
Por Rogério Faria
Mad Max: Estrada da Fúria trata da esperança como combustível, como mercadoria, como prisão, como redenção, como munição, como sobrevivência. Numa sequência quase ininterrupta de duas horas de ação alucinada, declaradamente inspiradas nas comédias mudas de Buster Keaton, você, quase entorpecido, pode perder os subtextos dos filme e nem mesmo sentir falta deles.
No retorno do diretor George Miller ao personagem da trilogia que o consagrou na década de 80, este novo filme não é nem sequência nem reinício da franquia. Max e o futuro apocalítico trazem toda a bagagem anterior, mas num filme independente.
Na história, como uma barata, o capitalismo sobrevive ao apocalipse. Num realidade sem esperança, ele perde qualquer “trava moral”. Tudo é produto, tudo é máquina, até o ser humano. Aí, matam e morrem para que essas máquinas sempre tenham combustível para continuar em movimento: gasolina, água, sangue, leite materno, balas, fé, bebês, esperança. O ser humano é apenas mais uma coisa.
Os carros, além de armas de guerra, são cultuados pelo povo, com expressões próprias integrando o vocabulário. Dirigir lhe coloca em uma casta acima. A água é escassa, e dominando o seu fornecimento, por meio de máquinas que a bombeia do interior do solo, Immortan Joe subjuga seu reino. A partir daí, ele estabelece relação de troca com outras gangues que podem lhe fornecer gasolina e munição fornecendo leite materno, o alimento, ordenhando mulheres como vacas. Max entra no filme como uma bolsa de sangue para um dos soldados que, por necessidade, o arrasta conectado a si para o campo de batalha.
A esperança é a última que morre, mas morre
Daí, falemos da esperança. É ela que leva a verdadeira protagonista do filme, Imperator Furiosa, a maior soldada de Immortan Joe, a se rebelar e fugir com seu harém particular que lhe servia parideiras para o exército do tirano, por isso, valiosas. Partem em busca do Vale Verde, onde Furiosa teria vivido quando criança antes de ser sequestrada. Enquanto, as esposas buscam a liberdade, ela busca redenção. O filme não explica porquê, mas você entende que o fato de ela não ser uma parideira ou uma leiteira, mas a principal motorista do comboio, e não ter um dos braços, num mundo desumano como aquele, deve ter enfrentado o terror e respondido com mais terror.
E todo o exército do vilão é movido pela esperança da recompensa pós-morte, tratando-o como um deus vivo, uma celebridade. Os soldados são conhecidos como meia-vidas, em razão de possuírem baixa expectativa de vida, cheio de deficiências e tumores por alguma má-formação. Como não há esperança de cura e sobrevida do lado de cá, o deus-tirano os motiva com a promessa do Valhala, onde os melhores entrarão.
Nux, um desses meia-vidas que se orgulham em se autodenominarem kamicrazys, é aquele que encontra a maior transformação durante o filme. De mera “bucha de canhão”, buscando dar a vida por Immortan Joe e garantir a eternidade, ele se transforma em aliado essencial dos mocinhos, sacrificando-se contra seu antigo deus pela liberdade.
Miller, nesse contexto, é genial ao brincar com a esperança do próprio espectador. É comum um personagem se salvar ileso de forma heróica/espetacular de algum perigo extremo de vida para, em seguida, morrer de forma besta e inesperada. Ele parece lhe dizer: “Não tenha esperança”!
Qual é a do Max Maluco?
Aí, é curioso analisar a trajetória do Max Maluco. O personagem que dá título ao filme move-se apenas pelo instinto de sobrevivência. Começa e termina como um solitário. Não tem esperança e o filme não lhe dá isso. Carregado de culpas por ter abandonado muitas pessoas pelo caminho para sobreviver, não se explica quem, e nem precisa (são muitas), Max busca redenção, exatamente como Furiosa, e vai ajudar a ela e suas meninas a conquistar a liberdade – após relutar bastante, claro. Frustradas ao descobrirem que não existe o Vale Verde, ele mostra as elas que o único lar, onde podem ter uma esperança de sobrevivência, é o lugar de onde fugiram. O ato final do filme é de retorno por todo o caminho que percorreram duramente durante todo o filme de volta à origem, numa sequência de ação emocionante, de tirar o fôlego. A esperança é a transformação do nosso próprio lar.
Assim, o filme consegue ser universal e atemporal, podendo se encaixar a qualquer sociedade na história, inclusive ao Brasil atual. Exige, claro, o esforço de se ir além do maniqueísmo simplista, que pode a princípio enganar o espectador. No filme, não há mocinhos nem vilões, tudo depende da perspectiva.
E por que no final Max não fica com elas? Porque ele não é louco. Elas não vão sobreviver.
anarquista sério
21 de maio de 2015 9:59 pm”
Mad Max: Não há lugar como
”
Mad Max: Não há lugar como o nosso lar”
MENTIRA.
Não existe lar perfeito.
Nem na literatura,
DeBarros
21 de maio de 2015 10:37 pmMad Max eh o futuro que a
Mad Max eh o futuro que a direita e o capitalismo sem limites nos prepara.
Eh para acabar nesse mundo apocaliptico que coxinhas tanto protestam. Odeiam viver num pais onde os debaixo, antes subservientes, agora tambem prosperam e ameacam, nao de tomar, mas pelo menos disputar espacos antes exclusivos.
Enquanto a esquerda tenta reduzir a desigualdade, equalizar oportunidades e colocar o mundo na trajetoria de um futuro socialista do tipo Star Trek, a direita so tem Mad Max a oferecer. Cegos e manipulados pelos mantras da midia oligarquica, incutidos a exaustao em seus cerebros desocupados, a exemplo dos soldados “meia vida” do filme, coxinhas correm cega e alucinadamente para sua auto destruicao. “Queremos intervencao militar! Queremos de volta a liberdade de levar boardoadas e sermos torturados pela policia! Pena de morte para os investigadores de corruptos! Queremos viver num pais regido por Mises e Ayn Rand onde meia-duzia sao ricos e o resto que se dane! Chega desse negocio de Paulo Freire e inclusao social. Isso eh coisa de comuna!
A continuar desse jeito, Mad Max sera Sao Paulo em alguns anos.
Amílcar Rodrigues
21 de maio de 2015 11:14 pmSpoilers
Para aqueles que ainda não viram o filme o texto acima contém não contém só spoilers. Conta o filme todo.