8 de junho de 2026

Barroso, o unabomber institucional e a guerra STF x FFAAs, por Luís Nassif

Barroso aproveitou o palanque de um seminário virtual e desancou as FFAAs de forma generalizada. Com isso, fortaleceu o corporativismo cego dos militares

A supina vaidade, somada à falta de discernimento, transformaram o Ministro Luis Roberto Barroso na maior ameaça institucional, uma espécie de unabomber brasileiro.

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Não se trata de um terrorista intencional. O que o move é uma vaidade absurda mesclada a uma desinformação ampla sobre o jogo político, institucional, sobre as estruturas e as idiossincrasias do poder.

Ele trata o jogo político institucional com a mesma superficialidade com que participa de um programa da Globonews, daqueles com perguntas previsíveis gerando respostas previsíveis e suscitando elogios previsíveis.

Foi assim quando usou o palanque da Lava Jato e garantiu a eleição de Bolsonaro ao tirar Lula das eleições e ao abrir espaço para a invasão da política pelas milícias e pelos militares.

Agora, repete o trajeto. Dias atrás, Gilmar Mendes deu uma entrevista substanciosa ao portal UOL. Nela, analisou o risco de golpe, as resistências a aventuras golpistas e tomou uma precaução básica: não generalizou as críticas contra as Forças Armadas.

Imediatamente, Barroso aproveitou o palanque de um seminário virtual e desancou as FFAAs de forma generalizada. Com isso, fortaleceu o corporativismo cego dos militares, levando o Ministro da Defesa, general Paulo Sérgio, a emitir uma nota desnecessariamente agressiva, provavelmente para atender às pressões da tropa.

Até onde irá essa disputa? Um dos principais especialistas do tema militar, o cientista político Manoel Domingos não está tranquilo. Não acredita em quartelada. Mas não vê uma força estruturada, com comando firme capaz de demover a corporação da ideia fixa de que Lula representa o demônio.

O Ministro da Defesa é visto como um militar correto, mas sem nenhuma ascendência sobre a tropa. Não tem a liderança de um general Villas Boas, nem a capacidade de articulação de um Sérgio Etchgoyen. Por outro lado, a brilhante geração de militares empenhada em construir uma tecnologia militar de ponta acabou, não deixando herdeiros. E, sem eles, tem-se uma corporação sem projetos, cujo único objetivo é ganhar espaços no orçamento e nas benesses públicas.

Aliás, uma característica militar permanente é a resistência contra os militares intelectuais, que se destacam em temas tecnológicos. Pai do programa nuclear brasileiro, o Almirante Othon, por sua distinção e por manejar orçamento secreto – essencial para financiar programas daquela natureza – era tratado como corrupto pelos colegas, mesmo antes da Lava Jato entregar sua cabeça para o Departamento de Estado norte-americano. Conta Manuel que o grande Álvaro Alberto, pai do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa) foi acusado de corrupção pelo marechal Juarez Távora.

Essa é a tragédia militar brasileira, uma tropa cujo padrão de inteligência é o general Pazuello, sem focar um minuto sequer na razão de sua existência – um plano de defesa nacional – que luta para aumentar para 2% sua fatia no orçamento, sem um grupo de trabalho sequer para desenvolver uma estratégia de defesa. E temerosa de que a eleição de Lula corte suas asas corporativas.

De 2016 para cá, o Exército perdeu qualquer dimensão pública. Acabaram com a diplomacia da força, que abria canais de influência na África portuguesa e na América Latina. Esvaziaram as parcerias com a China, para os satélites, e com a França, para os submarinos nucleares. E deixaram, como herança, apenas uma submissão humilhante aos Estados Unidos que, à falta de uma indústria nacional de defesa, garante as quinquilharias para o Exército brasileiro.

Se eleito Lula terá que abrir uma discussão ampla sobre um projeto de defesa nacional – a exemplo do Plano Nacional de Defesa, em torno da Amazonia Azul,  desenvolvido na gestão Nelson Jobim e jamais implementado.

