5 de junho de 2026

Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação: Uma Visão Crítica

P&D&I: Uma visão Crítica. O Olhar dos Profissionais Bolsistas

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ANTECEDENTES

Ciência, Tecnologia e Inovação é o pilar do desenvolvimento de qualquer país rumo à riqueza. Ela se apropria da inteligência das pessoas para inventar, engenheirar, construir.

“No mundo globalizado, não basta ser eficaz, tem que se ser eficiente. Além do mais, os setores tecnológicos nascentes ou incipientes deveriam ser protegidos até o seu amadurecimento. Proteger esse tipo de indústria, como faz outros países, é dever do Estado. E isso tem como consequência um salto tecnológico e econômico, a exemplo da China e da Coréia do Sul. Rumo à riqueza para os seus Povos….”

Nos últimos anos se tem falado muito em “desindustrialização do Brasil”, especialmente o empresariado nacional e setores políticos. Na verdade, eu acho que o que deve ser feito são ajustes na política econômica e definida uma política de retomada do desenvolvimento industrial à médio / longo prazos. Ser incentivada a indústria de conteúdo nacional, isso atrelado a uma agressiva política de investimentos e formação de pessoal especializado em C&T&I. Outro fator também a considerar tem a ver com o que disse o ex-presidente Lula: “..Nós não podemos pagar pela ineficiência e pelo ajuste fiscal de países como os EUA”. No entanto, temos que fazer também a nossa parte. O binômio industrialização / desindustrialização acontece em qualquer lugar do mundo. Invariavelmente, dependendo da conjuntura, os menos eficientes cedem lugar aos mais eficientes. Na nossa visão, o que o País necessita, de fato, em todos os setores, e no industrial em particular, é de choque de gestão, de eficiência, de competência empresarial, mas também de incentivos, como a redução da carga tributária, a facilitação na abertura de novos negócios, mais créditos voltados ao investimento em modernização, melhoria substancial de infra-estrutura, desde rodoviária até portuária, dentre outras, para produzir produtos cada vez mais competitivos, com maior conteúdo tecnológico “Made in Brazil“, de menores custos, independentemente do cenário interno de impostos em “cascata” e nas alturas e da variável “risco cambial”.

As obras do Porto de Muriel em Cuba é um bom exemplo dessa transformação positiva. Ela é estratégica e um acerto geo-politico-econômico formidável dos Governos Lula e Dilma, pois vem permitindo não somente a significativa ampliação do comércio bilateral entre Brasil e Cuba, mas se constitui em um entreposto exportador privilegiado em termos de custos de transporte, tanto para os países do Pacífico via Canal do Panamá, quanto para a Europa e para os Estados Unidos, ainda mais agora, com o fim do embargo econômico à Cuba.

“A obra, uma parceria da brasileira Odebrecht com a Cubana Quality custou 957 milhões de dólares, sendo 682 milhões de dólares financiados pelo BNDES. Em contrapartida, 802 milhões de dólares investidos foram gastos no Brasil, na compra de bens e serviços, comprovadamente brasileiros. Pelos cálculos da Odebrecht, este valor gerou 156 mil empregos diretos e indiretos no País.” Além do mais, Empresas Globais como  a Vale praticam essa estratégia. Para vender minério de ferro à preços competitivos como os da Rio Tinto – Austrália-  quase “ao lado” da China, a Vale tem entrepostos na Indochina, que fazem exatamente o mesmo papel de Muriel. Se é um bom negócio para a Vale, por que seria uma erro para o Brasil? Só os ignorantes ou os mal informados tem esse olhar.

professor Weber Figueiredo disse há muito tempo atrás, mas que continua mais atual do que nunca:

“No comércio mundial de mercadorias. Em média: 1 kg de soja custa US$ 0.10 (dez centavos de dólar), 1 kg de automóvel custa US$ 10.00 isto é, 100 vezes mais, 1 kg de aparelho eletrônico custa US$ 100.00, 1 kg de avião custa US$ 1,000.00 (10 mil quilos de soja) e 1 kg de satélite custa US$ 50,000.00. Vejam, quanto mais tecnologia agregada tem um produto maior é o seu preço, mais empregos são gerados na sua fabricação.”

Em resumo,  nós não vamos dar um salto rumo à riqueza vendendo somente soja, café, boi e minério de ferro, que geram poucos e péssimos empregos aqui. Quem deu esse “salto rumo à riqueza”, como a Coréia do Sul, apostou alto em educação das “massas” e no desenvolvimento da tecnologia.

