4 de junho de 2026

De quanta energia ainda poderemos dispor?

Margarita Mediavilla, professora da Universidade de Valladolid, e uma equipe multidisciplinar de pesquisadores procuram responder essa questão, em estudo que foi apresentado pela professora num Congresso sobre o Pico do Petróleo, acontecido em Barbastro, Espanha.

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Ela  comenta os resultados desse trabalho, assim como outro apresentado no mesmo congresso pelo pesquisador sueco Mikael Höök, numa postagem no blogue “Última llamada“. O estudo de sua co-autoria prevê o fim do crescimento contínuo do consumo de energia, verificado desde meados do século XVIII. Ela alerta para a crise energética mundial que se aproxima, que será vivenciada nas próximas duas décadas; defende a urgência de uma transição energética, para uma sociedade que não dependa dos combustíveis fósseis. Sobre esta transição, ela antecipa que não poderá se basear apenas em mudanças tecnológicas, que outras ferramentas serão necessárias e as descrevem como: “sociais, econômicas, políticas, etc., medidas que casam muito mal com a nossa economia de mercado e que vão exigir níveis significativos de consciência cívica e vontade política”.

Segue uma tradução livre da sua postagem.

De quanta energia ainda poderemos dispor?

A maioria dos estudos científicos indicam estagnação e posterior declínio da produção mundial de petróleo por volta de 2020, em torno de 2030 para o gás e cerca de 2040 para o carvão.

Os aumentos pífios na extração de petróleo que se têm verificado, desde 2006, são devidos ao uso, nos Estados Unidos e Canadá, do fracking e das areias asfálticas: tecnologias caras, poluentes e de baixo retorno energético.

Se esperarmos alguns anos, até estar totalmente seguros de que as previsões de geólogos se cumpram, estaremos em um cenário de energia escassa, crises econômicas e conflitos por recursos. Devemos começar a transição energética agora.

Marga Mediavilla
12/01/2015

O fato do preço do petróleo estar caindo nos últimos meses não deveria fazer-nos esquecer, de que a crise de energia continua avançando por baixo das flutuações do mercado. Mudanças tecnológicas e sociais profundas requerem décadas, a partir dessa perspectiva deveríamos ver a crise de energia: estudando o esgotamento dos combustíveis fósseis, décadas antes de seu início e buscando alternativas também com décadas de antecedência.

A melhor maneira de saber quanta energia realmente nos resta é desprezar o imediatismo da imprensa, junto com as declarações interesseiras das empresas de energia, e dar uma olhada na literatura científica. Para isso, o Segundo Congresso sobre o Pico do Petróleo, recentemente organizada pela UNED em Barbastro, é uma vitrine excepcional, que também está disponível nos vídeos e documentos arquivados em sua página na rede.

Neste congresso, o sueco Mikael Höök, um dos principais especialistas em petróleo e gás no mundo, forneceu dados científicos de 38 estudos de estimativas de esgotamento do petróleo, publicados até à data em revistas científicas sujeitas a revisão por pares, 18 publicadas para o gás natural e também 18 publicadas para o carvão. Os dados são exibidos em diferentes curvas devido à incerteza e cautela, que muitas vezes acompanham os resultados científicos, mas a maioria destas curvas indicam estagnação e posterior declínio da extração mundial de petróleo por volta de 2020, em torno de 2030 para o gás e cerca de 2040 para o carvão (Figuras 1, 2 e 3).

Além disso, já se podem verificar alguns fatos que confirmam essas previsões. A própria Agência Internacional de Energia reconheceu que o petróleo convencional – ou seja, o mais barato, de boa qualidade e fácil extração – atingiu seu limite máximo em 2006 e sua extração começou a declinar. Também pode ser observado nos dados históricos (Figura 1, linha preta) que a produção de petróleo está estagnada desde então (o que não é devido a uma falta de demanda pela crise econômica, uma vez que o consumo de carvão e gás natural continuou a crescer durante esse tempo a bom ritmo ─ as figuras 2 e 3), enquanto os aumentos pífios na extração de petróleo que se têm verificado, desde 2006, são devidos ao uso, nos Estados Unidos e Canadá, do fracking e das areias asfálticas: tecnologias caras, poluentes e de baixo retorno energético.

Figura 1: Estimativas de extração do petróleo de diversos autores aparecidas em revistas científicas revisadas por pares (fonte: M. Höök, II Congresso sobre o Pico do Petróleo, Barbastro 2014).

Figura 2: Estimativas de extração de gás natural de diversos autores aparecidas em revistas científicas revisadas por pares (fonte: M. Höök, II Congresso sobre o Pico do Petróleo, Barbastro 2014).

Figura 3: Estimativas de extração de carvão de diversos autores aparecidas em revistas científicas revisadas por pares (fonte: M. Höök, II Congresso sobre o Pico do Petróleo, Barbastro 2014).

Diante desses dados, a pergunta imediata é se existe energia alternativa, que possa preencher o vazio que vai deixar os combustíveis fósseis. O estudo que apresentamos – neste mesmo Congresso Barbastro – aborda esta questão e o faz com um modelo matemático que nos auxilia a reunir grande quantidade de  dados sobre combustíveis esgotáveis e energias renováveis. Este estudo utiliza curvas semelhantes às compiladas por Höök e também presta especial atenção aos ritmos de substituição. Não só nos interesa saber, por exemplo, se uma tecnologia renovável funciona, mas também se seremos capazes de implementá-la a tempo e se servirá para as aplicações nas quais hoje usamos petróleo, gás ou carvão. Embora a longo prazo ninguém pode saber como a tecnologia evoluirá, a curto prazo sim, sabemos que o seu desenvolvimento requer tempo e sua introdução no mercado também, de forma que podemos estimar até que ponto alternativas como a energia solar, a energia eólica, os biocombustíveis e os veículos eléctricos serão capazes de atender a demanda requerida, por uma economia global em contínuo crescimento, quando as energias fósseis se vão esgotando.

