6 de junho de 2026

A origem da célebre polêmica entre Machado de Assis e Eça de Queiroz

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Por Sebastião Nunes

“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”, escreveu em O Mandarim o romancista português. É sob essa epígrafe que me proponho recuperar e separar, do fundo do bolorento baú da história, os fatos e as fofocas que cercaram o atrito literário e sentimental entre os dois mestres da língua.

 

CRÍTICA DO BRASILEIRO

Machado de Assis havia criticado asperamente tanto O Primo Basílio quanto O Crime do Padre Amaro. Segundo Daniel Libonati Gomes, em texto de 2013 no blog “Literatortura”, essas críticas teriam sido motivadas por inveja. Textualmente: “O Primo Basílio, de Eça, chegou às terras brasileiras em 1878 e foi logo criticado por Machado. (…) O escritor brasileiro descasca as obras do português sem dó nem piedade, declarando, por exemplo, que O Crime do Padre Amaro é cópia do La Faute de l’Abbé Mouret, de Émile Zola, e que Luiza, do Primo Basílio, é cópia da Eugénie Grandet, de Balzac. Machado diz admirar Eça, mas faz suas críticas de forma bastante irônica, de um jeito muito parecido com o que o consagraria na literatura poucos anos depois”. O título dessa matéria é “Inveja de Eça de Queiroz teria motivado a criação de Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Continuando, escreve o juvenil crítico (20 anos na época):

“Em 1881, é publicado o maravilhoso Memórias Póstumas de Brás Cubas, primeiro romance realista de Machado e talvez o maior clássico da nossa literatura (há quem pense diferente). Com o estilo que adotou, o brasileiro bebeu de diversas fontes para escrever seu livro, como Shakespeare, a Bíblia, Sterne etc. Mas ainda fica a pergunta: será que nosso grande escritor não entrou no Realismo para ‘competir’ com Eça de Queirós? O Primo Basílio parece ter ofuscado Iaiá Garcia, o que deixou Machado com raiva, talvez… De qualquer forma, a crítica de Machado de Assis não abala o apreço que os fãs de Eça têm por ele e as obras realistas de Machado também não são piores por terem sido escritas, pelo menos inicialmente, por inveja de um escritor que vivia do outro lado do oceano. E claro que, pelo menos por enquanto, essa hipótese da ‘poética da emulação’ não foi confirmada, então não se pode ter certeza das reais causas de Machado ter iniciado sua carreira realista.”

 

DEFESA DO PORTUGUÊS

Em resposta à crítica de Machado, escreveu Eça: “Devo dizer que os críticos inteligentes que acusaram O Crime do Padre Amaro de ser apenas uma imitação da Faute de l’Abbé Mouret, não tinham, infelizmente, lido o romance maravilhoso do Sr. Zola, que foi, talvez, a origem de toda a sua glória. A semelhança casual dos dois títulos induziu-os em erro. Com conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade córnea ou má-fé cínica poderiam assemelhar esta bela alegoria idílica, a que está misturado o patético drama de uma alma mística, a O Crime do Padre Amaro, simples intriga de clérigos e de beatas, tramada e murmurada à sombra de uma velha Sé de província portuguesa”. Comentário contundente e firme, principalmente pela “obtusidade córnea” com que se refere a Machado de Assis.

Além disso, e de acordo com o próprio Eça, seu livro “foi escrito em 1871, lido a alguns amigos em 1872 e publicado em 1874. O livro do Sr. Zola (…), que é o quinto da série Rougon-Macquart, escrito e publicado em 1874”. Ou seja, são do mesmo ano. Segundo Eça, claro, pois os fatos parecem contradizer tais afirmações. Mas isto é irrelevante.

 

DA INVEJA AO CIÚME

Relevante, no caso, é a chegada ao Brasil de Carolina Augusta Xavier de Novais, irmão do poeta Faustino Xavier de Novais, que passou à nossa história literária graças ao título de cunhado, já que sua obra é totalmente desconhecida.

Desembarcando no Rio de Janeiro em 1866, aos 31 anos, já incluída na categoria de balzaquiana, casou-se com Machado três anos depois, em 1869, tendo ele 30 anos e ela, 34. O motivo de sua vinda é controvertido. Dizem alguns que trazida por doença do irmão, que aqui vivia sozinho, necessitando, portanto, de companhia de parente próximo. Outros, no entanto, mais próximos talvez da verdade, alegam que o motivo foi, simplesmente, desilusão amorosa, o que não é de todo improvável.

