Vai ter golpe? A História jamais será transmitida ao vivo pela TV
por Wilson Roberto Vieira Ferreira
Nos últimos dias, nunca se ouviu ou se leu tanto o adjetivo “histórico”. Seja na mídia hegemônica ou na progressista. Adjetivando eventos que foram transmitidos ao vivo pela TV: a leitura da Carta em Defesa da Democracia na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, SP, e o discurso do ministro Alexandre de Moraes na solenidade de posse na presidência do TSE. “Históricas” defesas da Democracia. Mas será que a TV consegue mesmo mostrar ao vivo acontecimentos históricos? Ou será que a mídia só escolhe aqueles eventos que confirmem um script pré-estabelecido que já esteja rodando? Qual script? O roteiro do “golpe-pode-estar-à-nossa-espera-na-esquina”. Pedagogia do medo diariamente alimentada por notas plantadas (“agrojornalismo”) nos espaços diários dos “colonistas” dos principais veículos de imprensa. A História é feita por acontecimentos silenciosos, à margem de qualquer representação e racionalização. Enquanto o “histórico” midiático são sempre eventos ruidosos, estridentes e emergenciais. Telecatchs canastrões.
Em 2014, o jurista Dalmo Dallari apresentava sua crítica e perplexidade diante das transmissões ao vivo das sessões do Supremo Tribunal Federal (o único país no mundo em que sessões de um tribunal superior são transmitidas ao vivo). Dallari apontava o “vedetismo e deslumbramento” dos ministros que prejudicariam a “impessoalidade e serenidade das decisões”. O jurista criticava a “interferência nefasta” das transmissões ao vivo que oferecia “atrativos e desvios emocionais” e que prejudicavam ou mesmo anulavam a “independência, a serenidade e a imparcialidade do julgador” – clique aqui.
Desde o Mensalão, os ministros do STF tornaram-se estrelas sob as lentes das câmeras ao vivo. Dentro do “golpe de veludo” da estratégia de guerra híbrida brasileira, funcionou dentro do script da grande mídia: a transmissão ao vivo como forma de pressão psicológica para o Supremo sentir o “efeito de manada” ou de “linchamento” incitado na opinião pública pela agenda do jornalismo corporativo naquele momento.
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O “ao vivo” ou “tempo real” criam um forte efeito de realidade tanto no objeto da transmissão quanto nos espectadores. No objeto cria o “efeito Heisenberg” (Neal Gabler): a TV passa a transmitir o efeito que a transmissão ao vivo provoca e não mais a realidade. E no espectador, a ilusão criada pela simulação do efeito de realidade.
Há um mal-entendido sobre a natureza das imagens e, principalmente, sobre as transmissões ao vivo:
(a) a imagem não é a realidade, mas um signo da realidade;
(b) como signo, toda imagem é a simulação de uma ausência (o objeto não é presencial) através de mediações tecnológicas: câmera, switcher, delay etc. Há uma simulação do presencial, mascarando a seleção, edição, enquadramento, angulação e assim por diante. Vemos um espectro (comunicação espectral), uma realidade fantasmagórica;
(c) as imagens midiáticas produzem o “efeito Heisenberg”, como denomina Neal Gabler: efeito secundário onde as mídias não mais relatam o que as pessoas estão fazendo, mas mostram o que as pessoas fazem para obter a atenção da mídia. Em outras palavras, à medida em que os eventos estão sendo vividos cada vez mais para tornarem-se imagem, a mídia está cada vez mais cobrindo a si mesma e o seu impacto sobre a vida.
A partir desses pressupostos desenvolvidos por autores como Daniel Boorstin, Umberto Eco e, o mais carbonário de todos, Jean Baudrillard, a História jamais será transmitida ao vivo pela TV.
Mais radical, Baudrillard falava em uma “greve dos acontecimentos” – nenhum acontecimento verdadeiramente histórico poderá ser transmitido ao vivo porque para merecerem a atenção dos meios de comunicação, os fatos devem concordar com um script pré-estabelecido (pauta, agenda etc.). Em outras palavras, tudo o que acompanhamos nas telas são meros eventos (não-acontecimentos, pseudo-eventos etc.), jamais acontecimentos.

