10 de junho de 2026

Ciro, o PT Nacional e o risco de obsolescência programada na política, por Túlio Muniz

Se não declarasse apoio a Lula no segundo turno, o PDT poderia vir a ter o mesmo fim do PSDB nacional

Ciro, o PT Nacional e o risco de obsolescência programada na política.

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por Túlio Muniz

A postura e posicionamento político erráticos de Ciro Gomes têm de ser assimilados pelo centro e pela esquerda como uma lição que está para além do resultado do primeiro turno.

Ciro, há tempos, é um mitômano compulsivo, que de tanto propagar inverdades acaba por crer nelas como sendo realidade. Em termos políticos e administrativos, Ciro deixou de ter expressividade desde quando abandonou o Ministério do primeiro mandato de Lula para se eleger deputado federal em 2006 com a maior votação proporcional de então, mandato que cumpriu mal e incautamente, desdenhando da atividade parlamentar e da importância de negociar politicamente no Congresso, o que já denotava uma inclinação autoritária que se evidenciou neste 2022. Pior, desdenhou dos votos dos cearenses, que agora o fazem pisar no chão com a cautela que exige o caminhar pelo solo do semi árido.

E pra não esquecer da omissão no segundo turno de 2018, a fuga para Paris…

No cálculo político regional neste ano, Ciro demonstrou-se um desastre tamanho. A convenção do PDT, conduzida por ele, tomou a vaga da governadora Isolda Cela (então no PDT) na disputa da reeleição e demoliu uma aliança longeva com o PT, que já deixara evidente que não apoiaria outra candidatura que não fosse a de Isolda. Mas Ciro fez algo ainda pior: impôs a candidatura de Roberto Cláudio (o RC), ex-prefeito de Fortaleza, que em 2020 só conseguiu eleger seu sucessor, José Sarto, num segundo turno disputadíssimo com o bolsonarista Capitão Wagner.

Até o PSOL fortalezense apoiou Sarto no segundo turno contra a extrema direita, e o pedetista venceu por 51% a 48%, no que o 1% que o PSOL teve no primeiro turno ajudou bastante, porque, sozinho, RC não teria feito um aliado como sucessor, que tem um mandato mal avaliado justo quando seu padrinho RC mais precisou dele, no momento da disputa do governo. O que explica Wagner (UB) ter sido o mais votado na capital neste primeiro turno. Inexplicável é Ciro não ter considerado esse histórico recentíssimo ao impor RC.

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 Ciro idealizou e provocou uma tempestade perfeita no PDT cearense e nacional, e não pode argumentar que o PT foi quem a causou. Tanto que, pela primeira vez se  viu os próprios irmãos, Cid (senador) e Ivo (prefeito de Sobral, maior cidade do Norte cearense), que ingressaram na política na esteira do irmão mais velho, se distanciarem dele na disputa regional. Por mais bem intencionados que sejam os ciristas que foram com ele até o fim (e são muitos, e importantes), Ciro sai arrasado com 3% de votos na disputa nacional, e ainda mais humilhado no Ceará, onde teve 6% dos votos.

Enfim, ou Ciro muda de vez ou será o maior exemplo de obsolescência programada na política brasileira. Ele só não termina a disputa na condição de dispensável, de ‘bode na sala’, a quem ninguém quer por perto, porque o PDT ainda é uma força política a ser considerada e resgatada. Os cearenses o puniram e talvez ele lhes deva ser grato, pois é sua última chance de corrigir equívocos e retomar o caminho da ética e sensatez política que se demonstra bastante presente nas práticas de seus irmãos que,mais jovens que ele e ainda com tempo pela frente, se demarcaram.

Se não declarasse apoio a Lula no segundo turno, o PDT poderia vir a ter o mesmo fim do PSDB nacional que, bem notou Guilherme Boulos no Roda Viva de 03 de Outubro, desapareceu, tendo eleito bancada menor que a da aliança PSOL-REDE na Câmara. Ciro teria assegurado que neste ano se engajará na campanha contra Bolsonaro, segundo Carlos Lupi. A conferir.