 

A VERDADEIRA HISTÓRIA?

Certo é que Carolina sempre foi apaixonada por literatura (especialmente romances) e… escritores, o que não chega a ser novidade, sendo mesmo bastante comum, pelo menos na época. Conheceu Eça em Lisboa, em 1862, tendo ele 26 anos, quando ela já contava 27. São desconhecidos os detalhes de seu relacionamento. Sabe-se apenas que o romancista já visava altas alianças, dedicando-se à diplomacia e à frequentação de círculos nobres. Seu pai, José Maria d’Almeida de Teixeira de Queirós, era magistrado, cavaleiro e par do reino. Tanto que o filho se casou apenas aos 40 anos e com uma nobre: dona Emília de Castro Pamplona Resende, irmã do 50 conde de Resende. Modesta, Carolina era apenas uma jovem bonita, culta e inteligente. Sofria, contudo, do mal comum a tantas outras mulheres da época: não forneceria ao marido nem dote nem título.

Apresentada pelo irmão a Machado, logo se estabeleceu entre eles sólida aliança intelectual, a princípio, e afetiva, em seguida, culminando no casamento, que durou todo o restante da vida de ambos, já que, após a morte de Carolina, o solitário Machado apenas se arrastou pelo mundo, entre a casa, a glória e a Academia.

 

CAROLINA, MODELO DE CAPITU

Ainda que misantropo, seria pedir muito ao escritor que tirasse do nada (ou, caso prefiram, da imaginação pura) a figura emblemática e finamente desenhada de Capitolina, a deliciosa jovenzinha de olhos de ressaca, que apaixonou tantos sonhadores.

Foi em Carolina que Machado se espelhou. Nunca soube, como ninguém jamais saberia, como se deu a separação de Eça e Carolina. Os motivos eram óbvios: a diferença de classe os separava, mas não as circunstâncias. Choro e ranger de dentes? Desabafo e queixas de lado a lado? Cobranças e insultos? Nada se soube, ou se sabe.

A dúvida que roía Bentinho roeu seu criador durante toda a vida. Nenhum movimento de Carolina traía sua profunda afeição pelo marido, que retribuía na mesma moeda, para usar um chavão indigno dos dois romancistas. Comenta-se que foram felizes. Mas como o próprio Machado sabia, tanto que foi capaz de escrever, brutalmente, “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.

No entanto, e para sua infelicidade, o vírus da desconfiança se instalara para sempre em seu amargurado e romântico coração.

Sebastiao Nunes

Escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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13 Comentários
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  1. Urariano Mota

    13 de setembro de 2015 12:25 pm

    Injusto

    Acho leviano atribur à inveja a crítica de Machado de Assis a Eça de Queirós. Ainda que nela estivesse a origem, caberia separar a semente mesquinha dos seus frutos. Antes de julgar pelo caminho mais simples, que de resto não está demonstrado, é pura hipótese, devemos ver o que Machado de Assis escreveu sobre O Primo Basílio. Recupero trechos, lidos em http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=8274

    A crítica publicada em 1878, assim começa:

    “Um dos bons e vivazes talentos da atual geração portuguesa, o Sr. Eça de Queirós, acaba de publicar o seu segundo romance, o Primo Basílio. O primeiro, O Crime do Padre Amaro, não foi decerto a sua estréia literária. De ambos os lados do Atlântico, apreciávamos há muito o estilo vigoroso e brilhante do colaborador do Sr. Ramalho Ortigão, naquelas agudas Farpas, em que aliás os dois notáveis escritores formaram um só. Foi a estréia no romance, e tão ruidosa estréia, que a crítica e o público, de mãos dadas, puseram desde logo o nome do autor na primeira galeria dos contemporâneos. Estava obrigado a prosseguir na carreira encetada; digamos melhor, a colher a palma do triunfo. Que é, e completo e incontestável….”

    E continua:

    “Na Eugênia, há uma personalidade acentuada, uma figura moral, que por isso mesmo nos interessa e prende; a Luísa — força é dizê-lo — a Luísa é um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral. Repito, é um títere; não quero dizer que não tenha nervos e músculos; não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos ainda consciência….”

