Por Augusto Diniz

No Dia Nacional do Samba, em 2 de dezembro, enquanto a geração da Lapa toma seu rumo, vê-se a necessidade de surgir no gênero um novo núcleo de (bons) músicos que relance o estilo musical no Rio.
A explosão das rodas de samba na cidade, a reboque do bom momento vivido pelo gênero na indústria cultural (estou falando de samba e não do pagode de coxinha, pelo amor de Deus), na virada do ano 2000, teve a Lapa como epicentro.
Desse burburinho, surgiu uma nova geração de talentosos músicos – embora menos virtuosa do que a geração anterior, a do Cacique de Ramos, que aos poucos vai deixando o cenário musical (leia mais sobre o lento fim desta geração aqui).
A turma da Lapa também foi, em parte, responsável pela revitalização do Carnaval de rua carioca.
Estavam no lugar certo (histórico bairro da Lapa), na hora certa (samba em ascendência e público idem).
Da geração da Lapa, destacam-se Alfredo Del-Penho, Eduardo Gallotti, grupo Casuarina, Pedro Miranda, Pedro Paulo Malta, Teresa Cristina e outros importantes músicos no início de carreira que orbitaram de alguma forma nas casas de samba do bairro, como Wanderley Monteiro e Moyseis Marques.
Hoje, a Lapa virou geleia geral. Não há chance à criação de um novo núcleo do samba por lá, muito menos de formação de cantores e compositores. Os sambistas que se apresentam atualmente no bairro cantam para uma plateia heterogênea e pouco interessada em um repertório aberto às novidades.
Por outro lado, as escolas de samba há muito tempo deixaram de ser berço de novos compositores e cantores de samba, com raras exceções – talvez Marquinhos de Oswaldo Cruz, na Portela, seja o maior exemplo hoje.
Há alguns focos de novos talentos de samba no Rio, mas ainda incipientes para se apontar como um novo núcleo promissor do gênero na cidade. O Samba do Trabalhador, no Andaraí, é um desses focos, integrado por Gabriel Cavalcante, Alexandre Nunes, Álvaro Santos, Mingo Silva, Daniel Neves e outros.
Ouça abaixo Gabriel no Samba do Trabalhador, cantando uma obra prima de Moacyr Luz e Paulo Cesar Pinheiro, “Som de prata”, em homenagem a Pixinguinha. É aguardar para ver o que acontece!
implacavel
30 de novembro de 2014 6:27 pmAnálise superficial
Análise superficial de quem não conhece a cena musical na Zona Norte do Rio de Janeiro.
Só para ficar em alguns exemplos vou citar algumas das novas Rodas de Samba excelente e com músicos a espera de uma chance:
– Pagode da Tia Doca
– Encontro de Bambas
– Pagode Chaleira
– Samba no Sítio
– Toca do Rato
Existe uma turma que fica achando que o samba nasceu na Lapa….
Augusto Diniz
30 de novembro de 2014 6:43 pmÉ difícil querer responder
É difícil querer responder quem nao se identifica, mas vamos lá. Algumas rodas de samba citadas eu conheço e já frequentei. Não se trata de rodas de samba novas. Pagode da saudosa Tio Doca, por exemplo, tem até disco lançado de regravações de sambas – por acaso tenho esse belo trabalho. Ainda tem outras, mais longe: a comandada por Bira da Vila, na Baixada Fluminense. Pagode da Chaleira, em Realengo, também citada, é ótima e promissora. Vamos torcer para que alguma se transforme em um novo Cacique de Ramos, também na Zona Norte e até hoje em funcionamento.
Francy Lisboa
30 de novembro de 2014 7:21 pmConcordo integralmente com o
Concordo integralmente com o seu comentário, Augusto. Mas como comentei acima, para que surjam novos caciques de Ramos é preciso abrir espaço não só para músicos, mas para os novos compositores. Nesse ponto, a história de que tem qu tocar o que o povo conhece não contribui em nada para que o samba se renove.
Abs
Augusto Diniz
30 de novembro de 2014 7:55 pmVamos lá, vamos fazer.
Vamos lá, vamos fazer. Realmente, achar que está realizando a melhor roda de samba porque tá todo mundo cantando “Você pagou com traição, a quem sempre lhe deu a mão”, não dá! Chega!
implacavel
30 de novembro de 2014 10:45 pmCaro Augusto
Talvez eu tenha sido ácido na minha crítica.
