5 de junho de 2026

Um totem ao cinismo em meio à fome e ao desalento no Brasil, por Arnaldo Cardoso

E o que dizer da recentíssima inauguração de escultura similar à do touro de Wall Street, de gosto estético ainda mais duvidoso, em frente a Bolsa de Valores de São Paulo, em momento em que o país mergulha em grave crise econômica?

Um totem ao cinismo em meio à fome e ao desalento no Brasil

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por Arnaldo Cardoso

Numa manhã de novembro de 1997, com a crise das moedas do sudeste asiático contaminando economias de todo o mundo, a icônica escultura do Charging Bull, ou Touro de Wall Street, que fica nas proximidades da Bolsa de Valores de Nova York, amanheceu sob uma poça de tinta vermelha, simbolizando sangue.

A escultura do touro em posição de ataque que é a representação dos investidores mais agressivos da Bolsa de Valores de Nova York, para os manifestantes que jogaram o balde de tinta vermelha, representa o pior de um sistema estimulado pelo egoísmo, pela ganância, pela indiferença com os trabalhadores, com seus empregos e famílias.

A chamada crise dos tigres asiáticos de 1997, cujo epicentro foi a bolsa de Kuala Lampur, foi a primeira de uma sequência que evidenciou a nova fase de interdependência do capitalismo global, cujos eventos locais rapidamente se tornam globais. No ano seguinte foi a vez da crise russa, e depois a brasileira, e em seguida a argentina, até chegar à grande crise de 2008, nos Estados Unidos, no coração do capitalismo global, crise que se estendeu pelo mundo e da qual muitos países ainda não se recuperaram.

Nesse contexto, ao mesmo tempo em que analistas emprestam ao mercado reações humanas como “nervoso”, “agressivo”, “instável”, o que se viu avançar foi a desumanização de seus operadores, levando seus críticos a identifica-los com psicopatas, uma vez que se mostram incapazes de empatia, de sentir-se no lugar do outro, de ser responsável e de se arrepender.

A versão mais recente dessa crítica é a série sul-coreana Round 6, exibida pela Netflix que se tornou um fenômeno global assim como a trama que ela expõe, que se passa num ambiente distópico, onde a maior parte das personagens vive o drama do desemprego, do endividamento, da desintegração familiar, da corrosão da solidariedade, interagindo com uma minoria, ou elite, cujas personagens são caracterizadas pela sordidez, crueldade e sadismo.

Numa macabra confusão entre o real e a ficção, dias atrás os jornais brasileiros relataram um golpe cometido no mercado de criptomoedas que lesou milhares de pessoas (“investidores”) causando um prejuízo estimado de R$12 milhões, ao prometer ganhos fáceis com a moeda batizada de Round 6 cuja valorização atingiu 300.000%, para depois desaparecer.

E o que dizer da recentíssima inauguração de escultura similar à do touro de Wall Street, de gosto estético ainda mais duvidoso, em frente a Bolsa de Valores de São Paulo, em momento em que o país mergulha em grave crise econômica, com explosão dos números da fome e do desalento, sob comando de um ministro da Economia que costuma se pavonear por possuir um diploma obtido na universidade de Chicago, berço dos monetaristas e dos defensores da racionalidade dos mercados? Esse mesmo ministro, em sintonia com o Presidente da República, já pronunciou inúmeras frases de descaso e deboche com os trabalhadores (dos setores público e privado), com os mais pobres (contingente que ele e o Presidente ajudaram a aumentar) e com aqueles que em governos anteriores conquistaram algumas oportunidades de desfrutar de prosperidade outrora restrita a uma minoria? E o que dizer da elite que de costas para a sociedade, festeja oportunidades de ganhos com a explosão da taxa de juros que paralisa o investimento produtivo e da desvalorização da moeda nacional que derruba o valor de bens públicos em processos de privatização?

Se na série Round 6 as personagens lançadas ao jogo se veem compelidas a aceitar regras insanas como único meio para a sobrevivência, na realidade das sociedades atuais o meio é a resistência e a solidariedade. É preciso manter a capacidade de se indignar e de fazer da revolta a única resposta aceitável ao absurdo, reafirmando assim o desejo de mudança. Não, não podemos continuar marchando para o abismo, para a ruína social.

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político formado pela PUC-SP.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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  1. Antonio Uchoa Neto

    18 de novembro de 2021 5:11 pm

    Não vi, não vejo, não tenho intenção de ver Round 6.
    O Capitalismo gera toda essa pobreza e desgraça social, depois vai lá, faz um filme, e enriquece ainda mais com a pobreza que ele mesmo criou, exibindo-a aos miseráveis como entretenimento.
    É sordidez demais.
    Ou, como dizia Glauber Rocha, trata-se simplesmente da adoração que as classes dominadas tem pelas classes dominantes.
    Adoram vê-las se exibindo. Mesmo sabendo que quem financia esse espetáculo cínico e grotesco são elas mesmas, as pessoas empobrecidas, endividadas, humilhadas e submetidas.
    Lembro-me de “Corações e Mentes”, em que um vietnamita, pobre, magro, desdentado, prováveis 40 anos com aspecto de 60, mostrando a um vizinho a equipe filmando o local que fora bombardeado: ‘Primeiro, jogam bombas. Depois vem filmar’.
    Somos nós, ali. Sejam desempregados, desalentados, que não tem Netflix para assistir Round 6, sejam casais de classe média com salários nababescos de cinco ou oito mil reais, com um gato de TV fechada, e se julgando a uma distância astronômica da pobreza, sejam trabalhadores retornados à linha da pobreza, sejam informais que vivem de bicos, quando há, somos aqueles dois vietnamitas, bombardeados e depois filmados.
    Tiram o pão, deixam o circo.
    Estamos todos deitados em berço esplêndido, vendo o que se passa sob a lona ao rés do chão. E os palhaços, lá, somos nós, filmados sem o saber. Não nos reconhecemos como tais – e rimos de nós mesmos.
    Conquistaram nossos corações, conquistaram nossas mentes. Nos deixaram pobres, sem recursos, estéreis e inúteis, e em exibição nas telas.
    E ganham dinheiro em cada uma dessas etapas.
    Esse mundo ainda vai se transformar num imenso snuff movie.
    Desse filme, seremos os protagonistas.

  2. AMBAR

    18 de novembro de 2021 5:19 pm

    E quando Moisés desceu do monte Sinai encontrou seu povo adorando um touro que, juntando as historinhas deverá ter sido o Boi Apis, o tão querido entre os egípcios, e símbolo de fortuna e fertilidade.
    Pesquisando o Boi Apis pelos sites de buscas encontramos algumas curiosidades que nos sugerem a importância do referido touro na maçonaria – https://blog.msmacom.com.br/acesso-ao-artigo-restrito/,
    o que nos leva crer que a presença do bovino dourado implica em poderoso ritual de poder e dinheiro.
    Forte e dourado, ainda assim gado, tanto quem o adora quanto o teme e o devora, o boi vaidoso vai sempre representando a impoluta submissão quer ao dinheiro, quer aos endinheirados que os adoram.

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