    Até atingir o que me parece uma finura exemplar:

    “Um leitor perspicaz terá já visto a incongruência da concepção do Sr. Eça de Queirós, e a inanidade do caráter da heroína. Suponhamos que tais cartas não eram descobertas, ou que Juliana não tinha a malícia de as procurar, ou enfim que não havia semelhante fâmula em casa, nem outra da mesma índole. Estava acabado o romance, porque o primo enfastiado seguiria para França, e Jorge regressaria do Alentejo; os dois esposos voltavam à vida anterior….  Para que Luísa me atraia e me prenda, é preciso que as tribulações que a afligem venham dela mesma; seja uma rebelde ou uma arrependida; tenha remorsos ou imprecações; mas, por Deus! dê-me a sua pessoa moral. Gastar o aço da paciência a fazer tapar a boca de uma cobiça subalterna, a substituí-la nos misteres ínfimos, a defendê-la dos ralhos do marido, é cortar todo o vínculo moral entre ela e nós. Já nenhum há, quando Luísa adoece e morre”.

    Se tais luzes – que vão além da obra específica, porquel iluminam a arte literária – são uma inveja, que seja entronizada no lugar da estética do romance.

    Por último e por fim, porque hoje e´domingo: o salto da criação de Machado de Asis até o extraordinário livro  Memórias Póstumas de Brás Cubas merece estudos bem mais pacientes, complexos e sérios. Esses, sim, dignos de inveja

    1. Odonir Oliveira

      13 de setembro de 2015 12:43 pm

      Sempre desconfio de análises que vão além da obra

      Por minha formação por escola marxista , formalistas russos etc. sempre considero a obra e a obra. Os apêndices  muitas vezes são motivações que não interferem na complexidade de interpretações do texto em si.

      Uma hora é a homossexualidade de um, outra hora a amante eterna de outro, a tuberculose de outros…

      A obra vale pela obra.

      Os Maias, para mim é superior a O Primo Basílio, por exemplo. E até Memórias Póstumas de Brás Cubas considero melhor que Dom Casmurro, que adoro.

      Olhares…

  2. Humberto Ecco

    13 de setembro de 2015 1:42 pm

    Carolina

        Aqui o que está em questão não é a obra de literatura, mas as razões da crítica ácida de Machado às obras de de Eça, A pergunta é por que há crítica superficial das obras de Eça. A obra deve ser analisada pela própria obra, porém não é disso que se trata, mas as rozões de uma crítica superficial às obras querosianas. Entendo, contudo, que o conservadorismo da fase final de Eça de Queiroz decorre do leite materno, do ambiente aristocrático em que nasceu. A aristocracia é um estdo de espírito.

    1. Anarquista Lúcida

      13 de setembro de 2015 6:08 pm

      Em que a crítica de Machado foi superficial?

      Do que li nos trechos citados pelo Urariano, nao achei, me pareceu argumentada. Concordar ou nao é outra coisa, nao me lembro suficientemente desses 2 livros de Eça para ter opiniao. Me lembro bem mais de A Ilustre Casa de Ramires, para mim o melhor livro dele. E que algo na história dele contada aqui no tópico me fez lembrar, e indagar se nao haveria alguma relaçao. Mas foi só uma impressao, eu nao saberia justificar.

  3. Humberto Ecco

    13 de setembro de 2015 1:53 pm

    Carolina

        Aqui o que está em questão não é a obra de literatura, mas as razões da crítica ácida de Machado às obras de de Eça, A pergunta é por que há crítica superficial das obras de Eça. A obra deve ser analisada pela própria obra, porém não é disso que se trata, ao menos no princípiuo do texto, mas as razões de uma crítica superficial às obras querosianas. Entendo, contudo, que o conservadorismo da fase final de Eça de Queiroz decorre do leite materno, do ambiente aristocrático em que nasceu. A aristocracia é um estdo de espírito. O final do texto foge deste primado e adentra numa análise digamos bisonha, Carolina esposa por Capitu personagem, há apenas a coincidência de nome, tal como de título: Crime de Padre Amaro. Jamais saberemos o que houve entre Bento e Capitu, o livro não dá voz à personagem.

