Viés da Ação e Viés da Omissão
por Fernando Nogueira da Costa
Há, na atual equipe econômica, dois típicos Vieses Heurísticos ou irracionalidades.
A diretoria do Banco Central do Brasil pratica o Viés da Ação, ou seja, torna-se ativa mesmo quando de nada adianta. Age como os homo sapiens, no início da evolução humana, quando a atividade compensava face à reflexão. A prudência na espera (ou inação) não valeria nenhum reconhecimento público.
Já a equipe do Ministério da Economia só é notável pelo Viés da Omissão. Como tanto uma omissão quanto uma ação, pensa o prócer dela, não evitaria o retrocesso econômico nacional, de acordo com sua ideologia, ele opta pela omissão.
Para os adeptos do Estado mínimo parece ser mais inofensivo. Um dos mantras ilusionistas do ministro da Economia, cujo único (e irônico) sucesso pode ser medido pelo número de executivos de banquetas e empresas repetindo um lugar-comum: “seu mérito não está naquilo feito, mas sim naquilo deixado de ser malfeito pelo Estado”.
Alimentando esta ilusão neoliberal, o ministro da Economia busca seu apoio entre os idiotas, aqueles sem desconfiar do mal, feito a si e aos outros. Desafia quem duvidava de sua coabitação com o oportunismo das “pedaladas fiscais” eleitoreiras…
O rendimento médio mensal domiciliar por pessoa caiu 6,9% em 2021, pois passou de R$ 1.454 em 2020 para R$ 1.353. Este é o menor valor da série histórica, iniciada pelo IBGE em 2012, da PNAD Contínua: Rendimento de todas as fontes 2021.
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Com isso, a massa do rendimento mensal real domiciliar per capita caiu 6,2% ante 2020, chegando a R$ 287,7 bilhões em 2021, seu segundo menor valor, desde 2012 (R$ 279,9 bilhões). O percentual de pessoas com algum rendimento, de qualquer tipo, na população do país também caiu: de 61% para 59,8%.
O ramo dos empresários representa 3% da população e as pessoas com renda familiar superior a dez salários são 2% na Pesquisa Amostral do Datafolha. O atual presidente, segundo o Datafolha, supera Lula apenas entre quem tem renda superior a dez salários-mínimos (42% a 31%) e entre os empresários (42% a 31%).
Estes 42% têm uma visão curto-prazista ou voltada apenas para o mercado externo. Não compreendem o menor custo com trabalhadores representar menor massa salarial para demandar seus produtos no mercado interno.
No balanço de 324 grandes empresas não-financeiras (sem Petrobras, Vale e Suzano), no 1º trimestre de 2022 em relação ao mesmo período do ano anterior, a receita líquida operacional cresceu 35%, o lucro bruto 38%, o lucro líquido 55% e o ROE (rentabilidade patrimonial) cresceu de 13,25% para 20,59%, ou seja, 7,33 pontos percentuais. Embora a receita financeira tenha elevado 64% com a elevação dos juros recebidos e a despesa financeira tanha aumentado menos (12%), esta ainda supera a receita financeira. O resultado financeiro negativo caiu em quase 28%, mas ainda subsiste.
O fato é a fase de desalavancagem financeira ainda não foi ultrapassada. A dívida bruta dessas grandes empresas não-financeiras cresceu nesse período de R$ 1,125 trilhão para R$ 1,212 trilhão, quase 17%. A dívida líquida cresceu 25% e atingiu R$ 830 bilhões.
Na verdade, desde a volta da Velha Matriz Neoliberal, os governos brasileiros praticam uma má política econômica. Antes, na fase de bolha ou alavancagem financeira excessiva, com juros baixos demais, foi permissiva com novos investimentos financiados por dívida em apostas na tendência de alta dos preços das commodities perdurar ou no programa de investimento em infraestrutura se sustentar.
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Mesmo depois de estourar a bolha, o Banco Central do Brasil continuou a apertar a política monetária. Foi lento em cortar taxa de juro e forneceu liquidez limitada. O ministério da Economia adotou austeridade fiscal. Pelos juros disparatados, as instituições financeiras sistemicamente importantes não foram danificadas.
Na fase de desalavancagem financeira, as monetizações iniciais vacilaram e o estímulo da política monetária foi prejudicado, dada a obsessão por ajuste fiscal. A “depressão inflacionária feia” não surgiu no Brasil, tal como ocorreu na Argentina com a dolarização, porque os formuladores de políticas de juros e câmbio não permitiram a confiança na moeda nacional entrar em colapso ao evitarem pagar taxa de juro real muito negativo nos investimentos.
Afinal, em 2019, o Brasil tinha relativamente o segundo maior crédito bancário concedido ao governo, via títulos de dívida pública carregados em tesourarias (29% do total) e administração de recursos de terceiros (24% do total), equivalente a 52% do PIB. Em primeiro lugar, estava o Catar (72%), quarto o Japão (46%) e nono a China (32%). Isso, de certa forma, explica a higidez e a resiliência do sistema bancário brasileiro.
O modo do governo se financiar por lançamento de títulos da dívida pública afeta a distribuição mercantil dos gastos. Há implicações para a estrutura de preços relativos. No Brasil, as aquisições de títulos de dívida pública em open market têm seu principal efeito sobre o custo de emissão de novos títulos, seja de dívida pública, seja de dívida privada (debêntures), e de propriedade (ações).
