
Por Sebastião Nunes
Nunca se escreveu e se publicou tanto. Avalanches de papel impresso desabam sobre nossa cabeça dia e noite, ameaçando nos soterrar. Mas você pode ser um candidato sério a escritor, capaz de enfrentar a enchente e vencer, de modo que não resisto à minha vocação de conselheiro de peregrinos perdidos no deserto do querer-fazer-mas-não-saber-exatamente-como. Ou do saber-exatamente-como-mas-não-ter-certeza-de. Ou ainda do gosto-do-meu-texto-mas-não-sei-se-os-outros-pensarão-da-mesma-forma etc. Contra a insegurança dos neófitos ofereço de graça um punhado de santos remédios. Se não servirem para fazer de você um escritor pelo menos razoável, servirão para transformá-lo num crítico feroz, irritante e implacável com a literatura dos outros.
PRIMEIRO CONSELHO: O VALOR DO ACHISMO
Nos tempos antigos não havia crítica literária: havia opinião. Então vieram Bakhtin, a Nova Crítica, o Estruturalismo e o resto, desbancando o velho Impressionismo, refúgio dos opiniáticos. Depois a crítica sumiu dos jornais, refugiando-se em revistas e faculdades de letras. Se já era chata, imagine depois. Então resolvi ressuscitar a mania de palpitar, dando-lhe o nome pomposo de Achismo e a transformando em crítica séria, como veremos a seguir.
É mais importante um “eu acho que”, emitido por alguém tipo Graciliano Ramos, do que a minuciosa busca de pelo em ovo da velha crítica. Se Graciliano Ramos diz que Fulano é uma besta, você pode ter certeza de que fulano é uma besta. Por quê? Pela mais profunda e elementar razão: conhecimento amplo, geral e irrestrito de literatura. Um simples “eu acho que”, pronunciado numa mesa de botequim pelo Velho Graça, está protegido por milhares de horas de leitura, milhares de horas de escrita e milhares de horas de reflexão. Então, repito, se ele diz que Fulano é uma besta, você pode ter certeza de que Fulano é realmente uma besta. E, assim, você jamais terá necessidade de se aproximar dos livros de Fulano, publicados em papel, no Facebook ou num site perdido entre as galáxias. Pena que sejam poucos os Graciliano Ramos, principalmente nestes tempos de puxa-saquismo desvairado.
SEGUNDO CONSELHO: O VALOR DAS PANELINHAS
Desde que literatura passou a ser uma atividade que dava status (hoje não é tanto assim), surgiram as panelinhas, na qual se agrupam, ou se agrupavam, os “iguais”. Todos os iguais se parecem entre si, naturalmente. (No Facebook, panelinha é o mesmo que grupo, só que infinitamente mais fluido, um tô-fora-tô-dentro permanente, sem o menor compromisso com os parceiros, como se fosse a verdadeira e única casa da mãe joana.)
Suponhamos, por exemplo, que exista a panelinha “Escritores Cearenses do Século XXI”. Então, todos os que se consideram escritores cearenses do século XXI cabem nessa panelinha. Claro que há líderes e sub-líderes, que decidem quem pode ou não participar da panelinha. Digamos que você seja recusado, apesar de exercer ao máximo o puxa-saquismo e dos padrinhos de peso. Sua alternativa, no caso, é abrir dissidência, fundando a panelinha “Escritores Cearenses de Vanguarda do Século XXI”. Note que apenas introduzindo a palavra “vanguarda” você não só criou uma nova panelinha, como passou à frente da panelinha rival em termos de atualidade e, de quebra, pregou-lhe na fachada algo como “passadista”, ou seja, você se vingou amplamente da recusa.
Infelizmente, não há como saber qual panelinha está constituída por bons escritores, mas isso não tem importância, basta pertencer a uma delas, de preferência àquela com maior número do integrantes. Só para dar uma ideia rapidíssima, tivemos, no século XX, a panelinha DADA (dos Dadaístas, com várias e conflitantes ramificações por toda a Europa), a panelinha Surrealista (que se espalhou pelo mundo e gerou subpanelinhas em diversos países e idiomas), a panelinha Concretista (dos poetas concretos de São Paulo, sem ramificações e aceitando apenas simpatizantes), as panelinhas X, Y e Z etc. Enfim, cabe a você, para se tornar aquilo-que-gostaria-de-ser-mas-ainda-não-é, escolher uma boa panelinha ou, como sugerido acima, criar a sua.