Numa sociedade do espetáculo, os acontecimentos verdadeiramente históricos sempre serão de natureza silenciosa, invisível. A mídia somente os revelará a posteriori, a partir do momento em que os acontecimentos se tornem tão disruptivos que o modo alarme é acionado, passando a ser reportados pelos meios de comunicação de massa.
É possível vermos a História na TV?
Não obstante, nunca se ouviu e leu tanto o adjetivo “histórico” nas mídias tanto hegemônicas quanto alternativas para designar a leitura da Carta em Defesa da Democracia, na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco (SP), e também o discurso de Alexandre de Morais na sua posse à presidência do TSE – um discurso qualificado como “duro” na “defesa intransigente” do processo eleitoral. E, principalmente, das urnas eletrônicas,pièce de resistánce da estratégia alt-right de apropriação semiótica do clã Bolsonaro.
De imediato “colonistas” (aqueles jornalistas de plantão especializados em “agrojornalismo” – repercutir notas plantadas por fontes interessadas) começaram a traçar um paralelo entre a leitura da Carta de 1977, com as indefectíveis imagens de arquivo em p&b do golpe militar de 1964 e policiais militares correndo nas ruas desferindo cacetetes sobre manifestantes.
Será que é mesmo possível vermos acontecimentos históricos se desenrolando ao vivo na TV?
A primeira pergunta que vem à mente desse humilde blogueiro é a seguinte: por que à época da leitura da Carta de 1977 não houve transmissão ao vivo? Por que a emissora de TV hegemônica na época, a Rede Globo, simplesmente ignorou aquele verdadeiro acontecimento? … Além de também ignorar a crescente epidemia de meningite.
Como veículo de apoio a ditadura militar, obviamente o acontecimento não seguia o script editorial. Tornou os acontecimentos históricos (como, p. ex., a leitura da Carta de 1977 como movimento de resistência) invisíveis. Até o desenrolar da História culminar com os disruptivas manifestações de rua da “Diretas Já”, não restando para Globo e grande mídia, no último instante, render-se à própria História e transmitir os acontecimentos… mesmo dizendo que tudo não passava de uma “comemoração pelo aniversário da cidade de São Paulo”.

Bem diferente desse momento atual. Mudou o script. Agora é “o-golpe-pode estar-à-nossa-espera-na-esquina”. Vai ter golpe? Quem vai dar o golpe? De onde virá o golpe? Esse é o clima cotidiana criando pelos colonistas em notas cotidianamente plantadas por supostas “fontes”: militares, o clã Bolsonaro, os “temores” do comitê de campanha de Lula, os cochichos na caserna, a escalada de posse de armas pelos CACs, o recrudescimento da violência policial etc. E o destaque no noticiário da “reação” da sociedade civil contra a ameaça golpista.
O script da pedagogia do medo
Em postagem anterior (clique aqui) esse Cinegnose chamou a atenção para essa estratégia de guerra híbrida de criar a paralisia estratégica no inimigo: a estratégia da “pedagogia do medo”, normalizando as embaraçosas evidências de que as instituições não estão funcionando (para começar, o último ato de Fachin no TSE ampliando mais militares para “inspecionar as urnas”, um papel inconstitucional para as Forças Armadas – para grande mídia, tudo não passaria de “distensionamento”).
Se as “instituições estão funcionado”, estariam sujeitas a um “golpe” – pedagogia do medo que tem ainda uma outra função: apagar as digitais de um golpe militar que já ocorreu, o golpe híbrido, de “veludo”, com a própria anuência do STF e TSE na sua concretização em 2018.
Como esquecer o papel chave do mesmo ministro Alexandre Moraes na impugnação da candidatura Lula em 2018, rejeitando pedido de liberdade do candidato e ainda indeferindo pedido de nova distribuição do caso Lula aos integrantes da Segunda Turma. E mais! Diante da recomendação da ONU em garantir os direitos políticos do petista, Moraes desconversou: “cada macaco no seu galho!”. Pois bem, tudo aquilo deu nisso no qual estamos…
Continue lendo no Cinegnose.
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