Concordo em parte com o que vc disse, apenas discordo quando diz que o nosso samba parou no tempo.
Falta é oportunidade para esses bons músicos aparecerem musicalmente.
Outro dia Bira Havai junto com alguns integrantes do Fundo de Quintal apareceram no Pagode da Chaleira em Maria da Graça e ficaram encantados com a qualidade dos músicos e dos compositores. Falta é chance para esse pessoal aparecer…. Em relação ao Casuariana é melhor deixar pra lá.
Augusto Diniz
30 de novembro de 2014 11:07 pmmaravilha
Maravilha. Vamos em frente. Bons sambas. Augusto
Gilson AS
30 de novembro de 2014 6:53 pmA turma do Cacique que alguns
A turma do Cacique que alguns já estão na casa dos 70 anos, é natural que diminuam o ritimo.
Agora, o pagode do Cacique aos domingo continua bombando, com a mesa composta só por musico jovens.
A frequencia também, mas de 90% são jovens.
Em relação à Lapa, o maior ícone de grupo musical acho que o é o Casuarina.
Não boa, os caras tocam direitinho ( redondo mas sem molho) tem uma plástica boa para TV etc tal.
Mas, se participarem de uma roda de samba autêntica dos suburbios cariocas, vão tomar vareio, vão passar vergonha.
Vão ter que colocar molho, arredondar os sambas que eles tocam.
O Casuarina é o melhor representante do sambista/pagodeiro coxinha.
Ouçam uma mesma música tocado pelo Casuarina e pelo Grupo Revelação, vocês vão entender o que eu quero dizer.
Em tempo, o líder do Casuarina é filho do Lenine.
morallis
30 de novembro de 2014 7:01 pmQuanto ao Casuarina, assisti
Quanto ao Casuarina, assisti tempos atrás e realmente voce ” matou a pau”..
é legal mas falta.
Francy Lisboa
30 de novembro de 2014 7:29 pmo Cozinha Arrumada e a necessidade de novos compositores
Muito pertinente o post. Mas creio que a escassez está na forma e não na falta de talentos. Há uma infinidade de pessoas talentosas fazendo samba da forma mais simples e, em minha opinião, mais encantadora: pagode de calçada. Nem entro no mérito da dicotomia que surgiu entre pagode e samba, pois ambos tratam da mesma coisa. Malditos anos 90 de Karametade e asseclas!
O saudoso Alcemir Gomes Basto, o Bandeira Brasil, certa vez disse em um programa de TV há alguns anos atrás que não se via mais os pagodes onde os compositores se apresentavam. A mensagem era clara: a padronização do samba, mesmo do chamado “samba de raíz”, está fazendo morrer a sensibilidade dos que gostam de samba para com os novos compositores.
Os jovens que perpetram essa tradição parecem não estar dispostos a tocar nada que saia do seleto grupo do que já foi feito. O erro começa aí. Não se perpetua uma tradição apenas por cantar e tocar o que já foi feito. Quantas rodas de samba no Rio de Janeiro abrem espaço para novos talentos na mesma proporção que era feito antigamente? Quando digo novos talentos, refiro-me aos anônimos que chegam devagarinho e tem um sem número de potenciais sambas em suas gavetas. Nem as mais badaladas rodas fazem isso. Há uma profissionalização que assusta. Ok, ok. É preciso dar um pouco de organização as coisas, mas isso não significaria limar o espaço para que novos nomes surjam.
Luz Carlos da Vila, o saudoso, tinha um artificio para conseguir introduzir seus sambas nas rodas lendárias do Cacique de Ramos e em outras ocasiões. Cantava sambas da Candeia, de Aniceto, entre outros, e no meio lançavam um samba seu. Até que alguém perguntava: Esse samba é seu? Sim. Então tira da gaveta! Não consigo imaginar pérolas como o Show tem que Continuar e Doce Refúgio de Luiz Carlos da Vila sendo tomadas pelos cupins do tempo em uma gaveta qualquer. Ou mesmo, quem pode imaginar Negra Ângela de Serginho Meriti; Até a Próxima Paixão de Nelson Rufino, entre os mais diversos sucessos do samba, sendo sambas renegados pela forma atual de padronização da manutenção da tradição? Aquela que toca, mas pouco espaço para novos compositores?
