4 de junho de 2026

Barroso: “Somos militantes da revolução da brevidade”

Enviado por Mauro Segundo

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Nassif, esse texto merece virar post. 
Fonte: http://m.migalhas.com.br/quentes/217918/cinco-licoes-sobre-a-vida-e-o-di…

Do Migalhas

Cinco lições sobre a vida e o Direito, por ministro Barroso

Patrono da turma de 2014 da faculdade de Direito da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, proferiu emocionante discurso com reflexões essenciais relacionadas à vida e ao Direito. 

Confira a íntegra do texto.

A vida e o Direito: breve manual de instruções

I. Introdução

Eu poderia gastar um longo tempo descrevendo todos os sentimentos bons que vieram ao meu espírito ao ser escolhido patrono de uma turma extraordinária como a de vocês. Mas nós somos – vocês e eu – militantes da revolução da brevidade. Acreditamos na utopia de que em algum lugar do futuro juristas falarão menos, escreverão menos e não serão tão apaixonados pela própria voz.

Por isso, em lugar de muitas palavras, basta que vejam o brilho dos meus olhos e sintam a emoção genuína da minha voz. E ninguém terá dúvida da felicidade imensa que me proporcionaram. Celebramos esta noite, nessa despedida provisória, o pacto que unirá nossas vidas para sempre, selado pelos valores que compartilhamos.

É lugar comum dizer-se que a vida vem sem manual de instruções. Porém, não resisti à tentação – mais que isso, à ilimitada pretensão – de sanar essa omissão. Relevem a insensatez. Ela é fruto do meu afeto. Por certo, ninguém vive a vida dos outros. Cada um descobre, ao longo do caminho, as suas próprias verdades. Vai aqui, ainda assim, no curto espaço de tempo que me impus, um guia breve com ideias essenciais ligadas à vida e ao Direito.


II. A regra nº 1

No nosso primeiro dia de aula eu lhes narrei o multicitado “caso do arremesso de anão”. Como se lembrarão, em uma localidade próxima a Paris, uma casa noturna realizava um evento, um torneio no qual os participantes procuravam atirar um anão, um deficiente físico de baixa altura, à maior distância possível. O vencedor levava o grande prêmio da noite. Compreensivelmente horrorizado com a prática, o Prefeito Municipal interditou a atividade.

Após recursos, idas e vindas, o Conselho de Estado francês confirmou a proibição. Na ocasião, dizia-lhes eu, o Conselho afirmou que se aquele pobre homem abria mão de sua dignidade humana, deixando-se arremessar como se fora um objeto e não um sujeito de direitos, cabia ao Estado intervir para restabelecer a sua dignidade perdida. Em meio ao assentimento geral, eu observava que a história não havia terminado ainda.

E em seguida, contava que o anão recorrera em todas as instâncias possíveis, chegando até mesmo à Comissão de Direitos Humanos da ONU, procurando reverter a proibição. Sustentava ele que não se sentia – o trocadilho é inevitável – diminuído com aquela prática. Pelo contrário.

Pela primeira vez em toda a sua vida ele se sentia realizado. Tinha um emprego, amigos, ganhava salário e gorjetas, e nunca fora tão feliz. A decisão do Conselho o obrigava a voltar para o mundo onde vivia esquecido e invisível.

Após eu narrar a segunda parte da história, todos nos sentíamos divididos em relação a qual seria a solução correta. E ali, naquele primeiro encontro, nós estabelecemos que para quem escolhia viver no mundo do Direito esta era a regra nº 1: nunca forme uma opinião sem antes ouvir os dois lados.

III. A regra nº 2

Nós vivemos em um mundo complexo e plural. Como bem ilustra o nosso exemplo anterior, cada um é feliz à sua maneira. A vida pode ser vista de múltiplos pontos de observação. Narro-lhes uma história que li recentemente e que considero uma boa alegoria. Dois amigos estão sentados em um bar no Alaska, tomando uma cerveja. Começam, como previsível, conversando sobre mulheres. Depois falam de esportes diversos. E na medida em que a cerveja acumulava, passam a falar sobre religião. Um deles é ateu. O outro é um homem religioso. Passam a discutir sobre a existência de Deus. O ateu fala: “Não é que eu nunca tenha tentado acreditar, não. Eu tentei. Ainda recentemente. Eu havia me perdido em uma tempestade de neve em um lugar ermo, comecei a congelar, percebi que ia morrer ali. Aí, me ajoelhei no chão e disse, bem alto: Deus, se você existe, me tire dessa situação, salve a minha vida”. Diante de tal depoimento, o religioso disse: “Bom, mas você foi salvo, você está aqui, deveria ter passado a acreditar”. E o ateu responde: “Nada disso! Deus não deu nem sinal. A sorte que eu tive é que vinha passando um casal de esquimós. Eles me resgataram, me aqueceram e me mostraram o caminho de volta. É a eles que eu devo a minha vida”. Note-se que não há aqui qualquer dúvida quanto aos fatos, apenas sobre como interpretá-los.

