Das psicopolíticas e das políticas do medo (e do que resta)
por Eliseu Raphael Venturi
Que a vida política se conforma como psicopolítica, ou seja, uma internalização de normas cogentes nos indivíduos como normas de desempenho absurdo (ou sua contrafactual anomia); que a política é perpassada pelas emoções, pelos afetos e pelas retóricas, e não apenas por uma límpida condução racional de liames claros e lógicos das teorias hermenêuticas, da argumentação e do Direito Administrativo, Constitucional e Penal, dos quais quase tudo transborda indiferente; e que o medo é moeda permanente de governamentalidade; parece não haver maiores dúvidas sobre estas três intrincadas dimensões de um mesmo fenômeno de grande intensidade e de muitos outros fios que constantemente nos cortam todos os dias.
Dentre muitos outros fatos sociais que seguem nos coagindo e fortalecendo o mal-estar civilizacional, que prosseguem intensificando a indústria farmacêutica, do entretenimento e das confeitarias, além dos mercados ilegais e das terapias científicas e outras, o medo ainda parece incompreendido, pouco enfrentado, pouco discutido, mais próximo ao tabu do que as demais emoções básicas fetichizadas naquelas indústrias todas.
Pergunta-se muito “como você se sente”, “o que te revolta”, “o que você deseja”, “o que obsta o seu desejo”, “onde você esconde os seus preconceitos”, “o que você pensa sobre o comportamento”, mas, afinal, pouco se pergunta “porque tanto medo?” ou “por que todo este medo acerca disso?”. Além de insuflado, o medo é ocultado, e quanto mais alimentado, mais ele move, e quanto mais ele move, menos dele se fala.
O medo que compõe as fobias, por exemplo, ao final das contas, ele está escondido, encoberto em orgulhos, violência, afirmações todas; o medo fica subsumido a outras urgências.
Fala-se muito em cultura do ódio. Exploram-se todos os tipos de violência. E tudo isso é, sem sombra de dúvidas, não apenas importante e fundamental como questão de vida ou morte para muitas populações.
Mas o medo, ele impõe um passo em direção ao outro, que inclui o inimigo, e em direção a si mesmo, um passo mais radical que talvez não se deseje realizar: o medo cessa, ou suspende, a guerra, e impõe lançar o outro no problema, talvez esse outro mesmo que nos habita, que foge da nossa imagem criada e desejada, estes estranhos que escapam.
Talvez uma pergunta sincera sobre o medo, e uma resposta sincera sobre o medo, revelem respostas tão simples que todo o tensionamento possa se dissipar de um modo mais simples do que perguntas mais complexas que demandem panoramas muito maiores que passem ao cabo, afinal, do medo. E, aí, a sinceridade da pergunta e da resposta são individuais: cada um sabe, sente, percebe, até certo ponto, certo pequeno e limitado ponto, o que desperta e desencadeia em si, aquela suposta ou real ameaça. Ou, talvez, o embate seja profundo demais e seja mais fácil simplesmente odiar.
O medo requer trégua, e trégua, redundantemente, coragem, o que, em alguma medida, quer dizer, confiança. Esta confiança, em crise por todos os lados, a começar por si mesmo, é uma aposta. E não que precisemos ou devamos mesmo acreditar em nós mesmo. Talvez a grande sacada seja uma boa dose de desconfiança. Mas essa desconfiança não é a malandragem do contrário da confiança: ela é a perspicácia de um pensamento fraco, de uma menor voltagem, ou, apenas, um exercício de desautomatização.
Certo é que quando as relações são hostis e rotas, e a inimizade e o perdão tão remotos, parece não haver mais espaço à restituição de qualquer espaço do político. Mesmo assim, seguimos nas maquinações psicopolíticas, retóricas, do medo. E, então, a única política que restamos fazer é a redundante política do medo. Que traça as piores tramas, coalizões, traições, e todo o enredo dos últimos séculos e milênios. E não que esperemos quaisquer melhoras ou milagres. E que rufem os tambores.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direitos humanos e democracia e radicado em Curitiba/PR.
Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN
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