquecê-los, nem refrigerá-los. E, por fim, preservar os poços de absorção de CO2, como a Amazônia”, propõe o economista e matemático.

Não se salva o mundo do dia para a noite, mas o processo de transição não é nem tão longo e nem tão caro como se poderia imaginar. “Um relatório que fizemos calculou que o custo para a transição ecológica seria de 90 trilhões de dólares, algo como uma vez e meia o PIB mundial, a serem gastos ao longo de 15 anos”, explica Gaël. “Isso parece muito dinheiro, mas como explicou o professor Boutang, um levantamento atual dos ativos financeiros futuros – títulos a serem liquidados futuramente – somam o valor de 700 trilhões de dólares, aproximadamente dez vezes mais que o custo da transição ecológica. Então, temos uma situação em que os investidores não sabem onde colocar esses recursos para se manterem rentáveis e, ao mesmo tempo, a necessidade de investimento na transição”, avalia o conferencista. 

Para Gaël Giraud, a saída da Ilusão Financeira, título de seu livro (São Paulo: Edições Loyola, 2015), passa por encarar a realidade concreta de frente. “ O que devemos fazer é trabalhar para colocar os investidores em conexão com a nossa realidade. Isso é a transição ecológica. É preciso trabalhar, mas a tarefa não é tão complicada assim”, finaliza.

Veja a conferência na íntegra

(O som não está legal, fica razoável após 8:15)

https://www.youtube.com/watch?v=M8odrTejQdU?t=494

Leia mais…

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/560107-a-realidade-concreta-da-transicao-energetica

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  1. ze sergio

    15 de outubro de 2016 7:01 pm

    a realidade…

    Se nos basearmos na afirmação do cientista Gael Giraud que a prosperidade ocidental se deve exclusivamente ao consumo de energia, então eu choro. Somos, nós brasileiros, detentores das maiores reservas energéticas do planeta, mais imbecis do que eu acreditava. 

    1. Almeida

      16 de outubro de 2016 5:32 am

      James Prescott Joule.

      Esse físico do século XIX demonstrou a equivalência entre o trabalho mecânico e a energia. Nós usamos corriqueiramente energia, para substituir trabalho mecânico que antes vinham da força humana ou da tração animal. Em larga medida, os recursos de energia substituem o trabalho humano, ou executam trabalhos que a força humana não seria capaz de realizar, como é o caso de separar ligações químicas que formam as substâncias da natureza. Energia substitui trabalho e este gera riqueza, logo, energia gera riqueza.

      As sociedades industriais se tornaram muito ricas, devido ao fato de usarem intensamente energia. Antes da Era Industrial, a riqueza dos países crescia com o aumento de sua população empregada na economia e da extensão de terra explorada; desde então, a riqueza se expandiu com a intensidade de uso de energia. Os países mais ricos são os maiores consumidores de energia. A lista abaixo mostra os vinte países mais ricos por PIB (Paridade do Poder de Compra), em 2015, segundo o FMI, em milhões de dólares internacionais, o números aparecem na penúltima coluna. O consumo de energia em 2015 é dado em milhões de toneladas equivalentes de petróleo, segundo as estatísticas da BP, são os números da última coluna. O coeficiente de correlação de Pearson encontrado é de 0,977; quanto mais perto de 1,000, mais perfeita é a correlação, logo, a correlação encontrada é muito forte. Assim se pode entender a razão das guerras por fontes energéticas, que o EUA vem promovendo.

       1;    China                 ;  19.392.357;    3014,0
       2;    Estados Unidos;  17.947.000;     2280,6
       3;    Índia                    ;    7.965.162;      700,5
       4;    Japão                 ;    4.830.065;      448,5
       5;    Alemanha           ;   3.840.550;       320,6
       6;    Rússia                ;   3.717.617;      666,8
       7;    Brasil                  ;   3.192.405;       292,8
       8;    Indonésia           ;   2.842.247;       195,6
       9;    Reino Unido      ;   2.679.325;       191,2
      10;     França             ;   2.646.888;       239,0
      11;     México              ;  2.227.176;       185,0
      12;     Itália                  ;  2.170.909;       151,7
      13;     Coreia do Sul  ;  1.848.518;       276,9
      14;     Arábia Saudita;  1.683.044;      264,0
      15;     Canadá            ;  1.631.943;       329,9
      16;     Espanha          ;   1.615.074;      134,4
      17;     Turquia             ;   1.588.793;     131,3
      18;     Irã                     ;   1.371.066;      267,2
      19;     Austrália          ;   1.138.085;      131,4
      20;     Tailândia          ;   1.108.111;      124,9

      Fontes:

      https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_países_por_PIB_(Paridade_do_Poder_de_Compra)

      https://pt.wikipedia.org/wiki/Dólar_Geary-Khamis

      http://www.bp.com/content/dam/bp/excel/energy-economics/statistical-review-2016/bp-statistical-review-of-world-energy-2016-workbook.xlsx

      https://pt.wikipedia.org/wiki/Coeficiente_de_correlação_de_Pearson

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