Uma forte industrialização de valor agregado, um forte agronegócio, aliado a uma robusta política de agricultura de base familiar são fundamentais para sairmos do marasmo de crescimento pífio ou sazonal, em função da conjuntura internacional, mais ou menos favorável.

renda per capita do Brasil em 2013 foi de US$ 10,328.00A título comparativo a renda per capita da Coréia do Sul em 2010 era de US$ 19 mil. Há meio século, a renda per capita sul coreana era de US$ 80.00. Como comparação, a vizinha Coréia do Norte, um dos regimes mais fechados do mundo, mas com as mesmas raízes históricas e identidade do povo coreano do sul, tinha renda per capita (2010) de US$ 1,800.00, dez vezes menor que a Coréia do Sul. Para o  Brasil, as projeções dos especialistas apontam que somente em 2020 a renda per capita deve atingir o patamar de US$ 22,7 mil, similar à da Coréia do Sul em 2010. É claro que devemos considerar as especificidades de cada País. O Brasil tem um tamanho continental, com mais de 8.500.000 Km2 a desenvolver. Com uma diversidade imensa de biomas,  diferentes culturas e desequilíbrios dos níveis de desenvolvimento  regionaisque são um deafio para qualquer governo. Além do mais, na moderna economia, esses defafios devem ser vencidos com respeito ao meio ambiente e em bases sustentáveis e preservacionistas. A Coréia do Sul tem uma área de 99.729 Km2 e uma população de um pouco mais de 50 milhões – mas também ela é pobre em recursos minerais e em terras agriculturáveis – com renda per capita atual de US$ 35,485.00. Um salto de 1,87 X em relação a 2010. É possível mudar esse cenário em nosso País? Sim. É possível mudar esse cenário. Basta se planejar e implementar políticas não sazonais de governo, políticas consistentes de Estado, de longo prazo. O olhar social, atrelado ao desenvolvimento econômico é fundamental. O Neodesenvolvimentismo, quando bem exercitado, pode perfeitamente responder a esse desafio. 

A propalada abertura dos mercados não foi e não é  nada benéfica para nós. Desde bugingangas de quase nenhum valor agregado, passando por eletrônicos diversos, gadgets cobiçados a até maquinário pesado, tudo entra aqui e solapa a base econômica e competitiva de nossa indústria. Aborta o desenvolvimento autônomo e soberano do País. Torna-nos reféns dos países centrais. Dependentes. Portanto é imperativo, se quisermos mudar esse cenário à médio / longo prazos, investir maciçamente em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D&I) e criar uma política objetiva, concreta de estímulos para que esse conhecimento seja apropriado pela indústria e demais setores econômicos e vire produtos de valor agregado para a Sociedade. Isso não se faz do dia para a noite. São anos e anos formando equipes altamente especializadas nos Institutos de pesquisa governamentais e privados e nas universidades, atuando de forma conjunta em parcerias tanto internas quanto externas. Quanto mais parceriais melhor. Maior será o valor agregado.

Embora pareça que C&T&I é a saída para o Brasil dar o seu salto. A coisa não é bem assim…A carreira de pesquisador e de tecnologista é muito pouco valorada. Ela não é uma Carreira de Estado, seja de natureza civil ou militar. Mas por que ela não é uma Carreira de Estado? Por definição as Carreiras Típicas de Estado são aquelas que exercem atribuições relacionadas à expressão do Poder Estatal, não possuindo, portanto, correspondência no setor privado. Integram o núcleo estratégico do Estado, requerendo, por isso, maior capacitação e responsabilidade. Estão previstas no artigo 247 da Constituição Federal e no artigo 4º, inciso III, da Lei nº 11.079, de 2004. Portanto, Ciência, Tecnologia e Inovação não integram o núcleo estratégico do Estado, isto é, são periféricas, e seus  servidores e funcionários podem carecer de maior capacitação e responsabilidade. O que é uma antítese, uma vez que para se ingressar, via concurso público, nos Institutos de Pesquisa e nas Universidades, usualmente, a exigência mínima ou é mestrado ou doutorado. Quanto às responsabilidades, nem dá para comentar tal a crueza e inconsistência da expressão empregada.