Quem está certo? Onde está a verdade? Na frase feliz da escritora Anais Nin, “nós não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos”. Para viver uma vida boa, uma vida completa, cada um deve procurar o bem, o correto e o justo. Mas sem presunção ou arrogância. Sem desconsiderar o outro. 

Aqui a nossa regra nº 2: a verdade não tem dono.

IV. A regra nº 3

Uma vez, um sultão poderoso sonhou que havia perdido todos os dentes. Intrigado, mandou chamar um sábio que o ajudasse a interpretar o sonho. O sábio fez um ar sombrio e exclamou: “Uma desgraça, Majestade. Os dentes perdidos significam que Vossa Alteza irá assistir a morte de todos os seus parentes”. Extremamente contrariado, o Sultão mandou aplicar cem chibatadas no sábio agourento. Em seguida, mandou chamar outro sábio. Este, ao ouvir o sonho, falou com voz excitada: “Vejo uma grande felicidade, Majestade. Vossa Alteza irá viver mais do que todos os seus parentes”. Exultante com a revelação, o Sultão mandou pagar ao sábio cem moedas de ouro. Um cortesão que assistira a ambas as cenas vira-se para o segundo sábio e lhe diz: “Não consigo entender. Sua resposta foi exatamente igual à do primeiro sábio. O outro foi castigado e você foi premiado”. Ao que o segundo sábio respondeu: “a diferença não está no que eu falei, mas em como falei”.

Pois assim é. Na vida, não basta ter razão: é preciso saber levar. É possível embrulhar os nossos pontos de vista em papel áspero e com espinhos, revelando indiferença aos sentimentos alheios. Mas, sem qualquer sacrifício do seu conteúdo, é possível, também, embalá-los em papel suave, que revele consideração pelo outro. 

Esta a nossa regra nº 3: o modo como se fala faz toda a diferença.

V. A regra nº 4

Nós vivemos tempos difíceis. É impossível esconder a sensação de que há espaços na vida brasileira em que o mal venceu. Domínios em que não parecem fazer sentido noções como patriotismo, idealismo ou respeito ao próximo. Mas a história da humanidade demonstra o contrário. O processo civilizatório segue o seu curso como um rio subterrâneo, impulsionado pela energia positiva que vem desde o início dos tempos. Uma história que nos trouxe de um mundo primitivo de aspereza e brutalidade à era dos direitos humanos. É o bem que vence no final. Se não acabou bem, é porque não chegou ao fim. O fato de acontecerem tantas coisas tristes e erradas não nos dispensa de procurarmos agir com integridade e correção. Estes não são valores instrumentais, mas fins em si mesmos. São requisitos para uma vida boa. Portanto, independentemente do que estiver acontecendo à sua volta, faça o melhor papel que puder. A virtude não precisa de plateia, de aplauso ou de reconhecimento. A virtude é a sua própria recompensa. 

Eis a nossa regra nº 4: seja bom e correto mesmo quando ninguém estiver olhando.

VI. A regra nº 5

Em uma de suas fábulas, Esopo conta a história de um galo que após intensa disputa derrotou o oponente, tornando-se o rei do galinheiro. O galo vencido, dignamente, preparou-se para deixar o terreiro. O vencedor, vaidoso, subiu ao ponto mais alto do telhado e pôs-se a cantar aos ventos a sua vitória. Chamou a atenção de uma águia, que arrebatou-o em vôo rasante, pondo fim ao seu triunfo e à sua vida. E, assim, o galo aparentemente vencido reinou discretamente, por muito tempo. A moral dessa história, como próprio das fábulas, é bem simples: devemos ser altivos na derrota e humildes na vitória. Humildade não significa pedir licença para viver a própria vida, mas tão-somente abster-se de se exibir e de ostentar. Ao lado da humildade, há outra virtude que eleva o espírito e traz felicidade: é a gratidão. Mas atenção, a gratidão é presa fácil do tempo: tem memória curta (Benjamin Constant) e envelhece depressa (Aristóteles). Portanto, nessa matéria, sejam rápidos no gatilho. Agradecer, de coração, enriquece quem oferece e quem recebe.