As conclusões que se extraem do nosso estudo não são muito promissoras. Uma das coisas que mais claramente observamos é que não temos tempo, para substituir o declínio do petróleo, especialmente no setor dos transportes. Hoje, praticamente todos o transporte mundial depende de combustíveis líquidos extraídos do petróleo e as possíveis alternativas, tais como veículos elétricos ou de hidrogênio, são muito débeis do ponto de vista tecnológico. Na Figura 4 se pode ver o resultado da comparação, entre a energia disponível para o transporte e a demanda requerida pela economia global em dois cenários: o BAU (business as usual, uma extrapolação das tendências atuais) e o cenário 2, um cenario “tecno-otimista” com forte desenvolvimento de alternativas, como os veículos híbridos, elétricos e de gás, combustíveis líquidos extraídos do gás e do carvão e um forte compromisso com a eficiência. Verifica-se que, mesmo no cenário mais otimista, as curvas de energia disponível e demanda para o transporte deixam de coincidir antes de 2020 (Figura 4). Não chegamos a tempo de evitar o declínio do petróleo nesta década, porque as alternativas não estão crescendo no ritmo necessário.

Também fica claro que o papel da energia nuclear é irrelevante. Por um lado, não é uma energia crítica, uma vez que fornece apenas 6% da energia comercial consumida e se utiliza somente para o setor que menos problemas tem (electricidade). Por outro lado, um desenvolvimento em grande escala da atual energia de fissão logo encontraria, o limite do esgotamento das reservas de urânio; além disso, tecnologias como a fusão ou as chamadas nucleares de quarta geração, não se prevê que possam estar no mercado nas próximas décadas e, portanto, não se inserem no nosso horizonte temporal do estudo.

O modelo também mostra que no setor da eletricidade, os problemas são menos prementes, uma vez que o declínio do carvão é um pouco mais tardio e existem tecnologias renováveis com potencial de desenvolvimento significativo (Figura 5). Ainda estaríamos a tempo de substituir boa parte do consumo mundial de eletricidade com energia renovável, mas para isso deveríamos começar a investir nesta década e, não sendo o elétrico um setor problemático no momento, corremos o perigo de não fazer os investimentos necessários.

Apesar de tudo isso, o modelo também mostra que a mudança climática não deixa de ser um problema. Ainda que alguns dos piores cenários de emissões previstos pelo IPCC não são compatíveis, com os limites de combustíveis fósseis, sim, existem cenários muito preocupantes que o são.

Os resultados que obtivemos com este modelo desenham um panorama muito mais sombrio, do que geralmente é visto nos meios de comunicação e, provavelmente, do que a maioria das pessoas tem em mente (inclusive mais pessimista do que pensávamos antes do estudo). Apesar de que nenhum modelo é um oráculo, nem deve ser tomado como tal, os modelos são ferramentas muito úteis, para mostrar os aspectos que permanecem ocultos, em meio a abundância de dados. É possível que as datas e os dados concretos que prevemos variem, devido aos erros que todo estudo leva consigo, mas isso muda muito pouco as conclusões básicas.

Os dados científicos apontam que, nas próximas décadas, o crescimento contínuo no consumo de energia que temos desfrutado desde meados do século XVIII vai acabar. Vamos ter que fazer uma transição, para uma sociedade que não dependa dos combustíveis fósseis e, cada vez mais cientistas, estamos alertando que isso não vai poder se basear unicamente em mudanças tecnológicas. Nesta presente década, para reagir face ao pico do petróleo, vamos ter de empregar ferramentas de todos os tipos: sociais, econômicas, políticas, etc., medidas que casam muito mal com a nossa economia de mercado e que vão exigir níveis significativos de consciência cívica e vontade política.

A crise energética é um dos mais importantes problemas que enfrentamos e não podemos esperar, que a escassez de energia seja evidente, para começar a resolvê-lo. Se esperarmos alguns anos, até que estejamos totalmente seguros de que as previsões de geólogos se verifiquem, estaremos em um cenário de baixa energia, crises econômicas e conflitos pelos recursos, no qual será muito difícil de investir em tecnologia e empreender medidas coletivas. Devemos começar a transição energética agora. Afinal, se nos adiantarmos e realmente houver mais energia fóssil do que nós cientistas dizemos, é muito pouco o que perdemos; mas, se chegarmos atrasados, o resultado será, sem dúvida, catastrófico.

Figura 4: Estimativas da energia de diversas fontes disponíveis para o transporte comparadas com a demanda sob dois cenários: BAU, que extrapola as tendências atuais e cenário 2, com forte desenvolvimento de tecnologias alternativas (Fonte: Capellán-Pérez, I. y col.  Fossil fuel depletion and socio-economic scenarios: An integrated approach. Energy, Volume 77, 1 December 2014, Pages 641–666 2014).

Figura5: Estimativas da energia de diversas fontes disponíveis para a geração de eletricidade comparadas com a demanda sob dois cenários: BAU, que extrapola as tendências atuais e cenário 2, com forte desenvolvimento de tecnologias alternativas (Fonte: Capellán-Pérez, I. y col.  Fossil fuel depletion and socio-economic scenarios: An integrated approach. Energy, Volume 77, 1 December 2014, Pages 641–666 2014).

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