O poder negocial da categoria  de ciência e tecnologia é pequeno. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) é de pouca expressão no cenário político. Os recursos destinados aos seus Institutos de pesquisa são exíguos e continuadamente contingenciados. Isso faz com que se busque compensar tal deficiência orçamentária à qualquer custo em busca da sobrevivência. A relevância dos projetos captados pelas Instituições nem sempre é bem avaliada e atrelada às macro estratégias de desenvolvimento industrial. O que importa é captar recursos. A qualidade da “entrega” para a Sociedade nem sempre é priorizada. Um bom sinal de mudança desse cenário e uma honrosa exceção foi a concepção e criação da EMBRAPII. Nos moldes das OS ela tem um bom montante de recursos financeiros disponibilizados pelo Governo voltado à promoção da aproximação entre a tecnologia gerada nos Institutos e Universidades, que muitas vezes viram peças de prateleira, e a demanda real do Empresariado. O Projeto Piloto EMBRAPII envolveu 3 Instituições: IPTINT e SENAI/BAHIA. Agora, com a sua consolidação, vários outros atores institucionais foram credenciados. Espera-se uma acirrada disputa pelos recursos EMBRAPII nos próximos anos. As Instituições menores, com menor penetração política, com menor poder de barganha, com menor capacidade de rápida “entrega”, articulação e de menor poder negociador, menos ágeis, certamente sairão perdendo. Mas é um caminho promissor visando diminuir o fosso tenológico existente entre os países centrais e os periféricos. Nós temos que “saltar essa cerca“.

Quanto à valoração pessoal do pesquisador /  tecnologista isso fica em enésimo plano. Os salários faz anos estão deplecionados. Os Institutos do MCTI nada podem fazer para corrigir essa situação. Estão atrelados às diretrizes orçamentárias do MCTI. Mas o por quê disso? O por quê um juiz adjunto, que somente fez um curso de direito, um concurso público e uma especialização que o habilite à prática do exercício, percebe de subsídeos ao entrar na carreira, como iniciante, perto de R$ 24.000,00, enquanto um Engenheiro, Mestre em Ciências, Doutor em Ciências, no fim da carreira, sênior, nem sonha em chegar a  esse patamar  de remuneração?  Então, de fato há Cidadãos e cidadãos, embora a Constituição Federal reze o contrário. O Executivo é um péssimo patrão. A carreira não é valorada. Ela serve muito bem aos holofotes, mas não se traduz em Política de Estado de fato. Some-se a isso à falta de re-estruturação da Carreira de Ciência e Tecnologia. Por mérito, um doutor ascende ao último nível da carreira por dedicação, vontade de colaborar e por um grande esforço próprio. Não se fazendo nada, ou melhor, o básico, chega-se ao mesmo nível salarial base. Basta esperar o tempo passar e as “letras salariais saírem”, caírem no colo ano após ano, independente da constribuição real que se tenha dado, mas de acordo com a lei. Mas e a valoração dos mais graduados por mérito, por desempenho?  Que fizeram Mestrado e/ou Doutorado? A carreira está subvertida. Onde está a justiça nisso? Onde está o estímulo à produtividade e à eficiência? Não há. O que há é a determinação  do cumprimento do papel social do pesquisador / tecnologista, servidor ou empregado, em fazer e acontecer. Do “vestir a camisa” em prol da Instituição, da inovação tecnológica e do desenvolvimento do País. Esse cenário pessimista se repete em outras áreas. Nas forças armadas, em especial na Marinha, que treina um jovem de 16-17 anos às expensas do Estado no Colégio Naval durante 3 anos, custeando tudo e até lhe dando um pequeno subsídio mensal, hoje por volta de um salário mínimo, depois lhe manda por mais 4 anos para a Escola Naval, também custeando tudo, lhe dando também uma subsídio mensal de mais de R$ 1.000,00 e, mais tarde, vê esse jovem cair na realidade dos baixos salários enquanto oficial. Um segundo tenente tem vencimento girando entre R$ 5.500,00 e R$ 6.000,00. Resultado. Esse jovem, que custou uma pequena fortuna ao País, de forma socializada, faz um concurso público para Fiscal de Renda, onde vai trabalhar de 2 a 3 vezes por semana em regime de 24 horas, ganhando de início mais de R$ 14.000,00. Passa e sai. Não há como segurar. A evasão é enorme.

