4 de junho de 2026

10/05/2015, dia de meter o pé na bunda de algumas mães

Uma história da maternidade no Brasil começaria com as índias, pois delas nasceram os primeiros brasileiros. Aos filhos dos seus rudes concubinos portugueses elas ensinavam a língua indígena, única largamente utilizada na Colônia até 1757, quando foi proibida. Também teria que levar em conta as africanas, mães tanto de novos escravos quando dos mestiços meio livres que foram os antepassados de outros mestiços, muitos dos quais se tornaram célebres (como Machado de Assis e Lima Barreto, por exemplo).

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As mulheres brancas, tão poucas no princípio da história do Brasil, formam o terceiro grupo maternal. Delas nasceram os senhores da terra e seus descendentes, muitos dos quais ainda se comportam como se fossem os únicos “donos do poder”. As imigrantes (italianas, polonesas, espanholas, alemãs, japonesas, russas, etc…) constituem o último grupo de mulheres a chegar no país. Elas rapidamente se integraram à paisagem nacional por intermédio de seus filhos e netos, brasileiros de nascimento que receberam na escola e nas ruas a língua portuguesa e a história do Brasil.

O que significa ser uma mãe brasileira? Esta é uma boa pergunta, cuja resposta depende necessariamente da época que for objeto de estudo e que classe social for abordada. Mesmo hoje, esta pergunta poderia receber respostas dispares em razão das diferenças regionais que existem em nosso país e dos abismos que existem entre ricos e pobres, entre brancos, mestiços e negros. No Brasil, a preservação das distâncias sociais parece ser um fenômeno ligado a educação maternal. De fato, mães brancas de garotos “bem nascidos” e educados nas escolas privadas existentes em “bairros nobres” raramente demonstram muita compaixão pelos filhos pobres das operárias faveladas que estudam em escolas públicas na periferia.

Todas as mães brasileiras querem o melhor para os seus filhos. Mas algumas delas sabem que os destinos sociais de alguns filhos são diferentes dos destinos dos filhos das “outras” mães. No limite as mulheres privilegiadas desejam garantir o predomínio político e econômico dos seus rebentos mediante uma separação total: por isto são contra as políticas públicas que permitem a inclusão social pela educação universitária, apóiam a redução da maioridade penal para permitir o encarceramento dos filhos das mulheres pobres e não reclamam da brutalidade policial desde que as vítimas dos PMs sejam os filhos das “outras” brasileiras.  

Coração de mãe brasileira não é mole não.

“Dona Rosa Paulina da Fonseca, mãe de Deodoro, ao saber do rompimento com o Paraguai, fez seguir para o campo de batalha seis dos seus filhos e, pouco depois, o sétimo, ainda de menor idade. Três deles tombam mortos, em Curupaití e Itororó. Dois outros, entre os quais Deodoro, são gravemente feridos. Ao ter notícia, porém, de que se preparava a paz com o inimigo – paz sem vitória – não se conteve.

-Prefiro não ver mais meus filhos! – declarou.

E com alma varonil:

-Que fiquem antes todos sepultados no Paraguai com a morte gloriosa no campo de batalha, do que enlameados por uma paz vergonhosa para nossa Pátria! (O Brasil Anedótico, Humberto de Campos, Livraria José Olympio, Rio de Janeiro, 1936, p. 81-82)

Hoje é dia das mães. Impossível esquecer, portanto, aquelas fervorosas mães que participaram das Marchas da Família com Deus pela Liberdade que ajudaram a precipitar o golpe de 1964. Os filhos delas torturaram e mataram os filhos das outras brasileiras, mas nem assim elas deixaram de apoiar o regime infame. Também é impossível esquecer as mães supostamente amorosas que nos últimos meses tem feito marchas exigindo um golpe de estado e que batem panelas na frente da TV quando Dilma Rousseff faz um pronunciamento importante. Estas são mães tão sedentas de sangue quanto Dona Rosa Paulina da Fonseca. Elas preferem mergulhar o Brasil numa guerra civil a ver seus filhos concorrerem em condições de igualdade com os filhos das mães brasileiras.

Estas mães não merecem aplausos ou flores. Merecem apenas um pé na bunda no dia das mães.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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