Em quase todos os meus discursos de formatura, desde que a vida começou a me oferecer este presente, eu incluo a passagem que se segue, e que é pertinente aqui. “As coisas não caem do céu. É preciso ir buscá-las. Correr atrás, mergulhar fundo, voar alto. Muitas vezes, será necessário voltar ao ponto de partida e começar tudo de novo. As coisas, eu repito, não caem do céu. Mas quando, após haverem empenhado cérebro, nervos e coração, chegarem à vitória final, saboreiem o sucesso gota a gota. Sem medo, sem culpa e em paz. É uma delícia. Sem esquecer, no entanto, que ninguém é bom demais. Que ninguém é bom sozinho. E que, no fundo no fundo, por paradoxal que pareça, as coisas caem mesmo é do céu, e é preciso agradecer”.

Esta a nossa regra nº 5: ninguém é bom demais, ninguém é bom sozinho e é preciso agradecer.

VII. Conclusão

Eis então as cláusulas do nosso pacto, nosso pequeno manual de instruções:

1. Nunca forme uma opinião sem ouvir os dois lados;

2. A verdade não tem dono;

3. O modo como se fala faz toda a diferença;

4. Seja bom e correto mesmo quando ninguém estiver olhando;

5. Ninguém é bom demais, ninguém é bom sozinho e é preciso agradecer.

Aqui nos despedimos. Quando meu filho caçula tinha 15 anos e foi passar um semestre em um colégio interno fora, como parte do seu aprendizado de vida, eu dei a ele alguns conselhos. Pai gosta de dar conselho. E como vocês são meus filhos espirituais, peço licença aos pais de vocês para repassá-los textualmente, a cada um, com toda a energia positiva do meu afeto:

(i) Fique vivo;

(ii) Fique inteiro;

(iii) Seja bom-caráter;

(iv) Seja educado; e

(v) Aproveite a vida, com alegria e leveza.

Vão em paz. Sejam abençoados. Façam o mundo melhor. E lembrem-se da advertência inspirada de Disraeli: “A vida é muito curta para ser pequena”.

Redação

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17 Comentários
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  1. C.Paoliello

    29 de abril de 2015 2:29 pm

    Quem é Barroso

    Seu discurso diz tudo sobre quem é Barroso e como a presidenta Dilma estava inspirada quando o escolheu para o STF.

  2. chanceLer01

    29 de abril de 2015 2:30 pm

    Uma introdução ao direito (humanismo); uma lição para a vida.

    Uma introdução ao direito (humanismo); uma lição para a vida.

    ainda que a vida não nos apresente manuais, eis, algumas regras que podem orientar nossa caminhada e tornar a existência mais relevante.

  3. Paulo Cesar Souza

    29 de abril de 2015 2:32 pm

    Na qualidade de profissional

    Na qualidade de profissional da ciência jurídica e aplicador das regras elencadas pelo Ministro Barroso, sinto-me aliviado ao ler texto repleto de sabedoria. É a diferença entre o que sabe e aqueles que se acham o tal.

  4. alfeu

    29 de abril de 2015 2:52 pm

    *

    O texto foi devidamente guardado.

  5. Lucinei

    29 de abril de 2015 2:59 pm

    … É porque o tal Reinaldo

    … É porque o tal Reinaldo Azevedo está ocupado com o Fachin, mas eu queria ver onde ele enxergaria o Mal ou a “esquerdopatia”, o “stalinismo”, a “cubanização” ou a “venezuelização” nesse discurso para formandos.

    1. Luís Henrique Donadio

      30 de abril de 2015 12:17 am

      Onde está o mal? Fácil.
      1.

      Onde está o mal? Fácil.

      1. Nunca forme uma opinião sem ouvir os dois lados;

      Para Reinaldo Azevedo, ouvir petista é ouvir bandido, portanto, afirmar que é preciso ouvir os dois lados é ser cúmplice no crime.

      2. A verdade não tem dono;

      Como assim? Estão desapropriando a verdade do Reinaldo Azevedo? E você ainda acha que esse petralha de toga não é um comunista bolivariano?

      3. O modo como se fala faz toda a diferença;

      Um claro elogio da dissimulação, aconselhando os jovens advogados a ser melífluos e adoçar a pílula para enganar os incautos. Deve ser orientação do Foro de São Paulo.

      4. Seja bom e correto mesmo quando ninguém estiver olhando;

      E ainda por cima é mentiroso! Está claro que, para formular o ponto 4., está aplicando o ponto 3.