Outro fator sem qualquer olhar é a contínua queda do quantitativo de pessoal altamente especializado em função das aposentadorias ou cooptados pelo mercado, como no caso da FIOCRUZ e outros. Saem os mais experientes, capacitados, levando consigo toda uma bagagem, conhecimentos fundamentais à continuidade dos esforços em gerar tecnologia e inovação. Entram poucos para absorver esse conhecimento. Quase nenhum. A carência é gritante. Exige-se cada vez mais resultados dos Institutos de Pesquisa e das Universidades. Uma função ascendente com o tempo. Mas, em contra partida, nesse mesmo período, há um contínuo declínio do quantitativo humano. Isso é um fato. Uma triste verdade. Essa equação não fecha. Não há um círculo virtuoso. Na verdade, há um círculo vicioso. As especialidades, o conhecimento acumulado, se não são transferidos para algum negócio privado pós-instituto de pesquisa /universidades, se perde, se vai com o aposentado. Perde valor. Vira pó. Mas quem de fato perde? A nação. O povo.

Esse “rombo humano” da força de trabalho ao invés de se oxigenar via a promoção de  novos concursos públicos, visando o preenchimento das vagas vacantes, não acontece. O “rombo” é tapado com “Bolsistas“.

Por definição, um “Bolsista” é um estudante que recebe uma bolsa de estudos. Em poucos casos essa definição se enquadra nos casos reais dos Institutos de P&D&I do MCTI. Nelas, o “Bolsista“, que daqui para frente, justamente, vamos nomear de “Profissionais Bolsistas” são força de trabalho. A imensa maioria já é graduada, com experiência, em muitos casos, com mestrado, doutorado e até pós doutorado.

Nas empresas de boa gestão, o recém graduado, o Trainee, é treinado e capacitado para ocupar posições de liderança. A empresa não vai ter custos em formar, treinar pessoal, senão planejar contratá-los, pelo menos os mais aptos e capazes. Nos Institutos de P&D&I do MCTI e nas Universidades, atrelados à projetos, esses profissionais são mero “tapa buracos“. São treinados, especializados e a maioria, depois de um tempo, vai embora. Pura perda de tempo, de recursos econômicos, de competências. Além da intrínseca injustiça embutida nesse modelo.

No dia 11/02/2015, ouvindo “A Voz do Brasil” – quem ouve o programa? – em uma das chamadas voltadas às ações do Executivo era dito que o Governo Federal vai punir com mais rigor em 2015 o empreendedor que sonegar FGTS e não assinar a carteira de trabalho. A meta é reduzir em 200.000 o número de postos informais de trabalho. Essa é uma medida acertada, justa, pois o cidadão trabalhando com carteira assinada tem uma série  de direitos previdenciários garantidos. Mas por que o Governo não começa se olhando no espelho? Para si próprio? A questão dos bolsistas é um exemplo clássico. O patrão, no caso, mau patrão, é o Governo.

Nós enaltecemos a criação da EMBRAPII. Ela tem seu estatuto com base nas OS. Essas organizações são muito ágeis e tem um grande grau de liberdade em agir tendo por pano de fundo os vários aparatos e entraves legais do País. Se esse modelo é exercitado em um governo petista, mesmo sendo fruto do neocapitalismo, por que não se criar uma OS para gerir a questão da contratação via carteira assinada e demais direitos trabalhistas dos Profissionais Bolsistas a serem alocados nos Institutos de Pesquisa e Universidades? Onde estão os Planejadores do Estado para priorizar e equacionar essa questão? Fica a sugestão...

Eu sou um tecnologista de uma quase centenária Instituição de P&D&I do MCTI. Minha área de atuação são os materiais cerâmicos avançados, óxidos e covalentes, aproveitamento de resíduos e desenvolvimento de membranas nanoestruturadas. Tenho  29 anos de instituição e quase 10 anos de trabalho em uma Estatal de Energia. Sou engenheiro, fiz mestrado no IME e doutorado no IPEN/USP. Tudo às custas da Sociedade. Nessa longa caminhada como engenheiro e pesquisador-tecnologista me deparei com inúmeros Profissionais Bolsistas. Profissionais que se graduaram, fizeram mestrado e/ou doutorado e trabalharam / trabalham arduamente nas instituições de P&D&I. A maioria não conseguiu prosseguir na carreira. Se foi. Poucos se fixaram. Uma perda de talentos, de jovens talentos para a Sociedade.

