Brasil, o cemitério de teorias mortas, por Luis Nassif

Um dos pontos centrais desse coral de mediocridade são os dogmas criados em torno da Lei do Teto e os empecilhos à implementação de políticas anti-cíclicas, de aumento dos gastos públicos para superar a crise.

Alguém já disse que o Brasil é um cemitério de ideias mortas. Na área econômica, nem se diga. Todos os países desenvolvidos estão revendo conceitos não apenas na academia, mas nas principais instituições monetárias.

No Brasil, as discussões econômicas são comandadas por economistas de mercado, sem nenhuma aspiração teórica e viciados no jogo do vende-compra. Ou seja, determinada conclusão teórica – por falsa que seja – induz a um movimento de compra; ou de venda. Rever os conceitos significaria perder todo o treinamento pavloviano e, consequentemente, reduzir o poder de influência do economistas, em um ambiente intrinsicamente binário.

Pior, como o jornalismo econômico se limita a reproduzir o consenso de mercado, os conceitos estratificam-se e os bordões acabam condicionando a política econômica, o papel do Banco Central, as políticas anti-cíclicas. Efetivamente, coisas de país atrasado.

Um dos pontos centrais desse coral de mediocridade são os dogmas criados em torno da Lei do Teto e os empecilhos à implementação de políticas anti-cíclicas, de aumento dos gastos públicos para superar a crise.

Diariamente, os mercados, interligados, são submetidos a um sem-número de fatores de influência – a eleição nos EUA, o aumento do Covid, as apostas sobre novas vacinas, os rumores sobre os rumos da política monetária nos países centrais. No entanto, qualquer oscilação nas taxas longas é atribuída e dúvidas – ou certezas – sobre a Lei do Teto, sobre a relação dívida/PIB e por aí vai.

É um jogo especulativo rasteiro, medíocre, que viciou toda a cobertura financeira.

Recentemente, o The Economist publicou um artigo de larga repercussão sobre os gastos públicos e sobre os dogmas criados em torno da questão fiscal.

O ponto inicial é o reconhecimento de que a dívida pública dos países ricos, embora crescente, é sustentável devido às taxas de juros baixíssimas. Um dos exemplos apontados foi a Inglaterra que, apesar de gastar 19% do PIB com a pandemia, economizará cerca de US$ 17 bilhões em juros, em comparação com o ano passado.

O segundo, é a retirada precoce dos gastos com a pandemia, confiando em uma recuperação rápida da economia. Pelo contrário, diz a revista, a austeridade prematura poderá retardar a recuperação.

Propõe, então, que a interrupção dos gastos seja condicionada a um limite definido no desemprego – no caso, uma taxa de 6%. Caindo abaixo disso, interrompem-se os gastos extraordinários. Ou seja, em vez de metas monetárias, metas fiscais claras amarradas a indicadores sociais.

Mesmo havendo lógica na proposta, esbarra-se na falta de vontade política. Nos Estados Unidos, uma nova estrutura fiscal é impedida por um sistema político dividido e travado. Seria possível um acordo pragmática no curto prazo – por exemplo, os democratas aceitando um estímulo menor, em vez de esperar a aprovação para gastos maiores. Diz a revista: com os desempregados queimando suas economias e as pequenas empresas enfrentando um inverno rigoroso, a velocidade do apoio emergencial é mais importante que seu tamanho.

Esse nível de discussão é interditado no Brasil, e dificultará cada vez mais a recuperação rápida da crise.

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16 comentários

  1. O Brasil é um país feudal que recebeu um verniz neoliberal. Essa camada de verniz está se deteriorando e a única coisa que nós conseguimos fazer é debater a necessidade ou não de uma nova mão de pintura.

    • “…Alguém já disse que o Brasil é um cemitério de ideias mortas…” Somente agora? 90 anos. Onde está a novidade? Se não haviam enxergado, pelo menos deveriam ter sentido o mal cheiro. Industrialização tardia? “Indústrias são para a Bélgica. Eugênio Gudin no Ditadura Fascista de Getúlio Vargas”. Será que Bipolaridade tem cura? Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

  2. Enquanto a boçalidade e a mentira continuarem a ser teimosamente tratadas “a cavalheiro”, já era.

    Na linguagem do futebol isso é muito claro: respeitam demais o adversario. Esse bestialogico antissocial, antiestado, antigoverno, antipolitica, antipetista, etc, já está na boca do povo. A propaganda neoliberal venceu por W.O.

    “A esquerrrda” não volta tão cedo ao executivo federal. Vai ter que amassar o barro todo de novo, por duas, tres ou mais eleições novamente. O alto clero da direita nao fez tudo que fez pra entregar novamente o poder. Jamais permitirão as condições de 2002, quando achavam que o Lula tropeçaria na própria língua…

    O bombardeio de saturação em cima do PT, PT, PT não vai cessar jamais. Eles que persistam com a covardia na luta cultural pra verem. O Lula não vai durar pra sempre. A “burocracia” do Partido Dos Trabalhadores vai viver do quê, de textão, de notinha de repúdio, de tuitada?

  3. O Brasil é um país de formação escravista, subalterno à ordem dominante internacional, tradição que perdura até hoje, e condiciona a forma de pensar das pessoas e o agir das instituições.

    O domínio dos economistas de mercado na área econômica serve para naturalizar a dominação do setor financeiro sobre a vida econômica da sociedade, centrada na expropriação de parcela considerável do PIB pelos endinheirados e sua classe média associada.

    Expropriação que começa na coleta impostos em regime percentualmente regressivo e os redistribui via dívida pública no regime percentualmente progressivo.