Os juros muito elevados desestimulam novas alavancagens financeiras. As maiores despesas financeiras não elevam a rentabilidade patrimonial com o uso de recursos de terceiros e o consequente aumento da escala de produção. Ao contrário, no lado passivo, agravam o grau de fragilidade financeira se elas superam os retornos.
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Se o déficit fiscal no Brasil fosse dirigido principalmente para as rendas dos assalariados ou a assistência social, o crescimento na demanda seria percebido, inicialmente, na indústria de bens de consumo. Como predominam operações de open market, varia o custo do endividamento, isto é, da composição passiva, e o investimento é abatido.
Frente às diversas expectativas das firmas diferentes em porte, capitalização e liquidez, as reações delas podem se dar via variações ou nas quantidades retidas ou nos preços. O sistema bancário pode acomodar demandas por crédito para capital de giro inflacionárias por empresas manter os preços elevados das mercadorias em estoque.
A expansão monetária relacionada ao sistema bancário não é a causa da inflação, como propõem os monetaristas, mas a oferta de moeda endógena é condição permissiva, quando sanciona os aumentos dos preços das mercadorias fixados pelos oligopolistas. Constituem o motor da inflação.
A alta dos preços deve ser considerada como a causa e o crescimento da oferta de moeda como seu efeito. O mark-up desejado ex-ante só é efetivado se o vendedor encontra algum comprador com dinheiro, disposto a adquirir o bem ao preço oferecido. É necessário a validação monetária para as dispersões relativas de preços, decididos por oligopólios, se efetivarem nominalmente ex-post.
Cartões de crédito de crédito não possibilitam a inelasticidade-preço, adiando o problema do ajustamento? Uma pesquisa do Serasa de 18 a 20 de abril de 2022, para entender os hábitos dos consumidores em relação ao uso de cartões de crédito, mostrou 70% dos endividados com eles os usaram para comprar comida no supermercado. A maioria ficou inadimplente com “o nome sujo” para garantir sobrevivência no dia a dia.
Educação Financeira ensina a ter apenas um cartão de crédito. Quase metade (47%) dos consumidores brasileiros tem quatro (18%), cinco ou mais (29%).
Na realidade, a primeira etapa do mecanismo da transmissão da política de juros começou a sofrer questionamentos. As manipulações na taxa básica de juros não mais apresentam os desejados efeitos sobre os movimentos das bolsas, do câmbio, dos juros de mercado, tanto dos produtos financeiros para captação, quanto dos empréstimos, após colocação de um spread.
As Autoridades Monetárias passaram a encontrar maiores dificuldades para controlar o ritmo da atividade econômica via demanda agregada. Consequentemente, se tornaram bastante inoperantes frente à inflação por quebra de oferta. Em determinadas condições financeiras, os formadores de preços, capitalizados e líquidos no mercado financeiro, conseguem sustentar as elevações de preços das mercadorias em estoques.
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As condições financeiras exercem grande influência sobre o setor real da economia e não devem ser tratadas como algo à parte. O problema passou a ser atingir as condições financeiras por meio da manipulação do juro básico de política monetária sem essa contradição: eleva a fragilidade financeira das endividadas, mas eleva a resistência das capitalizadas e líquidas em fazer promoções e/ou liquidações com preços mais baixos.
A principal explicação para isso talvez seja a intensificação do processo de integração produtiva-comercial da economia brasileira na globalização financeira. Esse fenômeno teria feito tanto os preços de ativos financeiros quanto os de produtos importados passarem a ser afetados por eventos externos, inteiramente fora do controle da Autoridade Monetária local. Ficou inoperante frente à inflação importada, resultante da forte elevação dos preços de commodities, em especial do petróleo (combustível), reconhecidamente a principal contribuição para o desvio da inflação em relação à meta.
Também contribuíram a inércia do ano anterior, as bandeiras de energia elétrica e demais fatores em boa parte relacionados com os desequilíbrios entre demanda e oferta nas cadeias produtivas globais. Em sentido contrário, atuou de maneira insuficiente o hiato do produto, ou seja, restou apenas como política econômica o recorrente recurso à recessão socialmente perversa com o desemprego e as rendas do trabalho.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP.
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José Carvalho
13 de junho de 2022 8:22 pmPara os setores endinheirados da sociedade brasileira essa política de enquadrar a inflação dentro das metas pre-estabelecidas, com o sobe e desce dos juros, foi encontrado formas de se proteger e ganhar lucro. A abertura da economia e a inserção do País na globalização, sem o acompanhamento de medidas que produzissem o aumento da produtividade e competitividade internas, provocou uma transferência de patrimônio para empresas estrangeiras e o consequente aumento da participação importada na produção do País. Isso só foi crescendo mesmo com as mudanças cambiais. Manter a propriedade das empresas deixou de ser a melhor opção, e muitos negociaram suas empresas e viraram rentistas. A financeirização através dos vários tipos de fundos, atraiu investimentos e tornou cada vez mais atrativas essas aplicações em detrimento do investimento produtivo. Somente investimentos com elevado retorno, como alguns de infraestrutura ofereceram prêmios razoáveis diante dos ativos financeiros. A indústria ficou pra trás, justamente por falta de atratividade e jogou várias outras coisas ladeira abaixo no que se relaciona ao desenvolvimento e ao crescimento do Brasil. Política monetária num cenário de abandono dos fatores internos de composição da economia, passou a ser apenas domar o touro da inflação em relação às metas, subindo e baixando os juros, não importando o tempo de ocorrer algum resultado de queda na inflação. Sem maiores compromissos de progresso social ou econômico, o que importa mesmo é fazer média em relação à inflação e deixar o barco seguir em frente.