PROFISSIONAIS BOLSISTAS  – UM CASE

“…Na visão das pessoas bolsista não passa de um mero estagiário. Ninguém leva à serio um bolsista, parece que não somos profissionais, eu tenho vergonha, não falo pra ninguém que sou bolsista.” (Desabafo de um Profissional Bolsista)

Nessa parte desse artigo vamos nos focar nos Profissionais Bolsistas. E o por quê disso? Porque visa mostrar o outro lado da moeda. Nós queremos mostrar a perspectiva dos Profissionais Bolsistas, de como eles se sentem sem segurança trabalhista, sem segurança se seus projetos de pesquisa serão ou não renovados, com tempo limite de permanência, se são do quadro PCI, suas angústias, suas condições de trabalho, como são tratados. Se são ou não valorados. Nós queremos confrontar isso com os gastos e as políticas governamentais para o setor, que geram um contingente cada vez maior de, especialmente, mestres e doutores, e não lhes dão oportunidade, em número suficiente de vagas, para ingressarem, via concurso público, nos  Institutos / Universidades dos Governos (federal e estadual) ou em Institutos de Pesquisa Privados, mesmo que através  de mecanismos, por exemplo, de renúncia fiscal, para fixar esse pessoal altamente especializado, com carteira assinada e garantias trabalhistas. O que poderia modificar os rumos do Brasil em direção à autonomia  tecnológica e à riqueza de seu povo. Ainda tão sofrido. Ainda mais agora com o Programa Ciência Sem Fronteiras, que se propõe a formar um exército de profissionais especializados no exterior, mas que tem poucas empresas prontas para recebê-los quando de volta ao Brasil.

A dimensão do Ciência sem Fronteiras é impressionante. No auge do Programa ele deve envolver 101.000 estudantes. É um número formidável. Mas isso tem um preço. Um aluno em graduação sanduíche, que se fixe por um ano em uma universidade européia, irá custar aos cofres públicos, à preços de 13/02/2015 (1US$= R$ 2,8385), respectivamente, por baixo:

Salário (bolsa)/ano: R$ 40.194,15

Adicional de Localidade/ano: R$ 18.734,04

Seguro Saúde/ano: R$ 4.172,60

Auxílio deslocamento: R$ 3.766,50

Auxílio Instalação/ano: R$5.095,11

Auxílio material didático/ano: R$ 3,860,36:

Isso dá um total, por aluno / ano, de R$ 75.822,76. Para os 101.000 alunos, no caso limite, ter-se-á gasto R$ 7.658 bilhões. Olhando pelo lado positivo, se todo esse quantitativo de inteligências altamente especializadas retornarem ao País, se fixarem nos vários setores da economia, de forma contributiva, terá havido não um gasto, mas um investimento. Mas se regressarem sem ou quase nenhuma perspectiva, o esforço será em vão. O passivo ficará com a Sociedade.

A Figura abaixo do Site do Ciência Sem Fronteiras mostra o conjunto de empresas dispostas a receber esse pessoal no momento. Prometem-se bolsas, estágios, e não contratação com carteira assinada. Uma fraqueza flagrante do Programa. Mesmo assim, o número ofertado ainda é exíguo. Isso, a nosso ver deve ser equacionado e resolvido. Estamos falando de brasileiros que querem uma oportunidade “ao sol”. Para tal doam tudo de si. Nós temos que recompensar esse esforço.

Bolsistas – Portal Estágios e Empregos

Na nossa visão, não se pode  formar pessoal especializado e não lhes dar oportunidade para atuar de forma produtiva, segura e digna. As políticas terão que ser repensadas. A inteligência desses jovens tem que ser valorada, justiçada.

O PULSAR DO PROFISSIONAL BOLSISTA

O pulsar do Profissional Bolsista foi mensurado neste artigo pelo preenchimento de um questionário e respondido pelos Profissionais Bolsistas de forma livre e sincera. São eles falando. Ouçam os que quiserem….Se sensibilizarem….

Para tal, como universo de amostragem foi considerado os Profissionais Bolsistas de uma Instituição de Pesquisa Tecnológica vinculada ao MCTI, tomada como “case“. Foram abordados 225 profissionais bolsistas dessa Instituição. A Norma técnica de amostragem utilizada foi a NBR 5426/1985 – Planos de Amostragens e Procedimentos. A codificação da amostra foi a do nível geral de inspeção I. Assim deveria ter sido considerada uma amostra de respostas a 15 questionários. Mas foram computados 26, isto é, 11,6 % do universo de bolsistas considerado. A título comparativo, nas pesquisas de intenções de votos os vários institutos de pesquisa usam uma “abordagem não estatística”, estratificada, e, usualmente, envolvem de 2.000 a 2.500 pessoas, em uma população de 202.000.000 de brasileiros, isto é, de 0,0010 % a 0,00125  %.

Dos formulários preenchidos nós decidimos ocultar o nome do Profissional Bolsista e da Instituição. À exceção disso, marcada com XXXX, não foi mudada nenhuma palavra do que foi respondido. Embora muitos dos que responderam autorizassem a divulgação dos seus nomes. Um ato de coragem. Obrigado.

