15 de junho de 2026

Brasil, o cemitério de teorias mortas, por Luis Nassif

Um dos pontos centrais desse coral de mediocridade são os dogmas criados em torno da Lei do Teto e os empecilhos à implementação de políticas anti-cíclicas, de aumento dos gastos públicos para superar a crise.

Alguém já disse que o Brasil é um cemitério de ideias mortas. Na área econômica, nem se diga. Todos os países desenvolvidos estão revendo conceitos não apenas na academia, mas nas principais instituições monetárias.

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No Brasil, as discussões econômicas são comandadas por economistas de mercado, sem nenhuma aspiração teórica e viciados no jogo do vende-compra. Ou seja, determinada conclusão teórica – por falsa que seja – induz a um movimento de compra; ou de venda. Rever os conceitos significaria perder todo o treinamento pavloviano e, consequentemente, reduzir o poder de influência do economistas, em um ambiente intrinsicamente binário.

Pior, como o jornalismo econômico se limita a reproduzir o consenso de mercado, os conceitos estratificam-se e os bordões acabam condicionando a política econômica, o papel do Banco Central, as políticas anti-cíclicas. Efetivamente, coisas de país atrasado.

Um dos pontos centrais desse coral de mediocridade são os dogmas criados em torno da Lei do Teto e os empecilhos à implementação de políticas anti-cíclicas, de aumento dos gastos públicos para superar a crise.

Diariamente, os mercados, interligados, são submetidos a um sem-número de fatores de influência – a eleição nos EUA, o aumento do Covid, as apostas sobre novas vacinas, os rumores sobre os rumos da política monetária nos países centrais. No entanto, qualquer oscilação nas taxas longas é atribuída e dúvidas – ou certezas – sobre a Lei do Teto, sobre a relação dívida/PIB e por aí vai.

É um jogo especulativo rasteiro, medíocre, que viciou toda a cobertura financeira.

Recentemente, o The Economist publicou um artigo de larga repercussão sobre os gastos públicos e sobre os dogmas criados em torno da questão fiscal.

O ponto inicial é o reconhecimento de que a dívida pública dos países ricos, embora crescente, é sustentável devido às taxas de juros baixíssimas. Um dos exemplos apontados foi a Inglaterra que, apesar de gastar 19% do PIB com a pandemia, economizará cerca de US$ 17 bilhões em juros, em comparação com o ano passado.

O segundo, é a retirada precoce dos gastos com a pandemia, confiando em uma recuperação rápida da economia. Pelo contrário, diz a revista, a austeridade prematura poderá retardar a recuperação.

Propõe, então, que a interrupção dos gastos seja condicionada a um limite definido no desemprego – no caso, uma taxa de 6%. Caindo abaixo disso, interrompem-se os gastos extraordinários. Ou seja, em vez de metas monetárias, metas fiscais claras amarradas a indicadores sociais.

Mesmo havendo lógica na proposta, esbarra-se na falta de vontade política. Nos Estados Unidos, uma nova estrutura fiscal é impedida por um sistema político dividido e travado. Seria possível um acordo pragmática no curto prazo – por exemplo, os democratas aceitando um estímulo menor, em vez de esperar a aprovação para gastos maiores. Diz a revista: com os desempregados queimando suas economias e as pequenas empresas enfrentando um inverno rigoroso, a velocidade do apoio emergencial é mais importante que seu tamanho.

Esse nível de discussão é interditado no Brasil, e dificultará cada vez mais a recuperação rápida da crise.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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16 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    1 de dezembro de 2020 7:41 am

    O Brasil é um país feudal que recebeu um verniz neoliberal. Essa camada de verniz está se deteriorando e a única coisa que nós conseguimos fazer é debater a necessidade ou não de uma nova mão de pintura.

    1. Zé Sérgio

      1 de dezembro de 2020 12:56 pm

      “…Alguém já disse que o Brasil é um cemitério de ideias mortas…” Somente agora? 90 anos. Onde está a novidade? Se não haviam enxergado, pelo menos deveriam ter sentido o mal cheiro. Industrialização tardia? “Indústrias são para a Bélgica. Eugênio Gudin no Ditadura Fascista de Getúlio Vargas”. Será que Bipolaridade tem cura? Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

      1. Marco A.

        1 de dezembro de 2020 4:22 pm

        Quer coisa mais velha, antiquada, superada do que considerar feudal este país? E ainda se lê esse disparate por aqui.

