O editorial de O Globo foi fulminante: “Ao se reconcilicar com Bolsonaro, Moro joga por terra legado anticorrupção”. O veredito é definitivo:
“Ao aparecer ao lado de Bolsonaro na campanha eleitoral, ele (Moro) deixa evidente sua parcialidade nos julgamentos contra Lula, que levou à anulação dos processos contra o ex-presidente no Supremo Tribunal Federal”.
O do Estadão não foi mais ameno: “Moro, o inimigo da Lava Jato”.
“Ao ignorar os muitos indícios de lavagem de dinheiro envolvendo a família Bolsonaro – 51 imóveis cuja compra envolveu dinheiro vivo –, Sérgio Moro ajudou a reforçar a tese dos detratores da Lava Jato: a de que as lideranças da Operação nunca estiveram de fato interessadas no cumprimento da lei, mas apenas em perseguir opositores políticos.”
Essa conversão na estrada de Damasco é curiosa, pois ocorre simultaneamente, em cima de um fato óbvio, nítido desde os primeiros meses da Lava Jato. Mas, antes, o jogo era a favor.
A mídia cai em si porque nos próximos dias estará em jogo o destino da democracia no Brasil, e ambos os jornais se deram conta disso tardiamente.
Nos últimos anos, houve um aumento exponencial das notícias falsas, espalhadas não apenas por redes sociais mas por veículos tradicionais. E esse modelo de interferência na política nasceu com a Lava Jato, alimentada pelas manchetes da mídia, por notícias falsas e por seu papel de repassadora de releases da Lava Jato.
É uma miopia considerável de um fenômeno global, que ameaça a própria mídia. Em seminário recente, o especialista espanhol em desinformação Ramón Salaverría alertou que o jornalismo pode estar à beira de um “precipício profissional”. O alerta ocorreu em um seminário da Universidade de Navarra, que se tornou uma espécie de referencial ideológico da mídia tradicional brasileira.
O ponto central de ameaça são os algoritmos utilizados, privilegiando a audiência e os cliques. Registre-se que esse padrão afeta não apenas os algoritmos da rede mas os algoritmos cerebrais do jornalismo atualmente praticado.
“Os conteúdos falsos tendem a difundir-se mais, têm mais visibilidade e por isso temos de estar muito atentos quando usamos este tipo de tecnologia”, afirmou.
Suas sugestões são meramente tecnológicas, o uso da Inteligência Artificial desenvolvendo padrões de análises que permitam identificar notícias falsas, rumores e boatos.
No caso brasileiro, o buraco é mais embaixo. Foram abandonados até critérios jornalísticos básicos, em favor da militância política dos veículos de mídia.
Não se vá reinventar a história da imprensa. Historicamente, os veículos sempre serviram a grupos políticos e econômicos, mantendo sob controle o mercado de opinião.
As agências de notícias e, depois, as redes de rádio e televisão, ajudaram a criar uma opinião pública relativamente uniforme, com poucas variações em torno de temas centrais, e bastante manipuladas: é só conferir a maneira como foi imposta a ideologia do ultraliberalismo.
Em dois momentos houve um terremoto no mercado de opinião: a entrada do rádio, nos anos 20, e, agora, das redes sociais. Há uma quebra na homogeneização do mercado de opinião, surgem novos atores, os locutores dos anos 20, os influencers e abre-se espaço para manipulações. A estratégia de Goebbels, nos anos 20, foi repetida com competência pelos algoritmos da ultra direita nas redes sociais. Dá-se um tratamento específico para cada bolha, criando uma aproximação com o usuário impossível nos veículos de mídia convencionais. E ainda tornando-o protagonista-palpiteiro dos temas tratados.
A partir daí, criam-se diversas armadilhas para o jornalismo. Uma das funções mais nobres do jornalismo seria se constituir em espaço de mediação. Em ambientes polarizados, o distanciamento ideológico passa a ser mal vista por todos os lados.
Além disso, a visão inicial das redes sociais como um novo “ágora” – o espaço público de discussões que originou a democracia grega.
Como constatou o seminário, muitas das vozes que se ouvem neste espaço são artificiais, feitas expressamente para incrementar a ressonância da mensagem, com grupos coordenados para as ampliar através dos algoritmos.
