Nos eixos fundamentais para reconstrução do Brasil, Alckmin é negativo
por Luis Felipe Miguel
As justificativas para a aliança Lula-Alckmin são várias.
Deixo de lado a risível reabilitação de Alckmin como “democrata” e mesmo “amigo dos pobres”. E também o autoritário “cale-se, que Lula sabe o que faz”, que nem é risível, é deplorável.
Há quem ataque os críticos, com um uso maroto dos escritos de Lênin sobre o “esquerdismo”, que simplesmente ignora seja a brutal diferença entre os dois contextos, seja o sentido do que dizia o revolucionário russo.
Há a ingenuidade deliberada de afirmar que não importam nomes, mas sim o “programa”, fingindo que não se sabe como é feita a política real.
Ou então é apresentada uma saudação à “volta da política”, como se fazer política fosse sinônimo de uma geleia geral em que só importam as conveniências de momento – e, de quebra, como se o bolsonarismo não fosse, ele próprio, também uma forma de fazer política.
Há muitas formas de fazer política. Em algumas delas, princípios firmes não se confundem com intransigência. Diálogo não se confunde com capitulação. E, sobretudo, o reconhecimento das urgências do momento não leva, necessariamente, a abrir mão das perspectivas de futuro.
Na verdade, o que “volta” é uma compreensão do fazer político que o lulismo nunca abandonou – apenas deixou por um tempo em segundo plano, devido às circunstâncias. É a verdadeira “volta dos que não foram”.
Trata-se de recusar qualquer enfrentamento, ceder sempre, aceitar todas as imposições da classe dominante, congelar a correlação de forças no pior ponto possível.
Tudo em favor de uma máxima – “mais vale um pássaro na mão do que dois voando” – que a história provou, agora mesmo em 2016, que é enganosa.
Alckmin é necessário para a vitória eleitoral de Lula? A resposta, certamente, é negativa.
Alckmin não tem partido, não tem bancada, não tem carisma.
Alckmin é necessário para a “governabilidade” do terceiro mandato de Lula? Sim, desde que se entenda “governabilidade” como a rendição às exigências da burguesia.
Não há um único apoio parlamentar que Alckmin faculte e que Lula não pudesse obter sem Alckmin. O que Alckmin na chapa indica é a disposição de Lula para não avançar – ou avançar muito pouco.
É a marca de que o novo governo irá, sim, agir para melhorar a situação dos miseráveis, mas com o máximo cuidado para que a estrutura de privilégios que impede a transformação do Brasil seja preservada a curto, médio e longo prazos.
Pensemos em quatro eixos fundamentais para o futuro do Brasil: a reconstitucionalização do país, a recomposição dos direitos da classe trabalhadora, a preservação do meio ambiente e a promoção dos direitos das mulheres, da comunidade LGBT, dos povos indígenas, da população negra.
Em cada um deles, o registro de Alckmin é negativo.
Foi um apoiador do golpe e da Lava Jato, defensor de todas as arbitrariedades cometidas contra o próprio Lula, propagador de tese canalha dos “dois extremos” em 2018, que há dois meses ainda negociava um acerto com o bolsonarismo para as eleições paulistas. Esteve a favor de todas as medidas de precarização do trabalho tomadas a partir do golpe de 2016. É o responsável pela existência de Ricardo Salles como figura pública, primeiro como seu secretário particular, depois como secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Está alinhado às correntes mais atrasadas do conservadorismo católico.
Estamos dispostos a deixar o freio de mão puxado em relação a todas estas pautas?
Sim, Lula será o candidato das forças progressistas e todos nós votaremos nele. E ele ganhou uma autoridade tal sobre seu próprio partido que, desejando enfiar um chuchu goela abaixo de todo mundo, enfiará.
Mas se ele é um líder político atilado, como de fato é, certamente será sensível ao desconforto que sua escolha gera entre seus liderados. Ou, ao menos, entre a parcela deles que ainda se julga com o direito de pensar com a própria cabeça.
Na verdade, creio eu, entre todos, mesmo os que professam fé cega em suas decisões. Tenho uma evidência anedótica, mas que me parece significativa.
Desde que comecei a escrever nesse Facebook, há cinco ou seis anos, há uma regra: cada vez que faço uma crítica ao Lula, perco dois ou três “amigos”.
Qualquer coisa. Digo que não gostei da cor da gravata que ele estava usando, pimba! Duas ou três pessoas desfazem a “amizade”.
Há semanas estou dizendo que a combinação com Alckmin é um tremendo erro e, até agora, ninguém cortou o laço.
Muitos comentam discordando, o que é próprio do debate; muitíssimos não curtem, muito menos compartilham. Mas a ruptura, que marcava a compreensão da crítica como absolutamente inaceitável, não houve mais.
(E, com isso, encerra-se o curto período sabático em que este perfil resistiu a qualquer comentário sobre a chapa com Alckmin.)
Nelson Viana dos Santos
4 de janeiro de 2022 8:48 amA análise do Professor Luís Felipe Miguel é impecável.
Oxalá Lula não cometa esse erro monstruoso.
Mas, vale a pena observar o seguinte: sabemos há muito tempo que Lula é, do ponto de vista eleitoral, maior do que o PT. Para além de todos os méritos que possui e da injustiça da qual ele e sua família foram vítimas, não é possível que um partido enorme não participe (por meio de seus militantes e lideranças) dessa pretensa “escolha” para vice. Pode ser apenas um movimento em direção à direita. Tomara. Depois de tudo o que passamos, não é possível acreditar que o maior líder popular do país se alie a uma figura lastimável, reacionária, como esse ex-tucano.