O QUESTIONÁRIO

1 – Qual o seu nível de escolaridade (graduado, mestrando, mestrado, doutorando ou doutorado)?

2- Qual a Universidade / Instituição em se graduou ou  em qual fez / está fazendo seu mestrado ou doutorado? Qual o curso, temática e área de concentração?

3- Qual a sua idade e quantos anos tem de formado, de mestrado e / ou doutorado?

4- Tem dependentes que necessitam do aporte de recursos da sua bolsa? É caso ou solteiro? Tem filhos?

5- Como se sente sendo bolsista, sem vínculo empregatício, garantias trabalhistas, sem contribuir para o tempo de serviço visando aposentação futura, ou seguro saúde, auxílio  alimentação e transporte?

6-  Como se sente psicologicamente, sabendo que seu tempo na equipe de trabalho é finito. Com data para terminar?

7- Como se sente psicologicamente dentro da equipe com servidores próprios da Instituição (concursados, do quadro) ganhando, em geral, para o mesmo nível de instrução e fazendo o mesmo tipo de trabalho, uma remuneração muito mais elevada que a sua?

8- Qual o valor da sua bolsa? Você acha justo? Ela é condizente com o seu tempo de experiência e especialização, pela tabela do CNPq  (lembre que o salário mínimo de um engenheiro recém-graduado  pela Lei 4.950A/66 é de 8,5 salários, como forma de valorização profissional. Neste caso, o mínimo da categoria subiu para R$ 6.154,80 em  2014?

9 – Você, além de cumprir com o seu plano de trabalho ajuda com seu trabalho intelectual a formular novos projetos (coordenados pelo orientador) para a Instituição?

10- Seu Programa de trabalho em P&D&I vem sendo seguido ou você está sendo alocado em multi tarefas, em projetos não afins ao seu plano original de trabalho (que lhe concedeu a bolsa)?

11- Como o seu orientador  lhe trata? Ele valora o seu trabalho? A equipe própria da Instituição valora o seu trabalho? Você já sofreu algum tipo de ” bullyng” por ser bolsista?

12 – Você, além dos trabalhos em P&D&I, faz prestação de serviços?

13- Se você é doutorando ou mestrando, como se sentiu quando o MCTI negou que você pudesse continuar o seu curso, mesmo em tempo parcial, sob pena de perder o vínculo de sua bolsa? Qual o impacto dessa medida na sua visão de futuro profissional?

14- Você, em algum momento, no ambiente social privado, se envergonhou ou se sentiu constrangido em revelar que é bolsista? Como o fato de ser bolsista afeta você no seu ambiente social?

15 – Sugestões (sinta-se livre para externar o que pensa sobre o assunto e que não tenha sido coberto por esse questionário)

Antes da consolidação das respostas, vamos mostrar alguns dados acerca do dispêndio governamental com bolsistas e bolsas:

A Figura a seguir mostra o investimento do CNPq em bolsas / ano e o total de bolsistas. Note que esses números saltaram por um fator de 3,7 X do número de bolsistas entre 2001 e 2013. Reparem que, por falta de perspectivas, a oferta de bolsas no período considerado foi sempre menor que a demanda.

Bolsistas – Plataforma Aquarius CNPq – Número de Bolsistas

A Figura seguinte mostra os dispêndios com bolsas desde 2001. Foram R$ 600 milhões. Em 2013 esse dispêndio foi de R$ 3 bilhões.

Bolsistas – Plataforma Aquarius CNPq – Valores Gastos desde 2001

A Figura seguinte mostra o número de bolsistas por modalidade. Nota-se que a maioria das bolsas concedidas é voltada para bolsistas do País.

Bolsistas – Plataforma Aquarius CNPq – Número de Bolsistas por Modalidade

Da Figura seguinte se vê os dispêndios entre formação de pessoal no exterior, formação de pessoal no País  e de fomento tecnológico. No ano de 2013 foram gastos no País 1,8 bilhão de Reais, no exterior  720 milhões  de Reais e de Fomento Tecnológico próximo de 340 milhões. Considerando-se um PIB em 2013  de 4,8 trilhões de Reais, a soma dá 2,86 bilhões, isto é, 5,9%.

