5 de junho de 2026

de mãos limpas ou de mãos lavadas? (em 06/08/2015)

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em artigo sobre a operação Mãos Limpas, Sérgio Moro demonstra plena consciência de um grotesco desdobramento político daquela ação judicial:

“Tendo ou não Berlusconi alguma responsabilidade criminal, não deixa de ser um paradoxo que ele tenha atingido tal posição na Itália mesmo após a operação mani pulite.”

Sérgio Moro, “Considerações sobre a operação Mani Pulite”, 2004

como depois uma cruzada contra a corrupção se torna Primeiro Ministro da Itália um grande empresário da mídia local, investigado pelos procuradores milaneses por suspeita de corrupção de agentes fiscais?

tratou-se de fortuito paradoxo ou conseqüência direta de graves erros cometidos na condução da Mãos Limpas? quais foram estes erros? não estariam eles sendo repetidos na operação lava Jato, cujo flagrante modelo é a Mãos Limpas?

com efeito, o vazamento seletivo dos detalhes das delações, tanto na Itália quanto agora na Lava Jato, se vale de uma grande mídia não apenas conservadora quanto tão envolvida na corrupção quanto os investigados.

 segundo o artigo de Moro, os vazamentos objetivavam:

1. garantir a iniciativa política. “O constante fluxo de revelações manteve o interesse do público  elevado e os líderes partidários na defensiva”.

2. favorecer novas confissões. “A publicidade conferida às investigações teve o efeito salutar de alertar os investigados em potencial sobre o aumento da massa de informações nas mãos dos magistrados, favorecendo novas confissões e colaborações.”;

3. angariar apoio da opinião pública. “Mais importante: garantiu o apoio da opinião pública às ações judiciais, impedindo que as figuras públicas investigadas obstruíssem o trabalho dos magistrados”;

ao dar exclusividade a uma mídia corrupta no vazamento de informações, se abre a oportunidade para que estes veículos também manipulem a opinião pública segundo seus próprios interesses. os quais são, evidentemente, contrários ao desmantelamento de uma corrupção sistêmica. desta forma,  a opinião pública acaba conduzida a apoiar políticos com interesses inversos aos objetivos da operação.

assim foi na Itália. assim está sendo no Brasil.

enquanto a Lava Jato se limitar ao cu fácil da vaca, sem jamais enfrentar seu verdadeiro desafio, o cu do touro, o sistema judicial que a conduz pode até manter suas mãos limpas, mas não terá sua consciência tranqüila. seus erros grotescos conduzirão a conseqüências grotescas.

a Lava Jato é um processo imbricado inevitavelmente com a política. não pode ser reduzida a seus aspectos puramente técnicos jurídicos. trata-se fundamentalmente de financiamento empresarial de campanha eleitoral, com objetivo de apropriar-se de recursos públicos.

os grandes empreiteiros financiam as campanhas como um investimento cujo retorno se dá por inúmeros favorecimentos em concorrências, aditivos de contratos, superfaturamentos, etc… este mecanismo está agora exposto.

mas se os bravos procuradores da força tarefa forem destemidos o suficiente para penetrar no coração das trevas da corrupção sistêmica, não podem deixar de investigar doações vindas dos banqueiros. estes obtém o retorno de seu investimento nas campanhas eleitorais através da Selic,  dos swaps cambiais, e da política econômica voltada para os interesses do mercado financeiro. seus  operadores são o Copom, o BC e o Ministério da Fazenda, fazendo com que 45% do orçamento público se destine ao pagamento de juros.

como afirma Moro no artigo citado: “Além disso, a ação judicial não pode substituir a democracia no combate à corrupção”.

sendo assim, após a Lava Jato os banqueiros ainda se manterão, através de seu financiamento de campanhas, como os verdadeiros “donos” de uma política econômica anti-democrática?  teremos também a ascensão de políticos comprometidos com a corrupção, como Berlusconi, enfraquecendo a Democracia?

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Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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