14 de junho de 2026

Pentecostalismo e Conservadorismo Econômico, um monumento com pés de barro, por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

O pentecostalismo tornou-se palatável aos praticantes das religiões afro, pois permite que, nos cultos, “baixe o santo”, travestido de discurso em línguas.
Agência Brasil

Pentecostalismo e Conservadorismo Econômico, um monumento com pés de barro

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Recentemente, depois da nomeação de um terrivelmente evangélico para o STF, viralizara imagens da Primeira-Dama dando pulinhos e “falando em línguas”. Se ela fosse adepta do candomblé, dir-se-ia que um santo tinha baixado nela. Por certo que as variações pentecostais do cristianismo vieram do sul dos Estados Unidos e são uma forma de sincretismo religioso, como no Brasil, no Caribe e em alguns pontos da África, origem das religiões envolvidas nos rituais cristianizados.

A diferença ritual entre as igrejas pentecostais e as manifestações  africanizadas encontra-se em Negras Raízes de Alex Haley, quando ele cita que, ao contrário de no Brasil ou em Cuba, os negros[1] eram proibidos de tocar tambores, graças ao temor de que eles fossem usados para a organização de revoltas. Ao mesmo tempo impunha-se a eles um cristianismo baseado no pensamento calvinista, predominante nos Estados Unidos. Nos países católicos, também se impôs o cristianismo aos escravos[2], mas tocar tambor era permitido, enquanto a crença nos espíritos ancestrais não. Ocorre que práticas milenares não somem por passe de mágica, por mais que sejam reprimidas, como se tentou fazer com o judaísmo entre os séculos XIV e XVIII. Do judaísmo reprimido nasceram práticas regionais, como a missa de 7º dia. Das religiões africanas reprimidas pelo catolicismo, veio a tradução dos espíritos em nomes de santos católicos. Do calvinismo reprimindo as manifestações africanas, nasceu o pentecostalismo.

O catolicismo impunha o ESTOICISMO, em que a ideia de santidade atrela-se ao desapego dos bens materiais e ao altruísmo. O calvinismo, por sua vez, preconizava o hedonismo e a ideia de maximização. Max Weber, quando escreveu “A Ética Protestante e a Lógica do Capitalismo”, só foi até essa distinção, visto que o movimento pentecostal passava longe de seu universo. Não imaginava ele que a Teologia da Prosperidade — cujo termo o autor, provavelmente, não conhecia – atingiria as massas pelo sincretismo religioso.

Miller e Yamamori (2007)[3] comparam a Marcha para Cristo, com a caracterização do vestuário e atitude dos seus participantes, ao carnaval brasileiro de rua, com seus blocos cariocas e trios elétricos baianos. Eles poderiam ter comparado os mega cultos pentecostais com as convenções da Amway, que daria na mesma. Importante é que se entenda que, o sincretismo, seja de que espécie for, é uma forma de impor um pensamento econômico ao crente. A diferença é que o catolicismo é tolerante acerca das manifestações, desde que não se confrontem seus princípios e dogmas; o pentecostalismo, ao contrário, absorve os ritos, trazendo-os para dentro dos cultos, ao mesmo tempo em que não se toleram desvios de manifestação.

O pentecostalismo tornou-se palatável aos praticantes das religiões afro, pois permite que, nos cultos, “baixe o santo”, travestido de discurso em línguas. Assim, não é de estranhar que a Teologia da Prosperidade seja absorvida com facilidade pelos crentes. Com ela, torna-se lícito atribuir, ao miserável, a culpa pela miséria, eximindo a sociedade de qualquer responsabilidade pelo bem-estar social. O resultado é a disseminação da ideia de que uma mão invisível possa resolver todos os problemas econômicos e que, se isso for cumprido à risca, todos sairão mais felizes no final. Se não funcionar, a teoria não será culpada, porém, o Homem, que não seguiu as regras com a fé necessária, ou suficiente. Terá sempre sido a falta de fé que explicará todas as iniquidades, todas as mazelas sociais.

O sucesso do imperialismo estado-unidense faz parecer que essa estátua, por ter sido esculpida na rocha, seja indestrutível. Não se entende que a opção do estado por extinguir a miséria e promover o bem-estar social possa trazer resultados melhores para o modo de produção capitalista. O sucesso da economia chinesa é como a tempestade capaz de derreter os pés de barro do capitalismo ocidental e fazer com que tombe e, mesmo continuando a existir, deixe de ser o ponto mais alto a se enxergar à distância.


[1] Por mais que um leitor possa dizer que o termo “negro” seja politicamente incorreto, foi o usado pelo autor, não cabendo alterar.

[2] Da mesma forma, o autor não usou o termo “escravizado”, devendo-se somente respeitar o original.

[3] MILLER, Donald E.; YAMAMORI, Tetsunao. Global pentecostalism: the new face of Christian social engagement. Berkeley, CA: University of California Press, 2007.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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