  2. Lucinei

    1 de dezembro de 2020 8:54 am

    Enquanto a boçalidade e a mentira continuarem a ser teimosamente tratadas “a cavalheiro”, já era.

    Na linguagem do futebol isso é muito claro: respeitam demais o adversario. Esse bestialogico antissocial, antiestado, antigoverno, antipolitica, antipetista, etc, já está na boca do povo. A propaganda neoliberal venceu por W.O.

    “A esquerrrda” não volta tão cedo ao executivo federal. Vai ter que amassar o barro todo de novo, por duas, tres ou mais eleições novamente. O alto clero da direita nao fez tudo que fez pra entregar novamente o poder. Jamais permitirão as condições de 2002, quando achavam que o Lula tropeçaria na própria língua…

    O bombardeio de saturação em cima do PT, PT, PT não vai cessar jamais. Eles que persistam com a covardia na luta cultural pra verem. O Lula não vai durar pra sempre. A “burocracia” do Partido Dos Trabalhadores vai viver do quê, de textão, de notinha de repúdio, de tuitada?

    1. naldo

      1 de dezembro de 2020 3:18 pm

      Ora, só governadores da esquerda são criticados na midia, os da direita nem lembram….

  3. Aurélio Dubois

    1 de dezembro de 2020 10:03 am

    O Brasil é um país de formação escravista, subalterno à ordem dominante internacional, tradição que perdura até hoje, e condiciona a forma de pensar das pessoas e o agir das instituições.

    O domínio dos economistas de mercado na área econômica serve para naturalizar a dominação do setor financeiro sobre a vida econômica da sociedade, centrada na expropriação de parcela considerável do PIB pelos endinheirados e sua classe média associada.

    Expropriação que começa na coleta impostos em regime percentualmente regressivo e os redistribui via dívida pública no regime percentualmente progressivo.

    É preciso sempre lembrar o papel essencial que o oligopólio de mídia desempenha para viabilizar o domínio dos economistas de mercado e suas ideias na esfera pública brasileira. Os economistas de mercado desfilam seu saber sob a batuta dos diretores do desfile.

    Qualquer semelhança com a relação entre a Rede Globo e seus atores é mais que simples coincidência.

    Até que este oligopólio seja desfeito, parafraseando Ibrahim Sued, “Os cães ladram e a caravana do mercado e seus economistas continuará a desfilar”.

    Resumindo: O Brasil precisa urgente de uma nova Lei de Meios. Até o “sapo barbudo” há pouco tempo, “caiu na real” e proclamou esta necessidade.

    1. Marco A.

      1 de dezembro de 2020 11:54 am

      Seria mais proveitoso de o tal Sapo Barbudo olhasse para a frente (as bobagens passadas já eram) e comentasse sobre o PL 3788/2020, que oficializa a gatunagem dos bancos e que é apoiado pelo PT. Choromingar o passado não serve pra nada. O que estão fazendo agora, para barrar as pilantragens do momento? Muito pouco; quase nada. Está aí a tramitação do PL 3788/2020, junto com a boiada do Salles, passando sob as barbas do tal Sapo.

  4. Turk

    1 de dezembro de 2020 10:54 am

    OFF-TOPIC: João Dória já aumentou o pedágio, eheheh. Coxinhas se rasgando… Mas não vão dar o braço a torcer… eheheh

  5. Marco A.

    1 de dezembro de 2020 10:56 am

    E sobre o PL 3788/2020, não há comentários por aqui? A gatunagem está acontecendo inclusive com o patrocínio de partidos ditos de esquerda. Aqui, nestas páginas, não se lê nem uma linha crítica a respeito. Debate-se tanta coisa aqui e isso não. Por quê?

  6. Edson J

    1 de dezembro de 2020 11:50 am

    Simplificando: democracia x mercado financeiro; interesses do país (dos países) x falta de escrúpulo dos rentistas em qualquer lugar do mundo; responsabilidade social x lucro em primeiro lugar. Na mídia “especializada” porta-voz do mercado financeiro: ideologia ultraliberal coincidente ou caráter deficiente.

