4 de junho de 2026

Uma fuga ao café, por Maíra Vasconcelos

Hoje estou atrás de algo que seja quase banal. Ou apenas um pontapé para voltar a escrever esses textos

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por Maíra Vasconcelos*

Fazia tempo que não me sentava a escrever esses textos para o jornal. É a falta de tempo e também os problemas do cotidiano argentino. Além do mais, essa relação, ás vezes, desanimada e cheia de idas e voltas com a dura tarefa da escrita. A palavra costuma nos vencer. Mas é necessário decidir escrever ou não, apesar de vencidos. No melhor dos casos, sair desse lugar, digamos, saber se virar estando nas cordas do ringue. Mas a questão hoje aqui é outra. Pois escrevo sem achar que essas palavras devem expressar um estado interior e toda essa busca artística. Sem pretender encontrar vozes narrativas. Sem usar esse espaço como laboratório da escrita, como o fiz por muitos anos. Hoje estou atrás de algo que seja quase banal. Ou apenas um pontapé para voltar a escrever no jornal, ainda que  isso não seja exatamente aquilo que desejo escrever. E como o desejo segue permanente, busca-se o que escrever.  E busca-se a leitura.

Outro dia, um domingo desses bem arrastados, lia e tomava café no antigo e tradicional Los 36 Billares, na Avenida de Maio. Vi uma movimentação de clientes bastante chamativa. Uma amiga disse que isso é resultado do processo inflacionário que vivemos por aqui. Há filas em muitos restaurantes e bares da Capital. Cada dia, a moeda vale menos. Bom, mas é preferível escapar, por alguns instantes, da situação econômica argentina. Já que para isso também se escreve, para fugir a lugares mais agradáveis como os da imaginação, por exemplo.

As mesas de bilhar ficam no subsolo. A parte de cima é mais suntuosa. Quando olhei ao lado, um grupo de jovens discutia, gritando, com o funcionário do caixa. Habitual. Aos gritos as coisas podem ser resolvidas. Ou não, mas o grito é fundamental. Essa é uma condição de sobrevivência em Buenos Aires. E percebo que sempre as duas partes gritam. Assim é mais justo também. Acontece no supermercado, no ônibus, na rua. No trânsito é de parar para assistir, ou sair correndo, porque pode sobrar pra quem passa.

Na mesa ao lado, três senhoras, com seus mais de 75 anos, pareciam falar sobre assuntos familiares. Arrumadíssimas, impecáveis esbanjavam a vaidade certeira que os anos exigem. É bastante comum ver grupos de senhoras nos cafés, também até bem tarde da noite. Expressam sempre muita vitalidade na fala. Vê-las, trouxe um ar agradável. Espantou um pouco as preocupações de um domingo que foi se arrumando, aos poucos, entre o café e a leitura. Entre a simples e comum observação impregnada nos olhos de quem escreve. No corpo que se coloca a observar. Estando em meio àquele burburinho de café que se escapava da realidade, e de modo tão pouco perceptível.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem um ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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