8 de junho de 2026

O terraplanismo econômico da geração de emprego, por Luis Nassif

De lá para cá ocorreu uma defasagem de quase 12% entre o crescimento da população economicamente ativa e o da força de trabalho ocupada.
Foto: José Cruz/Agência Brasil

O terraplanismo sanitário surgiu com Bolsonaro. Mas o econômico é bem anterior e, talvez, seja a grande demonstração do subdesenvolvimento intelectual do país e, especialmente, do jornalismo.

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Conclusões econômicas sem o menor embasamento na realidade são tratadas como verdades científicas, sem nenhum questionamento, sem sequer a cobrança a posteriori dos resultados prometidos. Há uma intenção deliberada de usar a informação como forma de ludibriar a opinião pública. Fosse apenas uma questão ideológica, haveria a defesa da tese sem torturar os números.

Se o Ministro da Economia Paulo Guedes terá alguma utilidade para a história, será por demonstrar, em tempo real, o engodo retórico de prometer resultados que nunca serão alcançados.

Um dos fatores brandidos desde o governo Temer foi a história de que o custo da formalização trabalhista impediria a geração de emprego. Ora, a precarização do emprego tinha as seguintes externalidades negativas:

  1. A base do financiamento da Previdência é o emprego formal. Reduzindo a formalidade, caiu o financiamento da Previdência.
  2. A carteira de trabalho, e a penalização das demissões, são peças essenciais para o fortalecimento do mercado de consumo. É a estabilidade do emprego que permite a tomada de financiamento, peça central do mercado de consumo.
  3. Sem a estabilidade do emprego, além da redução do crédito ao consumo, também há uma cautela muito maior do trabalhador em consumir, dada a total ausência de redes de segurança social.

A primeira grande reforma trabalhista foi no governo Temer, com a criação da chamada Carteira Verde Amarela – uma relação de emprego que limita-se a formalizar o “bico”. Qual a natureza do “bico”? Falta de garantia de emprego, de contribuição ao INSS, de direito ao FGTS, férias e 13o. A Carteira Verde Amarelo é simplesmente um bico registrado. E, sendo registrado, entra nas estatísticas do Caged como se fosse emprego formal.

Confira nos gráficos abaixo, o desastre ocorrido.

Um perfil do mercado de trabalho mostra o pouco dinamismo da economia brasileira. Os maiores empregadores são setores de baixo nível de especialização, como Agricultura, Pecuária, Reparação de Veículos e Administração Pública. Na Indústria, houve redução de 789 mil postos de trabalho.

Na geração de empregos de 2016 para cá, o único setor que cresceu foi o Por Conta Própria.

Finalmente, tomando-se março-maio 2016 como base 100, confira o crescimento da População Economicamente Ativa x População Empregada. De lá para cá ocorreu uma defasagem de quase 12% entre o crescimento da população economicamente ativa e o da força de trabalho ocupada. A reforma trabalhista não apenas não criou, como não impediu uma queda substancial da geração de emprego formal no país.

Na época, Michel Temer sustentou o seguinteT;

Uma das medidas mais importantes do nosso governo foi a modernização das relações de trabalho. A nova lei trabalhista entrou em vigor neste sábado. Para ela, muito colaborou o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira.

Fiquei muito satisfeito em saber que existem pesquisas mostrando que os jovens têm expectativa muito positiva com essa modernização da lei trabalhista. E ouço relatos de empresários que as contratações aumentarão a partir de agora.

Os jovens estão certos. Perceberam que finalmente conectamos o mundo do trabalho no Brasil ao século 21.

Agora, com a jornada parcial, os estudantes terão mais chance de obter uma colocação, com todos os direitos garantidos, sem risco de interromper os estudos.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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