 Aliás, em termos regionais, Ciro devia se mirar no seu criador, Tasso Jereissati, tucano de lustrosa plumagem que não tem mais prestígio para eleger sequer um deputado federal e cujo partido ocupará apenas uma cadeira em 46 na Assembleia Legislativa do Ceará. Tasso serviria de ‘bom’ exemplo a Ciro no timing de posicionamento eleitoral: no dia seguinte à confirmação da vantagem de Lula, o tucano lhe declarou apoio com o argumento obvio de que se trata de defesa da democracia.

O PT Nacional, com foco no PT paulista, têm muito a aprender com essa trajetória de auto-sabotagem de Ciro – e do PDT , porque, a bem da verdade, Lupi endossou tudo o que Ciro fez.

Há muito de auto-celebração entre dirigentes petistas paulistas que ainda se pensam lideranças, mas cujo desempenho e conjecturações não mais resultam em votos. As decisões que dão rumo à boa parte das ações do PT saem de São Paulo, onde o senador eleito e o primeiro colocado no primeiro turno são aliados da extrema direita, e o PT não cumpriu automaticamente a expectativa de ‘sucessor natural’ do PSDB paulista quando este finalmente é arriado do poder depois de três décadas.

 Voto massivo consolidado como majoritariamente petista (e lulista), está no Nordeste,  o que é confirmado pelas eleições presidenciais desde a redemocratização. O risco de o partido não descentralizar-se, não ‘nordestinar-se’ em suas instâncias decisórias é o PT, no governo, depender de estar sempre a reboque de alianças à direita e não implementar mudanças estruturais que o pais exige, como a Reforma Agrária, os Direitos Humanos (sobretudo acertar o passado com a Ditadura), como assegurar definitivamente a inviolabilidade das  reservas dos povos originários, a revisão da política de drogas, regulação da mídia, aborto, o racismo, e tantas outras. 

Conforme Luís Nassif notou em dado momento de seu artigo “Xadrez das eleições mais relevantes da história”, ou o PT o faz ou não se livra da armadilha que faz com que “os problemas surgem nas tentativas de ceder em dois pontos centrais: concessões na área econômica – para conquistar mercado – e na pauta moral – para atrair evangélicos”. (em https://jornalggn.com.br/coluna-economica/xadrez-das-eleicoes-mais-relevantes-da-historia-por-luis-nassif/).

Ainda que a contragosto de parte do eleitorado (talvez mesmo da maioria) e de dirigentes de seu próprio partido, o fato de Lula anunciar que não pretende a reeleição talvez contribua para que ele leve a cabo ações que de fato coloquem o Brasil numa alternativa progressista, à la Mujica, sob cujo governo foram  descriminalizados o aborto e o uso recreativo  da maconha no Uruguai, mesmo sendo  medidas impopulares, e, contudo, necessárias: o país vizinho praticamente zerou número de mortes por aborto clandestino ou pelo tráfico de drogas.

 As pautas morais e estruturais têm que ser assumidas no Brasil, e pela esquerda, sob risco de sucumbir à obsolescência política, e a direção a seguir é ao contrário da guinada evangélica cirista (que buscou proximidade do Cabo Daciolo, por exemplo) e da tibieza do PT acerca desses temas.

A ausência de liderança ‘natural’ petista que venha, em breve, a ocupar o lugar de Lula obrigará o partido a ser mais ousado. Porque se a extrema direita cresce, a esquerda também apresenta alternativas fora do PT, e os mais de um milhão de votos meritoriamente obtidos por Boulos o comprovam.

Túlio Muniz. Historiador (com Graduação e Mestrado pela Universidade Federal do Ceará), com Doutorado na Área de Sociologia , em Pós-Colonialismo e Cidadania Global, pelo Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia (CES-FEUC) da Universidade de Coimbra. É Professor Adjunto na Faculdade de Educação (FACED-UFC). Também é Jornalista Profissional

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