4 de junho de 2026

Estar “ótima” e “super legal” aos 58 anos é novo para o povo brasileiro, por Carolina Maria Ruy

Hoje você não precisa ser tão rica e famosa para conseguir se manter em forma ao longo das idades.
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Estar “ótima” e “super legal” aos 58 anos é novo para o povo brasileiro

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por Carolina Maria Ruy

A atriz Andréa Beltrão, em seu instagram, passou um sermão no povo que se admira que uma mulher de 50, 60 pode ser bela, ativa a jovial. Ela disse que:

“’Nossa, Andréa, você tem 58 anos, mas está ótima’. Quando eu escuto isso eu sorrio, agradeço até, não perco muito tempo. Mas o que esse ‘mas’ quer dizer? Que por ter 58 anos eu deveria estar péssima? Parece que sim. Se você é mulher e já passou dos 35/40 anos, você já deve ter ouvido isso na sua vida várias vezes. Talvez você já tenha dito isso para outra mulher. É uma questão cultural. Só que esse ‘mas’ carrega um preconceito gigante com a idade mesmo que a intenção seja boa. Eu tenho 58 anos e eu estou ótima. Eu tenho 58 anos e estou cheia de energia. Eu tenho 58 anos e me sinto maravilhosa. Eu tenho 58 anos e estou super legal. Sem nenhum ‘mas’.”

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn

Não é a primeira vez que vejo reclamações desse tipo. Mas, e aqui eu vou usar o “mas” que a atriz repudia, penso que a reclamação, embora pareça progressista e feminista, esconde preconceitos e divisões de classe.

Isso porque é natural que o povo se admire com mulheres (em quantidade cada vez maior) que se mantenham bonitas e joviais, independentemente da idade. Patrícia Pillar, Alessandra Negrini, Paula Toller, Jennifer Lopez e a própria Andréa Beltrão são exemplos. Esse é um fenômeno novo.

Hoje você não precisa ser tão rica e famosa para conseguir se manter em forma ao longo das idades. São muito mais abundantes os recursos, desde informações, passando pela oferta de cosméticos, até a medicina. Nos anos de 1970 era outra coisa. Antes então, nem se fala.

A realidade das minhas avós que nasceram em 1929 e 1930 era de uma juventude em um meio predominante rural, muitos filhos, muita religião, pouco estudo, pouco dinheiro. Era a realidade da imensa maioria das mulheres e homens que cresceram e se desenvolveram ao lado das transformações do século 20. Os filhos das nossas avós já viveram em um mundo radicalmente transformado, com uma indústria do consumo crescentemente consolidada e acessível, embora aquela situação ainda seja a de grande parte dos brasileiros.

É no exemplo de mulheres sofridas como nossas avós das décadas de 1920, 30 e 40, (e de muitas de hoje), que o povo se mira quando se encanta quando vê uma mulher chegar aos 60 indiscutivelmente bela, jovem e no auge profissional. Com o tempo esse fenômeno deverá ser assimilado pelo senso comum, como já é normal uma mulher (ou homem) de 30 ser considerada jovem. Há 30 anos não era.

A memória do nosso passado rural ainda é muito presente. Ela está encarnada em nossos ancestrais diretos e no nosso convívio familiar e cotidiano. Neste sentido, acho importante valorizar os avanços sociais que nos permitem viver em plena forma durante mais tempo. “Mas” é preciso entender em que contexto esses avanços se dão e, mais do que isso, compreender que se a maioria ainda se espanta com isso, esta reação está enraizada em suas próprias experiências. Experiências que no conjunto fazem a nossa história.

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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3 Comentários
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  1. Rita de Cassia Vianna Gava

    30 de maio de 2022 10:28 am

    Isso Carolina é a nova mulher conquista de direitos é evolução da ciência.

  2. Walter Regis

    30 de maio de 2022 12:05 pm

    O “mas” contém a experiência da maioria, essa maioria não apresenta os sinais de uma vida boa após os 50 anos, Isso é um fato! As exceções não são a regra.

  3. AMBAR

    2 de junho de 2022 4:37 pm

    O tempo passa para todos. A maneira como a gente o recebe é que vai fazer a diferença.

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