Notem que não se discute se o samba é ruim ou é bom, afinal, são em sua maioria bons até que se escute o contrário. Mas e o barco? Para onde vai? É preciso continuar enchendo o mar do samba com as águas de novas composições de calçada, do famoso pagode de calçada que antes era tão comum na baixada Fluminense e hoje está bastante resumido. Todo novo compositor tem o medo natural da rejeição. Mas esse medo se soma a incapacidade de enxergar o erro de se dar valor apenas ao que já foi feito. Fora alguns casos no grande universo que é o samba hoje, o famoso: “tira da gaveta” está cada vez mais raro. E o que isso cria?
O mais óbvio é a surgimento de castas, de grupos específicos de compositores que “se fizeram” com base na primeira geração da geração de sambistas intérpretes oriundos da vertente do pagode, como Luiz Ayrão, Roberto Ribeiro, por exemplo. Não há dúvida que aqueles compositores que viveram essa época áurea, que se aglutinou ao surgimento do Cacique de Ramos (Fundo de Quintal como o principal fruto), acabaram por marcar firme posição entre os principais interpretes, não só do Samba, mas na chamada MPB como um todo. Daí, qualquer novo compositor tendo na gaveta sucessos tão bons quanto os que a gente perpetra nas rodas de samba encontra impermeabilidade até mesmo em pagodes desconhecidos (não badalados e frequentados por medalhões).
Isso é interessante e lembra muito o processo que rege o mundo científico referente ao processo de publicação de pesquisa. Muitos novos pesquisadores-cientistas lançam mão de medalhões para atuarem como “vaselinas”, e assim conseguir emplacar suas pesquisas em periódicos de maior expressão, mesmo que esse novo cientista tenha conduzido o trabalho sozinho. Então se cria a seguinte situação: para que o novo compositor tenha alguma visibilidade ele deve buscar se associar a antigos compositores que fazem parte da “casta” surgida nos anos oitenta, ou ter a sorte de ser reconhecida em alguma das novas mídias sociais, coisa muito mais difícil.
Contudo, o pior não é o compositor se tornar famoso ou não, nãos e trata de ganhar dinheiro apenas e sabemos como é duro viver disso mesmo sendo da casta. O grande problema são as rodas de samba, em sua maioria, não darem ouvido para muitos potenciais sucessos simplesmente porque a tendência é se preservar o que se tocava e não o que se canta. Assim não tem como haver água para o moinho do Samba se perpetuar aquilo que a gente mais gosta, e adivinha o que é? Samba.
Enfim, eu e meus asseclas estamos firmes em um projeto para lançar uma roda de samba onde irá predominar as musicas autorias dos anônimos compositores. Entre eles o pessoa do Cozinha Arrumada os quais, mesmo ainda no começo, ão extremamente promissores
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Augusto Diniz
30 de novembro de 2014 7:46 pmAo Francy Lisboa
Concordo com você. Não existe espaço para novos sambas. Compositores há, e dos bons por aí. Isso é uma crítica geral. O pessoal da Lapa se apegou a trabalhos antigos para abrir espaço, mais ou menos como Luiz Carlos da Vila fez, conforme citou.
O seu projeto eu aplaudo. Precisa disso. O problema é segurar a roda, sem descambar para oba a oba – a pressão do público é grande. Vai alguém e pede: “toca aquela do Zeca”. Pô, que saco, como é que vou apresentar coisas novas? Isso acontece aos montes no Rio. Por isso que as rodas não andam, não aparece nada de novo.
Fazer roda é relativamente simples. O problema é inovar. E isso é um paradigma para o gênero se recriar, se renovar. Mas precisa ser feito. E já.
Abraço, Augusto
MdCSuingue
1 de dezembro de 2014 2:34 pmEnquanto o Rio (cidade)
Enquanto o Rio (cidade) chamava injustamente São Paulo de ‘o túmulo do samba’, não notava que essa arrogância e tradicionalismo exacerbado o estava transformando em o ‘museu do samba’.
Não se renovou, não dialogou nem com ‘os sambas’ do resto do país – porque ‘samba’ não é um, e nem é exclusivamente ‘carioca’ – e muito menos com suas raízes, o samba rural do Rio (estado), que está bem esquecido.
Mas temos que nos lembrar sempre que a arte é uma coisa dinâmica e sempre está se renovando em algum lugar, independente de estar sendo notada ou não. Talvez seja uma questão de ampliar o alcance de nossos olhos e ouvidos.
Augusto Diniz
1 de dezembro de 2014 3:33 pmEnquanto isso
Caro, estou de acordo. Com certeza ele está se renovando – e vou mais além, em São Paulo percebo isso de forma mais evidente. Augusto