5 de junho de 2026

Aos poucos geração do Cacique de Ramos vai deixando a cena musical

Éfson, falecido no último dia 5, é mais um da geração talentosa do Cacique de Ramos que se foi. De 2007 para cá, pelo menos nove sambistas da famosa roda de samba da Zona Norte do Rio deixaram a cena musical.

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Parte desses sambistas não chegou a fazer sucesso, apesar de ter tido composições gravadas por artistas do mainstream. Outros construíram carreira sólida. Todos eram frequentadores de rodas de samba que se proliferaram no Rio nas últimas duas décadas.

Na lista dos que se foram nos últimos anos e pertenceram a turma do Cacique de Ramos, estão Claudio Camunguelo, Luiz Carlos da Vila, Deni de Lima, Ratinho, Bandeira Brasil, Renatinho Partideiro, Délcio Carvalho, Carlinhos Doutor e, agora, Éfson.

Claudio Camunguelo (1947-2007), com sua estatura de estivador, se apresentava com sua inseparável flauta, instrumento de sopro que dava brilho às rodas de samba. A cantora Elza Soares deu voz a um de seus sambas, mas  era conhecido no meio pela bela interpretação da música “Gurufim” (ouça aqui).

Luiz Carlos da Vila (1949-2008) foi um dois mais brilhantes compositores da turma do Cacique de Ramos. Tive a oportunidade de produzi-lo algumas vezes. Chegou a fazer uma música em homenagem ao bloco chamada “Doce Refúgio” (ouça abaixo).

https://www.youtube.com/watch?v=DJU8tkPdshU

A cantora Simone gravou seu samba “Por um dia de graça”, que deu grande impulso a carreira dela. Certa vez Luiz Carlos me contou que Simone, em uma fase de descendência na carreira, telefonou para lhe perguntar se ele não tinha nenhuma composição semelhante. O compositor respondeu: “Não se faz samba assim a toda hora”.

Deni de Lima (1961-2010) frequentou o Cacique de Ramos desde seu começo. Grande partideiro, chegou a lançar dois discos. É autor de “Macumba da nega”, entre outros sambas.

Ratinho (1948-2010) teve composições de sucesso (em parceria com Monarco) gravadas por Zeca Pagodinho, como “Vai Vadiar” e “Coração em Desalinho”. Nascido em Portugal, criou até um encontro do gênero em sua casa, a Toca do Rato. No final da vida confidenciava que se dedicaria a profissão de advogado para lutar pelos direitos autorais. No ano de sua morte lançou um cd independente.

Bandeira Brasil (1950-2013), que também chegou a lançar um disco independente, costumava narrar suas andanças com a turma do Cacique. Muitas delas com Zeca Pagodinho, amigo de longa data e que acabou gravando algumas de suas composições – ele repetidamente dizia que o artista o ajudou a “sair do vermelho”. Mas a gravação de sua música “Ópio” (em parceria com Cléber Augusto) nos tempos áureos do Fundo de Quintal é o auge (ouça aqui)

Segundo Bandeira me contou nas diversas ocasiões em que esteve em minha casa em São Paulo, na primeira vez que Zeca Pagodinho foi levar uma fita demo com músicas a uma gravadora, o seu receio era tanto, que ele quase desistiu de entregar o trabalho, se escondendo debaixo da escada antes de se dirigir a uma sala. E reclamou aos amigos: “Não quero isso para mim não. Vamos embora daqui”. Quem dirigia o carro dessa turma pelos subúrbios do Rio, de acordo com Bandeira, era Beto Sem Braço – mesmo sem o braço direito. O compositor do Império Serrano tinha desenvoltura em andar em comunidades da Zona Norte.

Renatinho Partideiro (1962-2013) foi o melhor versador de roda de samba nos últimos tempos e bateu cartão nas rodas do Cacique de Ramos até a sua morte. Voz fina para um cantor de samba, a sua dicção era identificável a distância considerável, mesmo no zum zum zum das roda de samba. Tornou-se um ícone em criar versos de improviso deixando, porém, pouca coisa registrada, como uma participação em um dos discos de Beth Carvalho.

Délcio Carvalho (1939-2013) ficou conhecido como parceiro musical de Dona Ivone Lara em vários sucessos. Mas desenvolveu um trabalho sólido muito além das composições feitas com Dona Ivone. A música “Dor de Amor”, em parceria com Dedé da Portela, registrado por Roberto Ribeiro, é um dos maiores sambas já gravados de todos os tempos (ouça aqui).

Carlinhos Doutor (falecido em 2013) era cavaquinista da banda de Zeca Pagodinho no início de sua carreira. Depois, passou a organizar rodas de samba no Rio, algumas delas realizadas de forma acústica (sem caixa de som), o que exigia que todos cantassem, como nos velhos tempos.

Éfson (1944-2014) era inconfundível. Na hora de cantar na roda, não dispensava subir em uma cadeira para ser visto. Gravou este belo samba seu no primeiro cd do Renascença Samba Clube (ouça aqui). Jorge Aragão registrou esta música em disco.

Esses sambistas surgidos na geração talentosa do Cacique de Ramos farão muita falta ao gênero. Não há indícios de que serão substituídos a curto prazo.

www.augustodiniz.com.br

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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