  4. Anarquista Lúcida

    13 de setembro de 2015 6:12 pm

    Identificaçao de Carolina c/ Capitu? Difícil de acreditar

    para quem leu o Memorial de Aires. Ali sim há identificaçao clara de Carolina com D. Carmo, e inclusive reflexao sobre o drama dos “órfaos às avessas”, ou seja, idosos sem filhos. Que aliás nao houve porque Machado era epilético, nao por causa de Carolina. As duas identificaçoes nao seriam incompatíveis em si, mas o perfil de Capitu nao se parece em nada com o de D. Carmo, de quem é inclusive ressaltada a dedicaçao ao marido.

    1. Odonir Oliveira

      13 de setembro de 2015 9:58 pm

      Penso o mesmo

      As condições de vida de Machado e Carolina são tão conhecidas… estranham-me às vezes certas ilações. Enfim …

      1. Anarquista Lúcida

        13 de setembro de 2015 10:17 pm

        Se o rapaz é acadêmico, ou jornalista, eu entendo

        É o “publish or perish”… Triste, mas verdadeiro.

  5. Andrade F

    13 de setembro de 2015 7:29 pm

    Sebastianismo…

    …Critica sebastina. Só.

  6. romério rômulo

    14 de setembro de 2015 2:49 am

    dados sobre Tião Nunes, o insensato

    na Wikipedia:

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Sebasti%C3%A3o_Nunes

    e não consta aí que ele escreveu no Pasquim.

    romério

  7. sobrinhonetto

    14 de setembro de 2015 11:36 am

    Não entro nesta briga: Gosto

    Não entro nesta briga: Gosto demais de ambos.

  8. Evandro Trigueiro Tavares

    14 de setembro de 2015 12:30 pm

     
    Machado de Assis não era

     

    Machado de Assis não era realista. Esse mito é injustificável. Brás Cubas sobrevive à morte, escreve sua biografia, viaja pelo tempo, conversa com a Deusa Pandora, viaja no lombo de um hipopótamo falante (como o cavalo de Aquiles ou a jumenta de Balaão). Machado, ao contrário dos realistas, está mais preocupado em descrever a paisagem interior das personagens do que a paisagem exterior. A verdadeira literatura realista é uma literatura também paisagística. Nela, o narrador pretende ser imparcial, como se fosse um fotógrafo (sabemos que, na prática, isso é impossível). Realista são “Os Sertões”, “Bom-Crioulo”, “O cortiço”, “Os Maias”

     

    Machado de Assis era um escritor simbolista. O que não quer dizer que a escola realista não lhe tenha influenciado de alguma forma esporádica. Nos seus (magníficos) contos, animais falam, aranhas fundam uma república, o Diabo desafia Deus. No fim dos tempos, o judeu errante, Aasverus encontra Prometeu; o diálogo de ambos parece ter sido tirado de “Assim falava Zaratustra” de Nietszche, que definitivamente não pode ser rotulada como obra realista.  

  9. Harlei Cursino Vieira

    28 de novembro de 2025 9:13 am

    Harlei Cursino Vieira é um autor brasileiro que escreveu um livro chamado “Doutor Machado” em 2008, além de outras obras e resenhas literárias publicadas online, incluindo resenhas de “Frankenstein” e análises sobre Machado de Assis. Sua formação acadêmica inclui especializações em literatura brasileira, história do Brasil e outras áreas, demonstrando seu envolvimento com a literatura.
    Obras:
    “Doutor Machado” (2008): Livro de autoria de Harlei Cursino Vieira, conforme indicado em citações acadêmicas e em seu blog pessoal.
    Resenhas literárias: Vieira também escreveu resenhas sobre obras como “Frankenstein” e sobre contos de Machado de Assis, como “Suje-se gordo!”.
    Formação acadêmica:
    Graduação em Letras (Português e suas Respectivas Literaturas).
    Especialização em Literatura Brasileira e Gramática e Prática Textual.
    Pós-graduação em outras áreas, como História do Brasil e Teologia, e outros cursos de aperfeiçoamento.
    Conexão com Machado de Assis:
    Vieira demonstra um grande interesse e conhecimento sobre Machado de Assis, abordando sua obra e seu legado em seus escritos, como em “Doutor Machado” e resenhas de contos.
    Seu livro “Doutor Machado” e outras de suas publicações em blogs e artigos acadêmicos são dedicados à análise da obra machadiana.

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