4 de junho de 2026

A Frente Nacional Popular, o Pré Sal e o Novo Ciclo

Recentemente a Folha noticiou que os contratos do pré-sal serão os próximos alvo da Lava Jato.

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O Pré-Sal é hoje, para qualquer brasileiro minimamente informado, um patrimônio de extraordinária importância estratégica. O próprio futuro do país passa pela exploração dessas riquezas que estão ligadas à possível solução de dois dos mais sérios e crônicos problemas nacionais, a educação e a saúde, que receberão, e já estão recebendo, recursos volumosos dele advindos.

Ao mesmo tempo, o Pré-Sal tornou-se fundamental para diversas megaempresas brasileiras, pois o conteúdo de tudo o quanto será necessário para continuar a viabilizá-lo as demandará fortemente.

Por tudo isto essa província mineral vem assumindo importância estratégica para as Forças Armadas, que a enxergam como a joia da coroa da Amazônia Azul. A Marinha está a ponto de fabricar os nossos primeiros submarinos nucleares e a aeronáutica incorporará tecnologia sueca para a fabricação dos Grippen, tudo para proteger as nossas incomensuráveis reservas de petróleo.

No plano da investigação das empresas, a Operação Lava Jato vem utilizando métodos espetaculares e sendo alvo da crítica de renomados criminalistas e juízes. A serem feitas como são feitas as investigações estarão colocando nos calabouços mais e mais empresários, numa liturgia consolidada de humilhação e exposição máxima na mídia, ainda que não estejam condenados. A possibilidade de que possam delatar terceiros os torna alvos da prisão, que precede, conforme temos acompanhado, a condenação.

No plano da investigação política, a Lava Jato mantem preso o tesoureiro do PT e nenhum outro tesoureiro de nenhum partido, a despeito do esquema partidário mais claro ter sido ligado ao PP.

Os empresários que foram presos e os que serão presos são responsáveis por megaempresas nacionais, concorrentes diretas do capital internacional, não somente no Brasil, mas em diversos países do mundo. O enfraquecimento dessas empresas não é neutro, ele gera benefícios para outras empresas semelhantes de capital estrangeiro, não só no Brasil, na África, na Ásia e nas Américas. Coerente com isto, recentemente uma revista de grande circulação nacional e ligada à Globo tentou criminalizar Lula por tentar abrir mercados para essas empresas nacionais nos países que visitava.

São alvo, portanto, da Operação Lava Jato, dois tipos de personagens preferenciais: petistas e empresários de empresas estratégicas para o Brasil. Há outros presos, mas essas duas categorias preenchem o cenário midiático com grande ênfase e deles se vaza mais.

Independentemente da intenção ou não dos responsáveis pela Operação Lava Jato de prejudicar o Brasil, seus atos e como são produzidos interessam profundamente ao capital externo focado, por razões de mercado, em destruir a Petrobrás e sua credibilidade e, por razões políticas, em destroçar qualquer possibilidade de sustentação tecnológica que garanta a Soberania Nacional e ou que produza concorrência externa de peso.

O problema pelo qual navega a Lava Jato é o fato de que o espetáculo midiático vem enfraquecendo a própria legitimidade da Operação, acrescentando-lhe suspeição. Qual a finalidade real de expor pessoas chave dos comandos de empresas estratégicas para o Brasil desmoralizando-os publicamente e às suas empresas? Seria pela finalidade pedagógica para que a corrupção não se repita, ou pela de favorecer os interesses do capital externo que deseja nos subjugar? Cada um que faça o seu juízo.

O problema da Lava Jato não é de mérito. Fosse a Lava Jato uma operação metodologicamente convencional, respeitosa da dignidade das pessoas enquanto são julgadas, (inocentes até prova em contrário), nenhuma crítica poderia ser feita, pois o combate à corrupção é algo que está na ordem do dia para o Brasil.

Mas, por força dessa metodologia a Operação vem produzindo importante efeito colateral. Na via escura da perscrutação de significados e intenções veladas, a Lava Jato vem contribuindo como um catalisador de grande eficácia para forjar e viabilizar a frente Nacional Popular, (termo de imensa atualidade e utilidade política cunhado por Roberto Amaral) que designa a ferramenta política coletiva a ser forjada nos dias que correm com o propósito de fazer frente a essa onda neocolonial que se abate sobre nós. Sublinhemos: o método que promove a humilhação pública e a destruição da reputação de réus não julgados e não condenados e de suas empresas, favorece os interesses econômicos e ideológicos dos que pretendem ver o nosso país enfraquecido, desmoralizado no concerto das nações e ajoelhado aos ditames alienígenas, independentemente da intenção boa ou má daqueles que promovem a investigação e o julgamento.