É esse o receio dos militares sérios: o de serem desafiados a pensar a vocação constitucional da força.   

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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9 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    26 de abril de 2022 7:45 am

    “É esse o receio dos militares sérios: o de serem desafiados a pensar a vocação constitucional da força. ” MAS… vão ter que enfrentar as toupeiras. Se quiserem ter um mínimo de esperança de recuperar o Brasil das mãos dos Pazuelos e Barrosos da vida. E é pra já. Antes que mergulhemos definitivamente num processo morte a lá dinastia Qing de fins do século XIX.

  2. Marcelo.j ou jotapontomarcelo

    26 de abril de 2022 8:00 am

    Militares precisam de uma MOTIVAÇÃO pra guerra e geralmente não pensam a sociedade como um todo,parecidos com os neoliberais de carteirinha q IMPLORARAM o auxílio na Pandemia ou aquele patrão orgulhoso q bate no peito q subiu na vida por méritos próprios (quem deu condições a ele estruturalmente falando?) e agora faliu,vivemos a fase do COLHER OS FRUTOS e o ESCONDER OS FRUTOS(mídia distorcendo,manipulando,escondendo)a Globo já engoliu seco o Bolso.naro e não tem alternativa,militares tem um poder grande de desestabilização de um País,taí a guerra na Ucr como ex.recente e a nazicificacaao da imprensa mundial contra os russos/putin,outrora fora Lula/PT e Bolso no Brasil,judeus na Alemanha nazista e etc…

  3. dernal santos

    26 de abril de 2022 9:16 am

    Texto bom, bem fundamentado no âmbito nacional. Todavia a extensão desse aparente dilema atravessa fronteiras. Por isso faços algumas indagações:
    1) Nesta nova ordem mundial, como se situam os EUA.
    2) O quanto se incomodam com o alinhamento de Bolsonro com Putin
    3) A franca marcha de Bolsonaro para o nazifascismo será apenas assistida?
    4) Como se movimentam a Inteligencia norteamericana e as FFAA de lá, cujo nivel de influencia nas FFAA daqui já ficou demonstrado em vários momentos da história do Brasil.
    5) Investiram em um Moro e tiveram como resultado um Bolsonaro. Acha que estão satisfeitos com o pessimo resultado dessa experiencia?
    6) Por fim, LULA já demonstrou e comprovou que não pretende abalar as estruturas do Capital e da geopolítica internacional; quer apenas estabelecer normas e procedimentos mais adequados para todos e não só para um lado. Já Bolsonaro, nessa toada, caminha para o nacionalismo no sentido mais nefasto que isso possa significar . Penso que, em nome da preservação do seus “quintal” o Tio Sam faz essa análise com bastante atenção e critério

  4. Eduardo Pereira

    26 de abril de 2022 11:42 am

    A nossa sorte é que o Uruguai nem o Paraguai pensam em declarar guerra ao Brasil. Com essa milicada meia – boca, deformada na AMAN e no ESG , O Brasil não ia resistir 2 dias. No terceiro ja ia pedir arrego e chamar a ONU pra ajudar.