TERCEIRO CONSELHO: O VALOR DO ATOÍSMO
Falava-se muito, antigamente, num tal de ócio criativo. Além de ser excelente para disfarçar a natural preguiça física e mental dos escritores, justificava quase tudo: o descuido com as roupas, o descaso com os filhos, o desleixo com a cara-metade-de-sua-cara, a inércia no emprego, o jeitão de lunático etc.
Ciente do valor dessa velha atividade ou, melhor ainda, dessa não-atividade, resolvi batizá-la de Atoísmo, termo capaz de explicitar melhor seus objetivos. Isso aconteceu na década de 1970, quando eu morava no Rio de Janeiro e me dedicava em tempo integral a fazer-nada. Minto: para obter o mínimo necessário à sobrevivência, eu tomava empréstimos de parentes e amigos e, aos domingos, pescava mariscos no Aterro do Flamengo, junto ao museu. Ressuscito-a agora e a ofereço, gratuitamente, aos futuros escritores. Em tempo: facilmente utilizável no Rio, em Salvador e outras capitais litorâneas, que privilegiam o fazer-nada, torna-se impraticável em cidades como São Paulo, em que todos estão profundamente imbuídos da sagrada missão de ganhar-o-máximo-de-dinheiro-no-menor-tempo-possível.
QUARTO CONSELHO: COMO JULGAR UM CONCURSO
Se você já se tornou um escritor razoavelmente conhecido, com certeza será convidado a julgar, de tempos em tempos, concursos literários, em papel ou online. Qualquer que seja o caso, siga o infalível processo da leitura-abundante-embora-dinâmica.
Em tempo. Antigamente – não sei se ainda vigora – certos professores simplificavam o problema de corrigir provas usando o método de, no próprio quarto, jogá-las para cima. As que caíam em cima da cama, levavam nota 8. As que caíam no chão, nota 5. Distribuídas as notas, havia sempre o recurso de pedir revisão de prova. Aos alunos que a solicitavam, nada custava ao professor aumentar-lhes a nota para 8, ficando todos satisfeitos.
Mutatis mutandis, faça o seguinte. Numa sala de dimensões razoáveis, estabeleça como centro uma mesinha-de-centro-que-já-estava-no-centro. Debaixo da mesinha-de-centro-que-já-estava-no-centro coloque um tapete de dimensões idem, digamos 1,5 x 1,5 metros. Em volta, quatro cadeiras, numeradas de 1 a 4. Como os concorrentes – principalmente nos concursos de poesia – geralmente passam de mil, não se apresse. Com o necessário vagar e a devida compostura, passe a retirar das caixas os calhamaços e a jogá-los para cima. Todos os que caírem em cima da mesinha-de-centro-que-já-estava-no-centro serão considerados aptos a continuar no processo. Os demais serão sumariamente eliminados. A utilização do tapete e das cadeiras numeradas é fundamental para tornar o julgamento aparentemente democrático.
Finalmente, dos calhamaços caídos em cima da mesinha-de-centro-que-já-estava-no-centro leia a primeira página de cada um. Prestando, reserve-as para posterior confronto e decisão. Naturalmente não é preciso ler mais do que a primeira página. Pretendentes a escritor sempre botam na frente dos calhamaços seus melhores – ou os que consideram melhores – textos. Assim, se não prestam, com certeza os outros serão muito piores.
CONSELHO FINAL: NÃO SINTA REMORSO
Este talvez seja o mais importante de todos. Jorge Luis Borges e Guimarães Rosa não ganharam o Prêmio Nobel. O primeiro, por pirraça da Academia Sueca; o segundo porque escreveu numa língua de bugres. Augusto dos Anjos morreu aos 30 anos, ridicularizado pelos famosos da época (Bilac entre eles) e “mais cansado do que um octogenário”, como escreveu Agripino Grieco. Kafka sugeriu a Max Brod que lhe queimasse a obra, embora não fosse inédito e tivesse recebido um prêmio de alguma importância, nada perto do sucesso que veio a obter. Enquanto isso, Paulo Coelho, meu Deus!, Paulo Coelho…
Portanto, faça você o que fizer, não se desculpe, não peça perdão, não se envergonhe. Como sugerem certas filosofias orientais, o Bem e o Mal se equivalem, existindo ambos como forças determinantes do equilíbrio do mundo. O mesmo acontece em literatura, em relação ao ótimo, ao bom, ao mediano, ao ruim e ao péssimo.
Adriane Garcia
28 de fevereiro de 2016 2:01 pmAdoro ler seus textos, seu
Adoro ler seus textos, seu humor crítico, cítrico, delicioso.