  7. nender, o tal

    1 de dezembro de 2020 12:22 pm

    Alguns senões.
    Não me consta que o editor sofra do complexo de vira-latas, ao contrário…por isso a minha estranheza.
    Eu não me recordo das outras crises anteriores a de 2008 (talvez um pouco a de 1998/99), mas a gestão de políticas econômicas, sejam antes ou pós “crashes” foi delegada a mesma banca enfurecida e adicta a roleta dos anti-valores.
    Nem EUA, nem Europa fugiram deste padrão, tanto é que não se passaram 20 anos, e o mundo já embicava para nova derrocada, quando a pandemia serviu de álibi para esta queda.

    O que o editor finge não ver é que não há nada que a chamada ciência econômica (um tipo de quiromancia um pouco mais sofisticada) não tem solução para o que não tem solução.
    A diferença dos efeitos e dos dramas está na posição relativa:
    Quem está ao centro sofre menos, quem está nos cantos (periferias) sofre o diabo.

    Os tetos, os arrochos fiscais, enfim, nossos garrotes são a garantia que os moradores do norte do mundo vão ter seus estilos de vida preservados por mais um pouco, só isso…
    Não é questão de burrice (apenas) ou falta de imaginação científica, é obediência política à irracionalidade econômica do capitalista, que é feito em cima das desigualdades, que arrocham uns e aliviam outros.

    Não vai dar para ressuscitar Keynes, Nassif…

    1. Marco A.

      1 de dezembro de 2020 2:42 pm

      O renomado economista britânico deve estar se revirando na tumba ao saber do apoio das “esquerdas” brasileiras ao PL 3788/2020. E, também, com o silêncio na “mídia alternativa”. “”Alternativa” a quê?”, deve estar se perguntando?

  8. naldo

    1 de dezembro de 2020 3:21 pm

    Ontem mesmo tinha um desses profexôres deu uma universidade de grife defendendo as absurdas reformas……e a jornalista pontuando “é a “credibilidade” fiscal do país……..diz isso do roubo institucionalizado, e sem ligar para os milhões de desempregados num cinismo impressionante……hoje mesmo tive o desgosto de ver mais uma reporcagem da rede golpe em sua sanha a favor do “empreendedorismo”, a reporcagem mostrava crianças que fazem troços para vender na rua…..então é assim, criança branca vendendo porcaria na rua é empreendedor, criança podre é trabalho infantil…..será que esses jornalistas não tem um pingo de vergonha na cara?

  9. Bruno Cabral

    1 de dezembro de 2020 4:37 pm

    No Brasil só quem recebe ajuda na crise são os de sempre: bancos e corporações (militares, judiciário, legislativo)…

  10. R. Vizin

    1 de dezembro de 2020 8:09 pm

    Nassif, tem que mudar o título desse post, porque o Brasil não é um cemitério de idéias mortas. Se fosse, seria ótimo, porque no cemitério as idéias mortas estariam enterradas. O Brasil é em realidade uma ZUMBILÂNDIA, onde as idéias mortas vagam como ZUMBIS APODRECIDOS E FEDORENTOS, matando gente, incomodando, se recusando a serem enterradas.

  11. Rui Ribeiro

    6 de dezembro de 2020 10:57 am

    O problema não é o neoliberalismo e a solução não é estado do bem-estar social, o problema é o capitalismo
    O que diria Adam Booth?

    “Intervenção do governo para estimular a economia pode parecer algo simples, mas os governos não têm dinheiro próprio para gastar. Ao final das contas, o gasto público deve ser financiado por impostos ou por déficits ou endividamento. No entanto, os mercados de crédito estão preocupados com a capacidade dos governos de pagar suas dívidas, esta é a razão pela qual a austeridade está sendo imposta sobre a população em um país após outro. Enquanto isso, qualquer imposto adicional deve ser obtido a partir dos trabalhadores ou das empresas. Mas os impostos adicionais sobre os trabalhadores atuam como cortes nos salários e, assim, se reduz a demanda, anulando a intenção original do estímulo do governo (estimular a demanda), enquanto o aumento dos impostos sobre as empresas reduzem os lucros, levando a uma ‘greve’ de capital e a uma queda nos investimentos”.

    https://www.marxismo.org.br/marx-versus-keynes/

    Volta-se à estaca zero

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