  5. José

    26 de abril de 2022 3:03 pm

    Oi Nassif, concordo com a avaliação sobre a incompetência política de Barroso e os estragos que ele causa à institucionalidade. Mas para além desta constatação fundamental para se pensar o futuro da sociedade (o judiciário e o STF é uma instituição política e não técnica e suas ações/decisões/inações afetam profundamente a organização social, política e econômica do país, exigindo um tratamento muito mais cuidadoso e democrático na escolha e atuação dos seus membros), gostaria de chamar a atenção para o fato de que o mais importante neste momento não é nem avaliar ou concluir sobre a dimensão das pessoas que ocupam as instituições porque infelizmente são elas que temos neste momento e é com elas que teremos que resistir aos avanços autoritários. Indo direto ao ponto: o problema maior não é a fala desastrada de Barroso (cuja dimensão para ocupar tal posto é um problema em si, evidentemente) mas o fato de termos que agir com cuidado e suavidade diante de uma instituição de estado para não melindrar seus membros e correr o risco deles usarem esta instituição contra a democracia. Esta é a loucura desta situação, a atuação corporativa e a sensibilidade exacerbada dos membros das forças armadas ameaçando a democracia ao sabor da avaliação dos seus membros nos tornando reféns das armas e do treinamento que damos a eles para nos defenderem.
    O absurdo da situação é seus membros aceitarem (no mínimo, porque muitos deles apoiam e incentivam) um ator político utilizar sua imagem para ameaçar, chantagear e encurralar as instituições e demais forças políticas que a ele se opõem.
    Claro que parte das FAs participaram ativamente da ascenção de Bolsonaro (Villas Boas sobretudo, mas não apenas) e se associaram ao seu projeto político, inclusive arrastando parte das tropas para o governo. O slogan Brasil acima de tudo é a representação da aliança militar com os evangelicos do Deus acima de todos em torno do bolsonarismo e o mais grave disso é aceitarmos sermos chantageados sob a aparência de separação entre os militares que foram ao governo supostamente por decisão e vontade individual daqueles que permaneceram nos quartéis separados da política. Sob este disfarce Bolsonaro usa as FAs como arma para ameaçar quem se opõem ao seu projeto porque o silêncio dos quartéis não demarca uma linha clara separando a instituição FAs daqueles membros que aderiram ao bolsonarismo. E é este silêncio de conveniência que faz com que Bolsonaro use a imagem das FAs como escudo e sustentáculo do seu projeto. Toda vez que esta utilização indevida de uma instituição de estado para fins políticos por Bolsonaro é acusada a reação dos quartéis é desproporcionada e bastante vigorosa, tentando impor pelo grito (ou pela força) a idéia de que de fato há uma separação entre eles.
    Por isso acho que o mais importante é exigirmos insistemente e com bastante contundência que as FAs se posicionem claramente como instituições de estado neutra toda vez que forem usadas por Bolsonaro e seus generais e não aceitarmos de forma alguma que reajam melindradamente quando criticadas como fazem agora, pois se existe alguma desconfiança pela sociedade é culpa dos seus próprios membros que, individualmente ou não, utilizaram sua imagem para atuar politicamente acabando por expor esta mesma imagem à vidraça pública e sobretudo aos seus comandantes que se calam diante desta utilização (inclusive para ameaçar a democracia).
    Barroso vacilou mas no fundo ele tem razão: Em hipótese alguma as instituições de estado FAs podem ser utilizadas para desacreditar o processo eleitoral como forma de virar a mesa caso o candidato que se associou a parte dos seus membros saia derrotado do pleito. Isso é inadimissivel e não podemos aceitar esta reação desporpocional. Se existe a desconfiança da sociedade que tratem de descontruir está desconfiança com demonstrações claras e sólidas e tratem isso com quem manchou sua imagem e não com quem aponta a mancha.

  6. CARLOS EUGENIO LISBOA DA COSTA

    26 de abril de 2022 5:05 pm

    Barroso , provoca tumulto sem necessidade pois o País já tem muitos problemas provocados por Bolsonaro., aí fica cada dia mais difícil ter eleições

  7. Helio

    27 de abril de 2022 7:27 am

    Pare e que o Brasil é o céu de brigadeiro: não tem inflação, não tem desemprego, não tem fila do osso, combustível de graça…

  8. jossimar

    27 de abril de 2022 8:31 am

    Se as forças armadas estão desmoralizadas e se mostraram um covil de idiotas mamateiros, não é culpa do Barroso.
    Se estes vermes trabalham desde sempre contra o Brasil e os Brasileiros não é culpa do Barroso.
    Eles mesmo se encarregaram de se auto desmoralizar.
    E fazem isso a séculos.

  9. sergio a b

    27 de abril de 2022 4:36 pm

    o rio centro continua sempre presente quando penso neles/
    não consigo enxergar mais nada desde 1981.

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