Bolsistas – Plataforma Aquarius CNPq – Dispêndios Anuais por Modalidade de Bolsa

Seguindo em frente, a Figura seguinte mostra que a área que teve a maior concentração de bolsas foi a de Agronomia (aqui entra a vocação do agronegócio), seguida por Química, Ciência da Computação e em último lugar no ranking, Engenharia Mecânica. Outras engenharias, como  a de Materiais ou Metalurgia nem são citadas no balanço do gráfico.

Bolsistas – Plataforma Aquarius CNPq – As 10 Áreas de Conhecimento com Maior Número de Bolsistas

OS RESULTADOS DO QUESTIONÁRIO

1 – Qual o seu nível de escolaridade (graduado, mestrando, mestrado, doutorando ou doutorado)?

A- Graduado – 40,0%

B -Mestrando – 8,0%

C- Mestrado – 28%

D- Doutorando – 12,0%

E- Doutorado / pós doutorado – 12,0%

2- Qual a Universidade / Instituição em se graduou ou  em qual fez / está fazendo seu mestrado ou doutorado? Qual o curso, temática e área de concentração?

A- Pública (UFRJ, UFF, USP, IME, UFMG, UERJ, Outras) – 76,0%

B- Privada (PUC, Souza Marques, Outras) – 24,0%

3- Qual a sua idade e quantos anos tem de formado, de mestrado e / ou doutorado?

A- Menor que 20 anos – 0%

B -Entre 20 e 30 anos – 40,0%

C- de 30 a 40 anos – 44,0%

D – Acima de 40 anos – 16,0%

4- Tem dependentes que necessitam do aporte de recursos da sua bolsa? É caso ou solteiro? Tem filhos?

A- Tenho dependentes e sou casado (a) -24,0%

B – Tenho dependentes e sou solteiro (a) – 8,0%

C – Sou casado (a) e não tenho dependentes – 8,0%

D – Sou solteiro (a) – 68,0%

5- Como se sente sendo bolsista, sem vínculo empregatício, garantias trabalhistas, sem contribuir para o tempo de serviço visando aposentação futura, ou seguro saúde, auxílio  alimentação e transporte?

A – Muito satisfeito -0,0%

B – Satisfeito – 16,0%

C – Indiferente – 4%

D – Insatisfeito – 80%

6-  Como se sente psicologicamente, sabendo que seu tempo na equipe de trabalho é finito. Com data para terminar?

A- Muito satisfeito – 0%

B – Satisfeito – 20%

C – Indiferente – 12%

D – Insatisfeito – 68%

7- Como se sente psicologicamente dentro da equipe com servidores próprios da Instituição (concursados, do quadro) ganhando, em geral, para o mesmo nível de instrução e fazendo o mesmo tipo de trabalho, uma remuneração muito mais elevada que a sua?

A – Muito satisfeito – 0,0%

B – Satisfeito – 28,0%

C – Indiferente – 16,0%

D – Insatisfeito – 56,0%

8- Qual o valor da sua bolsa? Você acha justo? Ela é condizente com o seu tempo de experiência e especialização, pela tabela do CNPq  (lembre que o salário mínimo de um engenheiro recém-graduado  pela Lei 4.950A/66 é de 8,5 salários, como forma de valorização profissional. Neste caso, o mínimo da categoria subiu para R$ 6.1548 em  2014)?

A – Menor que R$ 1000,00 – 0,0%

B – Entre R$ 1001,00 e R$ 2000,00 – 12,0%

C – Entre R$ 2001,00 e R$ 4000,00 – 72,0%

D – Entre R$ 4001,00 e R$ 6000,00 – 16,0%

E – Maior que R$ 6000,00 – 0,0%

9 – Você, além de cumprir com o seu plano de trabalho ajuda com seu trabalho intelectual a formular novos projetos (coordenados pelo orientador) para a Instituição?

A- Sim, ajudo – 84,0%

B- Não, me atenho ao meu Plano de Trabalho – 16,0%

10- Seu Programa de trabalho em P&D&I vem sendo seguido ou você está sendo alocado em multi tarefas, em projetos não afins ao seu Plano original de trabalho (que lhe concedeu a bolsa)?

A- Meu plano de trabalho vem sendo seguido, mas faço atividades multi tarefas – 52,0%

B- Meu Plano de Trabalho não está sendo seguido e faço atividades multi tarefas – 0,0%

C- Somente faço meu Plano de Trabalho. Aquele que motivou a minha bolsa – 48,0%

11- Como o seu orientador  lhe trata? Ele valora o seu trabalho? A equipe própria da Instituição valora o seu trabalho? Você já sofreu algum tipo de ” bullyng” por ser bolsista?

