Os evangelhos secretos: a outra história de Jesus
por Michel Aires de Souza Dias
Pode ser que a história de Jesus seja totalmente diferente daquela que é contada pela ortodoxia católica. Há muitas controvérsias sobre sua vida e seus ensinamentos. Hoje, graças as descobertas de manuscritos encontrados em ânforas, nas cavernas de Nag Hammadi, em 1945, por uma camponês árabe, podemos ter uma visão bastante diferente do salvador. Nesses manuscritos foram encontrados muitas passagens do Novo Testamento, mas com uma interpretação bastante distinta daquele. Segundo uma das maiores especialistas em história do cristianismo, Elaine Pagels, Ph.D pela Universidade de Harvard, esses manuscritos diferem completamente da tradição cristã conhecida. Um dos manuscritos, denominado o “Evangelho Secreto”, fala de um Jesus enigmático e místico: Jesus disse: “Se revelarem o que têm em si, isso que manifestam os salvará. Se não revelarem o que têm em si, isso que não manifestam os destruirá.”. Em outro manuscrito, no “Evangelho de Felipe”, afirma-se que Jesus tinha uma companheira, Maria Madalena, e que seus discípulos ficavam enciumados e ofendidos quando Jesus a beijava na boca e lhe dava atenção excessiva: “… a companheira do Salvador é Maria Madalena. Mas Cristo a amava mais do que todos os discípulos, e costumava beijá-la muitas vezes na boca. Os demais discípulos ficaram ofendidos … Disseram-lhe: Por que você a ama mais do que todos nós? o Salvador respondeu e disse-lhes: “Por que não os amo como a amo? Já o evangelho de Tomé sugere que Jesus tinha um irmão gêmeo: “Estas são as palavras secretas proferidas por Jesus vivo e escritas por Judas Tomé, o gêmeo”
Nos primórdios do cristianismo, duas correntes principais disseminavam os mistérios de Jesus: os eclesiásticos e os gnósticos. Os cristãos que se identificavam como membros da ecclesia de Deus foram aqueles que hierarquizaram as funções da Igreja, criaram as posições de bispo, presbítero e diácono. Apesar de ser obscuro para os historiadores como se deu essa divisão, nos séculos I e II as estruturas hierárquicas da Igreja já estavam bem desenvolvidas. Na mesma época, um outro grupo denominado de gnósticos formavam uma outra vertente do cristianismo, sem hierarquias e sem uma doutrina fixa, interpretando livremente os ensinamentos de Jesus. Eles eram estigmatizados como hereges: “Alcunhas tais como magos, operadores de filtros e poções, corruptores de corpos, sedutores de mulheres, dentre outras, para construir uma imagem conspurcada do gnosticismo, uma arma no embate ideológico ocorrido neste momento” (SANTOS, 2009, p. 8).
No total foram encontrados 52 manuscritos, todos escritos em copta (língua semítica do antigo Egito), dos primeiros séculos da era cristã. A Igreja católica já sabia da existência desses manuscritos, mas eram considerados heréticos pela tradição dos textos canônicos. Com a fundação da Igreja, esses escritos foram queimados e seus adeptos foram perseguidos. Como avalia Pagels (2006), é pouco provável que alguns desses manuscritos sejam posteriores a 120-150 d.C., pois Irineu, o bispo ortodoxo de Lyon, declara por volta de 180 d.C. que hereges “vangloriam-se de possuir mais evangelhos do que realmente existem”, e lamenta que em sua época esses escritos já tenham atingido ampla circulação, da Gália até Roma, da Grécia até Ásia Menor.
O bispo Irineu de Lyon em seus escritos já acusava os gnósticos de fazerem magias e se propunha a tornar ilegítima suas interpretações sobre Jesus e, no sentido inverso, tornar sua visão do salvador legítima (Santos, 2009). Em seus esforços contra os gnósticos, na tentativa de mostrar que os cristãos da ecclesia eram os verdadeiros herdeiros da palavra de Cristo, Irineu estabeleceu quais seriam os quatro evangelhos reconhecidos a reportar algo sobre o salvador: Mateus I, Marcos I, Lucas I e João I (Santos, 2009). Apesar dos modernos cristãos acreditarem que somente existem 4 evangelhos, nas origens do cristianismo existiam mais de 80 evangelhos que narravam a vida e as doutrinas de Jesus. Como observa Arias (2019), devemos lembrar de que quando a hierarquia da Igreja esclareceu quais evangelhos os fiéis deveriam considerar seguros por terem sido inspirados por Deus, todos os outros considerados depois deles carentes de autoria divina já haviam sido usados e citados durante muito tempo pelos próprios bispos e pais da Igreja em seus escritos e sermões.
A tradição gnóstica tem como objetivo a busca de um conhecimento verdadeiro (gnose, em grego), procurando atingir uma vida espiritual plena pela revelação dos mistérios divinos. Desse modo, eles encontraram em Jesus o caminho para se chegar à verdade, a via para a espiritualidade. Não é por acaso que Jesus surge nos manuscritos gnósticos como um místico que fala por enigmas, que devem ser entendidos apenas pelos iniciados. Como afirma Pagels (2006), o “Jesus vivo” desses textos fala de ilusão e iluminação, não de pecado e arrependimento, como o Jesus do Novo Testamento. Em vez de ter como missão nos salvar do pecado, ele veio para ser um guia que abre o acesso à compreensão espiritual. Quando o indivíduo alcança a iluminação, ele se torna idêntico a Jesus. É o que afirma uma passagem do Evangelho de Tomé: Jesus disse: “Eu não sou seu mestre. Como você bebeu, ficou embriagado com as fontes borbulhantes que compartilhei com você (…). Aquele que beber da minha boca se tornará como eu: eu mesmo devo me tornar ele, e as coisas que estão ocultas lhe serão reveladas.”
