10 de junho de 2026

Direita chilena fez campanha tipicamente bolsonarista contra nova Constituição, explica Maringoni

Para professor de Relações Internacionais da UFABC, Chile está em um "limbo", com duas Constituições rejeitadas
Povo do Chile rechaça nova Constituição
Foto: Getty Images

Em entrevista exclusiva ao Jornal GGN, o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Gilberto Maringoni, explicou os principais motivos pelos quais o Chile rejeitou a nova Constituição do Chile no último domingo.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Segundo Maringoni, especialista em América Latina, as fake news produzidas pela direita chilena tiveram papel fundamental, explorando pontos sensíveis adicionados a uma nova Constituição que se mostrou progressista demais para uma população conservadora. Além disso, a obrigatoriedade do voto plebiscitário também explica a reviravolta que sofreu o governo Boric. 

Maringoni disse na entrevista ao jornalista Luis Nassif (assista abaixo) que a extrema-direita chilena é muito parecida com a brasileira, lembrando que é desse espectro que surge a ditadura sanguinária de Augusto Pinochet. A Constituição que o Chile decidiu manter vem dos tempos daquele regime autoritário. As táticas utilizadas pela direita, desta vez, lembram as estratégias do bolsonarismo nas redes sociais.

Fake news contra pautas progressistas 

Um dos temas explorados pelos extremistas chilenos na produção de fake news foi a inclusão no texto constitucional da questão do direito ao aborto, tema sensível para os mais conservadores, e também explorado no Brasil pela rede bolsonarista. 

Outro ponto chave foi a inclusão do artigo que versa sobre o Chile considerar-se um “estado plurinacional”, ou seja, o reconhecimento dos povos originários. O tema foi utilizado na narrativa de “divisão do povo” pela extrema-direita. Os indígenas são apenas uma parcela consideravelmente baixa da população, 12%. 

“Esses dois temas [aborto e indígenas], a direita pinçou, separou do resto, não divulgou os avanços, e fez uma campanha tipicamente bolsonarista“, disse Maringoni.

A eleição de Boric x o plebiscito

Mas para além das fake news contra grupos contrários, o acontecimento mais relevante neste imbróglio envolvendo a Constituição é o fato de que, no Chile, o voto para presidente não é obrigatório, mas nos plebiscitos, a população é obrigada a comparecer. 

Isso explica como um governo com menos de um ano no poder, como é o de Boric, sofre uma derrota tão dramática agora na aprovação da nova Constituição.

Observando o gráfico abaixo, percebe-se que o número de votos recebidos por Boric na eleição presidencial de 2021 é cerca de 200 mil votos inferior aos votos computados a favor da nova Constituição. 

Além disso, na eleição presidencial, com voto não obrigatório, quase 7 milhões de chilenos se abstiveram. Já no caso do plebiscito, que tem voto obrigatório, o rechaço alcançou o número de abstenções da eleição de Boric mais uma parcela dos eleitores de Kast, o adversário derrotado por Boric em 2021. 

Na avaliação de Maringoni, a situação chilena agora é complexa. “O Chile está, na prática, num limbo legal. Claro que vai ser feito um acordo, e aquela Constituição vai ficar como um estepe, vai ficar valendo, mas objetivamente, é um limbo entre duas Constituições, e nenhuma das duas está aprovada. Como é que isso vai ficar?”

Ícaro Brum é estagiário em jornalismo no Jornal GGN sob supervisão de Cintia Alves

Icaro Brum

Repórter no Jornal GGN, produtor e apresentador do Programa “Em Movimento” na TV GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

2 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Um Chileno

    7 de setembro de 2022 5:38 pm

    Culpar fakenews pela derrota? Infantil análise, como se não houvesse senso crítico num país tão politizado como o Chile.

    Culpar voto obrigatório pela rejeição? Mais de 86% de comparecimento foi o problema para ser rejeitada? Obtuso pensamento…. mais rejeições (votos) teve a proposta que os votos que elegeram o atual presidente. Não dá pra ver onde está o problema?

    Direita chilena parecida com a brasileira? São origens históricas e comportamentos político-culturais bem diferentes.

    O Chile não “decidiu manter a constituição que vem dos tempos do regime autoritário”, como diz o comentarista. O Chile se negou a aceitar uma constituição que trazia consigo fundamentos equivocados, apesar de certas outras pautas serem positivas e inovadoras.

    Estado plurinacional, modelo boliviano do Evo Morales, não representa o “reconhecimento dos povos originários”. Representa a fragmentação da justiça e dos direitos iguais aos cidadãos chilenos.

    E ele nem citou a eliminação do Senado e de suas consequências para minorias e regiões menos populosas do país. Isto sim é um problema estrutural na proposta constitucional.

    O desejo por mudança do povo chileno continua presente!
    Só não pode ser esta proposta, por isso é que ela foi rejeitada.

    O Maringoni é que promove desinformação, por ignorância ou por viés ideológico, com estes argumentos equivocados.

  2. Macdowell B. Costa

    7 de setembro de 2022 7:50 pm

    Esta análise é o mesmo que um brasileiro jogar a culpa na bola pelos 7×1 de 2014.
    Esta nova constituição chilena era um emaranhado de pautas identitárias e todos sabem que o identitarismo é nocivo e injusto.

Recomendados para você

Recomendados