A- Muito satisfeito – 44,0%

B – Satisfeito – 36,0%

C- Indiferente – 0,0%

D- Insatisfeito – 20,0%

12 – Você, além dos trabalhos em P&D&I, faz prestação de serviços?

A – Sim. Faço prestação de serviços – 48%

B – Não. Somente trabalho em P&D&I – 52%

13- Se você é doutorando ou mestrando, como se sentiu quando o MCTI negou que você pudesse continuar o seu curso, mesmo em tempo parcial, sob pena de perder o vínculo de sua bolsa? Qual o impacto dessa medida na sua visão de futuro profissional?

A- Muito satisfeito – 0,0%

B – Satisfeito – 0,0%

C – Indiferente – 52,0%

D – Insatisfeito – 48,0%

14- Você, em algum momento, no ambiente social privado, se envergonhou ou se sentiu constrangido em revelar que é bolsista? Como o fato de ser bolsista afeta você no seu ambiente social?

A – Muito satisfeito – 16,0%

B – Satisfeito – 20,0%

C – Indiferente – 12,0%

D – Insatisfeito – 52%

15 – Sugestões (sinta-se livre para externar o que pensa sobre o assunto e que não tenha sido coberto por esse questionário)

várias constribuições estão explicitadas.Clique nesse link

Análise das Respostas ao Questionário pelos Profissionais Bolsistas

A-   Os resultados apresentados evidenciam claramente que os profissionais bolsistas estão insatisfeitos.

B – A maioria dos Profissionais Bolsistas é somente graduada. Em segundo lugar vem os graduados com Mestrado e finalmente os Doutorandos e doutores.

C – A maioria esmagadora desses profissionais é egresso de Universidades públicas (76%) e 84% deles tem idade na faixa compreendida entre 20 e 40 anos. 68% são solteiros e sem dependentes, em função da fragilidade intrínseca da atividade de bolsista.

D – Quanto a não ter Carteira de Trabalho assinada e direitos previdenciários e trabalhistas, 80% estão insatisfeitos.

E – Da mesma forma, psicologicamente, ter contrato de bolsa com término de tempo definido é agressivo a 68% dos entrevistados.

F- Quanto às diferenças salariais para pessoas que fazem as mesmas funções, isto é, entre os Servidores do quadro fixo e os Profissionais Bolsistas, é fator de descontentamento para 56% deles.

G – Quanto ao valor das bolsas, ela gira, para os mais graduados, entre R$ 2001,00 e R$ 4.000,00, enquanto um engenheiro iniciante, por lei, em 2014, recebia R$ 6.154,80.

H- Os Profissionais Bolsistas, além de cumprirem seu plano de trabalho do projeto que gerou a sua bolsa, também são instados a contribuir com o orientador e a equipe para gerar novos projetos para a Instituição que o acolhe. 84% relatam esse fato.

I -Quanto à atuação multi tarefas, há uma divisão. Aproximadamente 50% praticam esse tipo de atividades e 50% não.

J – Quanto à relação pessoal com o orientador do Profissional Bolsista, 80% deles ou estão satisfeitos ou muito satisfeitos. Somente 20% estão insatisfeitos com essa relação. Mesmo assim, ainda é um número elevado e isso tem que ser trabalho pela Instituições. O capital humano é o maior ativo de qualquer empresa ou instituição pública. Assim como a sua satisfação.

k- Finalmente, contrariando o próprio modelo de gestão a que se destina as bolsas de P&D&I, 48% dos Profissionais Bolsistas dizem que são mão de obra em serviços técnicos especializados. Os gestores das Instituições de P&D&I deveriam dar atenção especial a esse fato, intrinsecamente desvirtuador da natureza e da destinação fim desse tipo de bolsa.

Acreditamos que os resultados e os dados aqui apresentados, com alguma aproximação, representem o que acontece em todos os Institutos de MCTI e nas Universidades que se utilizam os Profissionais Bolsistas como “força de trabalho” em seus projetos de P&D&I. Por justiça, se faz necessário, de forma urgente, rever essas políticas.

Para terminar, nosso muito obrigado a aqueles que se dispuserem a colaborar. Para nós esse assunto não tem sido devidamente tratado no que se refere ao desenvolvimento tecnológico do Brasil. Empurram a situação com a “barriga”. Nós não podemos pactuar com isso…Não enquanto cidadãos.

Agradecemos a leitura deste texto..Na esperança de ter contribuído…

Para ler o dossiê com as respostas completas ao questionário pelos Profissionais Bolsistas, clique nesse link

 

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