      5. Ninguém é bom demais, ninguém é bom sozinho e é preciso agradecer.

      Reinaldo Azevedo é bom demais, é bom sozinho, não deve nada a ninguém, cultiva sua própria comida, construiu sua própria casa, e não agradece a ninguém. O petralha de toga é evidentemente um coletivista radical, que insinua descaradamente que a internet do Reinaldo Azevedo é um construto social, e não um atributo de uma individualidade brilhante.

      ***********************************************************

      Ou você acha que não é assim que essa gente pensa?

  6. Snaporaz

    29 de abril de 2015 3:07 pm

    Lembrou-me  conferencias de

    Lembrou-me  conferencias de auto-ajuda com temperos   de “Seleções do Riders Digest”,anacrônico manual  de “way of life”  tão em voga nos anos   cinquenta.

  7. Paulo de Souza Castro

    29 de abril de 2015 3:54 pm

    Mauro
    Obrigado por garimpar e

    Mauro

    Obrigado por garimpar e nos oferecer essa preciosidade.

     

  8. agincourt

    29 de abril de 2015 4:42 pm

    historinhas

    Mazelas mil no nosso sistema jurídico e me vem o Barroso contar historinha pras crianças.

    E como a criatura gosta de contar historinha!

    Mistura de Esopo, La Fontaine e Tia Nastácia.

    Mas tudo bem: se a rapaziada do Direito da UERJ seguir o Barroso, de repente pinta até uma toga no Supremo pr’algum escolhido.

    (Barbosão também foi professor da UERJ, mas esse o PT tá querendo esquecer.)

    Vou dar ideia: é bom aproveitar logo enquanto Ricardo Vieiralves – petista roxo – é reitor.

    1. Roberto Monteiro

      29 de abril de 2015 5:42 pm

      Querias o que?

      Um manifesto contra as mazelas do sistema judiciário brasileiro? Era uma festa, e festas requerem amenidades.

      Por falar em histoirnhas, tem gente que prefere as historinhas contadas pelos jornais, tvs, rádios, blogs Brasil a fora. E pior: às vezes acreditam.

    2. DanielQuireza

      29 de abril de 2015 6:16 pm

      Hum, vc queria que em uma

      Hum, vc queria que em uma formatura ele fosse criticar o nosso sistema juridíco ?

      Não seria o momento adequado.

      1. agincourt

        30 de abril de 2015 1:24 am

        Mauro e Daniel.

        Mauro e Daniel, era sim o momento adequado.

        Acredito que um discurso mais focado na realidade do sistema jurídico tupiniquim seria melhor aproveitado pelos formandos do Direito. Proferido por um juiz do STF teria inda mais peso.

        Isso talvez os preparasse melhor para o universo com que se defrontarão.

        Quando estudei na UERJ – não no curso de Direito – os alunos, de modo geral, eram bastante politizados e combativos. Não sei o quadro atual. Porém digo que ficaria surpreso e decepcionado se essa água com açúcar – talvez apropriada lá nos 30 ou 40 – inspirasse alguém, hoje.

        Temo que a única inspiração originada no evento seja alcançar o prêmio máximo no campo jurídico, representado na própria figura do Barroso: ser, um dia, ministro do Supremo.

        E, convenhamos, ser ministro do STF tem pouco a ver com a receita de bolo apresentada pelo nosso Sherazade.

        Abração cordial.

    3. Mauro Segundo

      29 de abril de 2015 6:53 pm

      Ele estava fazendo um

      Ele estava fazendo um discurso em uma formatura de direito, não em uma comissão do congresso para reforma do judiciário. Deveria inspirar, e inspirou. Da melhor maneira possível. Tente achar algo semelhante do JB.

    4. Luís Henrique Donadio

      30 de abril de 2015 12:21 am

      Não te disse, Lucinei?

      Não te disse, Lucinei?

  9. DanielQuireza

    29 de abril de 2015 4:43 pm

    Tem juizes por ai que não

    Tem juizes por ai que não conhecem a regra número 1….

  10. Djijo

    29 de abril de 2015 5:22 pm

    A expectativa se provou verdadeira

    Quando noticiaram que Luis Roberto Barroso seria ministro e a biografia dava esperança de alguém de nível ocupar um lugar no STF, com essa dedicatória aos formandos ele provou que a nossa confiança tinha razão de ser.

  11. joão comentarista

    4 de maio de 2015 1:59 pm

    Seria interessante ver o que

    Seria interessante ver o que pensam agora sobre a regra número 1 ao considerar o caso do lançamento de crianças no funk ao invés do lançamento do anão francês. Talvez caiba uma regra número 6…

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