O fato de Jesus falar por parábolas tinha uma explicação. Segundo Valentino, um professor gnóstico que viveu em 140 d.C,, Jesus partilhou com os discípulos determinados mistérios, que manteve oculto a estranhos (Pagels, 2006). Em uma passagem do Novo testamento essa afirmação é confirmada. Mateus (13:11) conta que quando Jesus falava em público, falava sempre por meio de parábolas; quando os discípulos perguntavam o motivo, respondia: “Porque lhes foi dado conhecer os mistérios do reino do céu, mas a eles não.” Segundo os gnósticos, alguns discípulos, seguindo as instruções de Jesus, mantiveram em segredo seus ensinamentos esotéricos, que eram transmitidos apenas aos escolhidos que tivessem provado ser espiritualmente maduros e, por isso, qualificadas para “iniciação na gnosis”, ou seja, no conhecimento secreto (Pagels, 2006).
Que Jesus é o aquele que detém a verdade absoluta é fato para eclesiásticos e gnósticos. O maior historiador eclesiástico, Eusébio de Cesária, que viveu nos primeiros séculos da era cristã (270 d.C), afirmou que Cristo tem uma dupla índole, ele se revestiu de homem, mas o “reconhecemos como Deus (…) E quem, a não ser o Pai, poderia conceber sem impureza a luz que é anterior ao mundo e a sabedoria inteligente e substancial que precedeu aos séculos” (Cesária, 2002, p. 13-4).
O Jesus descrito pelos gnósticos pode ser comparado a um filósofo que ensina o caminho da verdade. Como diz uma passagem do Evangelho de Tomé: Jesus disse: “Eu sou o caminho da verdade”. Em outra passagem ele afirma: “Existe luz em um homem iluminado e ele ilumina o mundo inteiro. Se ele não brilhar, ele é a escuridão.” Os gnósticos rejeitam qualquer mediação entre o homem e a busca do absoluto. Por isso, eles rejeitam a instituição religiosa, o caminho para Deus é solitário, individual. É a capacidade interna de cada qual encontrar por si mesmo sua própria direção para a “luz interior”.
Enquanto para a Igreja ortodoxa é o pecado que acarreta o sofrimento humano, para os gnósticos é a ignorância humana. Pagels (2006) explica que o gnosticismo valoriza, acima de tudo, o conhecimento – o autoconhecimento perceptivo. Segundo ela, o “Evangelho da Verdade” descreve que muitas pessoas vivem alienadas, desconhecem sua própria individualidade, não tendo raízes. Para essas pessoas a vida é um pesadelo. Aqueles que assim vivem sentem “terror, confusão, instabilidade, dúvida e divisão”, presos a “muitas ilusões.” Em outro manuscrito, o “Diálogo do Salvador”, afirma-se que, quem não compreende os elementos do universo, ou a si mesmo, está destinado ao aniquilamento: “Aquele que não compreende como o fogo veio à existência, por ele será queimado, pois não conhece sua raiz (…). Quem quer que não compreenda como veio ao mundo, não entenderá como irá…”
A grande lição dos evangelhos gnósticos é a de que o Reino de Deus não está nos céus, que o paraíso, a felicidade e a prosperidade humana só podem ser encontradas aqui na terra. São os homens em comunidade, coletivamente que devem buscar a bem-aventurança. O Reino de Deus significa um estado de transformação da consciência humana. Pagels (2006) explica que, no Evangelho de Tomé, Jesus ridiculariza aqueles que acreditam que o Reino de Deus está nos céus. Se assim fosse, os pássaros chegariam antes. Se estivesse no mar, os peixes chegariam antes. Jesus disse: “ Ora, o Reino está, ao mesmo tempo, fora e dentro de vocês. Quando obtiverem o autoconhecimento, então serão conhecidos, e perceberão que são os filhos do Pai vivo. Mas, caso não conheçam a si mesmos, farão da pobreza sua morada, e serão essa pobreza.” Os discípulos insatisfeitos, pensando que o Reino é um evento futuro, tornam a perguntar: “Quando chegará o novo mundo?”, “Quando virá o Reino?” Então Jesus responde: “O que buscam já chegou, mas não o reconheceis (…) Não virá estando à espera dele (…). Ao contrário, o Reino do Pai está espalhado por sobre a terra, e os homens não o veem.”
Referências
ARIAS, Juan. A rocambolesca história de como a Igreja Católica escolheu os quatro evangelhos cristãos. 12.12.2019. El Pais. Disponível em < https://brasil.elpais.com/juan_arias/2019-12-12/a-rocambolesca-historia-de-como-a-igreja-catolica-escolheu-os-quatro-evangelhos-cristaos.html> Acesso em 05.06.2021.
CESÁRIA, Eusébio. História Eclesiástica. São Paulo: Novo Século, 2002
PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. São Paulo: Objetiva, 2006.
A Biblioteca de Nag Hammadi. A tradução completa das Escrituras Gnósticas. James M. Robinson. São Paulo: Madras, 2000.
SANTOS, Márcio Gonçalves Dos. O processo de estigmatização dos gnósticos em Contra as heresias de Irineu de Lião. 2009. 131 f. Dissertação (Mestrado em História)-Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), Rio de Janeiro, 2009.
Michel Aires de Souza Dias – Doutorando em Educação pela Universidade de são Paulo. E-mail: [email protected]
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