O Brasil, contrariamente ao que diz o mito, não é mais um país jovem, é um velho país, mas de curta memória o que produz, também no seio da direita, atos políticos que só são concebidos por total e profunda ignorância histórica. Lembremo-nos, para corroborar o que afirmo, que em circunstâncias ainda mais difíceis o país tornou-se independente sem perda ou divisão territorial, proclamou a República sem conflitos, criou e consolidou a Petrobrás e derrubou a ditadura. Alguns desses atos, que compõem a promessa histórica da nossa Soberania Nacional plena, foram a obra de forças políticas conservadoras, penetradas de uma visão nacionalista em boa medida decorrente de seus interesses econômico-financeiros, forças e personalidades com quem nós da esquerda não temos identidade, mas podemos reconhecer o legado. Outros são um legado das forças progressitas.

Não há, portanto, a mínima chance de que o capital internacional neocolonial e imperialista possa tornar-se hegemônico entre nós, quando não o foi em circunstâncias em que as forças populares sequer se exprimiam. Sobretudo não será a grande mídia (declinante e objeto de pesadas reservas políticas e morais por parte de amplos setores da sociedade) que fará os brasileiros concordarem em entregar de mão beijada o patrimônio nacional e a nossa Soberania. Por muito menos a novela Babilônia é um desastre…

Se o raciocínio que teço é verdadeiro, isto significa que, cedo ou tarde, a desmoralização e a humilhação internacional perpetradas contra o país e diretamente contra o segmento nacional e popular (composição vitoriosa no Brasil há séculos, ou não existiríamos como nação e estaríamos fragmentados em mil pedaços, como a África ou a América espanhola) será cobrada; possivelmente não ao juiz Moro, mas politicamente àqueles que festejaram e se lambuzaram com os seus métodos investigativos que, intencionalmente ou não, desgraçaram ou tentaram desgraçar a nação perante as demais. Há, como tendência a ser materializada, ou como uma semente, que só precisa de uma chuva para eclodir, a formidável reação que porá cobro a tudo isso. Ou o empresariado das megaempresas arruinadas e humilhadas continuará atrelado à representação política do PSDB? Há contas a acertar.

Penso também que os militares, que estão se armando até os dentes para defender à bala as riquezas nacionais, não estariam muito confortáveis, contentes e honrados, logo às vésperas de ver o Brasil tornar-se uma potência militar pacífica, mas de primeira linha, em constatar que essas mesmas riquezas nacionais, que motivam e dão alma nova ao seu papel institucional e estratégico, estariam passando a mãos gringas por meio do mais nojento e abjeto entreguismo acompanhado da quebradeira geral das empresas nacionais estratégicas… É contra natureza. O projeto de potência militar de primeira linha e o entreguismo são dois valores INTEIRAMENTE incompatíveis.

A Igreja Católica, representada pela CNBB vem participando juntamente com a OAB de campanha clara e explícita em favor de uma Reforma Política Cidadã e contra a maioridade penal. Quem tiver ouvidos que ouça.

O PT, as megaempresas, os militares ou a Igreja, são bem diferentes entre si e possivelmente não se identifiquem plenamente uns com os outros mas, uns e outros, já entenderam que existe um inimigo comum que deseja, não o combate à corrupção, mas, a destruição física e moral da nação perante o mundo: o capital estrangeiro e os seus arautos locais. Todos enxergam que a velha trama que nunca prosperou no peso necessário a nos estilhaçar, a serpente com que gerações de brasileiros combateram, alvíssaras, saiu da toca e coesionou esse lado de cá.

Cria-se assim pelas mãos da grande mídia e de uma operação que extrapolou, intencionalmente ou não, os limites da dignidade humana, (prisões medievalescas segundo Zavascki) a velha frente que sempre foi vitoriosa em nosso país nos últimos 361 anos.

No século XVII em Pernambuco negros, índios e brancos (esses últimos senhores de engenho) escorraçaram os holandeses do Recife, inventaram e fundaram a nação brasileira, soldada a ferro e a fogo na Batalha dos Guararapes em 1654.

Na Ouro Preto de Tiradentes o problema não era o Petróleo, era o Ouro e a Metrópole havia também identificado grande corrupção entre os revoltosos que se negavam a pagar impostos.

Tiradentes foi enforcado, mas escassas duas décadas depois o país estava independente…

Na Bahia a independência só aconteceu quase um ano depois em 1823 e no campo de batalha, em Pirajá. Por lá, quando a batalha era dada por perdida o corneteiro Luis Lopes tocou avançar cavalaria, infundindo pânico às tropas da Coroa que debandaram. No dous de julho festeja-se na Bahia uma vitória militar, e o cortejo alegórico é o da mesma nação trina dos Guararapes.

Não somos grandes por acaso.

Os entreguistas vão se surpreender com a derrocada que os espera. Com Roberto Amaral, mas também com Tiradentes, com Felipe Camarão e com Luis Lopes: O Brasil é nosso!

Uma corneta enfim toca avançar cavalaria: A Frente Nacional Popular deve se organizar para arrasar nas eleições municipais que se avizinham.

Ela selará uma virada na história do Brasil.

Ion de Andrade

Médico, epidemiologista e pediatra, professor universitário e militante do SUS e dos movimentos urbanos.

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