    É preciso sempre lembrar o papel essencial que o oligopólio de mídia desempenha para viabilizar o domínio dos economistas de mercado e suas ideias na esfera pública brasileira. Os economistas de mercado desfilam seu saber sob a batuta dos diretores do desfile.

    Qualquer semelhança com a relação entre a Rede Globo e seus atores é mais que simples coincidência.

    Até que este oligopólio seja desfeito, parafraseando Ibrahim Sued, “Os cães ladram e a caravana do mercado e seus economistas continuará a desfilar”.

    Resumindo: O Brasil precisa urgente de uma nova Lei de Meios. Até o “sapo barbudo” há pouco tempo, “caiu na real” e proclamou esta necessidade.

    • Seria mais proveitoso de o tal Sapo Barbudo olhasse para a frente (as bobagens passadas já eram) e comentasse sobre o PL 3788/2020, que oficializa a gatunagem dos bancos e que é apoiado pelo PT. Choromingar o passado não serve pra nada. O que estão fazendo agora, para barrar as pilantragens do momento? Muito pouco; quase nada. Está aí a tramitação do PL 3788/2020, junto com a boiada do Salles, passando sob as barbas do tal Sapo.

  4. E sobre o PL 3788/2020, não há comentários por aqui? A gatunagem está acontecendo inclusive com o patrocínio de partidos ditos de esquerda. Aqui, nestas páginas, não se lê nem uma linha crítica a respeito. Debate-se tanta coisa aqui e isso não. Por quê?

  5. Simplificando: democracia x mercado financeiro; interesses do país (dos países) x falta de escrúpulo dos rentistas em qualquer lugar do mundo; responsabilidade social x lucro em primeiro lugar. Na mídia “especializada” porta-voz do mercado financeiro: ideologia ultraliberal coincidente ou caráter deficiente.

  6. Alguns senões.
    Não me consta que o editor sofra do complexo de vira-latas, ao contrário…por isso a minha estranheza.
    Eu não me recordo das outras crises anteriores a de 2008 (talvez um pouco a de 1998/99), mas a gestão de políticas econômicas, sejam antes ou pós “crashes” foi delegada a mesma banca enfurecida e adicta a roleta dos anti-valores.
    Nem EUA, nem Europa fugiram deste padrão, tanto é que não se passaram 20 anos, e o mundo já embicava para nova derrocada, quando a pandemia serviu de álibi para esta queda.

    O que o editor finge não ver é que não há nada que a chamada ciência econômica (um tipo de quiromancia um pouco mais sofisticada) não tem solução para o que não tem solução.
    A diferença dos efeitos e dos dramas está na posição relativa:
    Quem está ao centro sofre menos, quem está nos cantos (periferias) sofre o diabo.

    Os tetos, os arrochos fiscais, enfim, nossos garrotes são a garantia que os moradores do norte do mundo vão ter seus estilos de vida preservados por mais um pouco, só isso…
    Não é questão de burrice (apenas) ou falta de imaginação científica, é obediência política à irracionalidade econômica do capitalista, que é feito em cima das desigualdades, que arrocham uns e aliviam outros.

    Não vai dar para ressuscitar Keynes, Nassif…

    • O renomado economista britânico deve estar se revirando na tumba ao saber do apoio das “esquerdas” brasileiras ao PL 3788/2020. E, também, com o silêncio na “mídia alternativa”. “”Alternativa” a quê?”, deve estar se perguntando?

  7. Ontem mesmo tinha um desses profexôres deu uma universidade de grife defendendo as absurdas reformas……e a jornalista pontuando “é a “credibilidade” fiscal do país……..diz isso do roubo institucionalizado, e sem ligar para os milhões de desempregados num cinismo impressionante……hoje mesmo tive o desgosto de ver mais uma reporcagem da rede golpe em sua sanha a favor do “empreendedorismo”, a reporcagem mostrava crianças que fazem troços para vender na rua…..então é assim, criança branca vendendo porcaria na rua é empreendedor, criança podre é trabalho infantil…..será que esses jornalistas não tem um pingo de vergonha na cara?

  8. Nassif, tem que mudar o título desse post, porque o Brasil não é um cemitério de idéias mortas. Se fosse, seria ótimo, porque no cemitério as idéias mortas estariam enterradas. O Brasil é em realidade uma ZUMBILÂNDIA, onde as idéias mortas vagam como ZUMBIS APODRECIDOS E FEDORENTOS, matando gente, incomodando, se recusando a serem enterradas.

  9. O problema não é o neoliberalismo e a solução não é estado do bem-estar social, o problema é o capitalismo
    O que diria Adam Booth?

    “Intervenção do governo para estimular a economia pode parecer algo simples, mas os governos não têm dinheiro próprio para gastar. Ao final das contas, o gasto público deve ser financiado por impostos ou por déficits ou endividamento. No entanto, os mercados de crédito estão preocupados com a capacidade dos governos de pagar suas dívidas, esta é a razão pela qual a austeridade está sendo imposta sobre a população em um país após outro. Enquanto isso, qualquer imposto adicional deve ser obtido a partir dos trabalhadores ou das empresas. Mas os impostos adicionais sobre os trabalhadores atuam como cortes nos salários e, assim, se reduz a demanda, anulando a intenção original do estímulo do governo (estimular a demanda), enquanto o aumento dos impostos sobre as empresas reduzem os lucros, levando a uma ‘greve’ de capital e a uma queda nos investimentos”.

    https://www.marxismo.org.br/marx-versus-keynes/

    Volta-se à estaca zero

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