Quando o veículo de mídia entra nesse jogo – como foi o caso da Jovem Pan – cria-se um total curto-circuito, acabam os limites entre fake news de redes sociais e mentiras jornalísticas. E, aí, entra em cena uma praga brasileira: o corporativismo jornalístico.
O passo mais maduro das associações de jornais, rádios e televisões, seria a criação de um código de ética e de sistemas de auto-regulação. Em fins dos anos 90, ameaçada por um projeto de lei draconiano, a mídia acenou com essas possibilidades. Foi só haver um recuo na tramitação do PL para se voltar atrás, permitindo toda sorte de abusos.
Naldo
21 de outubro de 2022 7:28 amMorreram, falta enterrar… ressurreição só na Bíblia, esses jornalecos já eram, não tem volta, vão ficar vagando enquanto ainda estiverem dispostos a oferecer patrocínio, quando a fonte secar virarão pó definitivamente…
Renato Cruz
21 de outubro de 2022 8:46 amBolsonaro será reeleito daqui a a 10 dias. Não há mais como conter a contínua sangria de votos do Lula e a onda crescente de votos para o capitão. Esse fato deve ser entendido historicamente, como um processo histórico levado adiante por metade da sociedade brasileira. Para mim, é uma revolução conservadora que começou a nascer lá atrás, em 1989, quando um vigarista de Alagoas saiu do anonimato com um discurso anti Estado, embrulhado na retórica da “caça aos marajás”. Numa longa entrevista ao Ópera Mundi, o filósofo Paulo Arantes explica detalhadamente essa “emergência dos milhões de pequenos empreendedores que odeiam e repelem o Estado”. Essa é razão essencial que explica o fato de Bolsonaro poder falar e fazer as maiores barbaridades, incluindo pedofilia, mas nunca perder votos, pelo contrário, só ganha mais e mais eleitores.
A partir de segunda-feira dia 31, o que restará às forças de esquerda e progressistas de modo geral é entender esse novo Brasil, repensar o país em profundidade e procurar caminhos de sobrevivência e luta nos tempos sombrios e desconhecidos à nossa frente. Serão completamente indiferentes, como já tem sido há quatro anos, os humores e posições dos grandes jornais, Bolsonaro não precisa deles para nada, como já ficou provado. Então, como será a vida nesse novo mundo? É só isso que deve nos preocupar.
Fábio de Oliveira Ribeiro
21 de outubro de 2022 8:51 amDiscordo Nassif. A principal característica da Lava Jato foi a corrupção dos princípios constitucionais do Direito Penal e a politização do processo penal (isso para não mencionar aquela história da multa bilionária que os procuradores queriam tungar da União). Não existe um legado de combate à corrupção que mereça ser elogiado. Ao tentar recriar a aura de santidade da Lava Jato, os jornalões estão apenas preparando terreno para que algo parecido volte a ocorrer no futuro se Lula for eleito. Se Bolsonaro for reeleito é evidente que isso NÃO acontecerá e ninguém na imprensa irá reclamar realmente da corrupção bolsonarista. A direita brasileira convive com a corrupção. A corrupção real ou inventada somente se torna relevante quando a esquerda está no poder.
Renato Cruz
21 de outubro de 2022 9:02 amUm ponto que me chamou atenção nessa campanha é como a esquerda não consegue sair de um modo de luta que já morreu. O sociólogo de esquerda Boaventura de Sousa Santos deu entrevista após o primeiro turno convocando a militância de esquerda a “tomar as ruas”, e assim repetem diariamente os colunistas do Brasil 247, pedem “a esquerda nas ruas”. Isso é velho, essa forma de luta vem da Revolução Francesa e da Comuna de Paris, e mais especialmente da Revolução Bolchevique. Acabou, não serve mais. A luta agora é feita nas redes, no Whatsupp, no Instagram, no Facebook, no YouTube, nos blogs, nos sites, na internet em suma. A esquerda está tão perdida nesse campo de batalha, que quem mais fez por Lula foram dois estranhos, Felipe Neto e André Janones.
A Era das Indústrias morreu, a Classe Operária foi varrida pelo vento.
Rui
21 de outubro de 2022 10:12 am“A presença do Moro como assessor do Bolsonaro no debate só mostra uma coisa: o alvo dele sempre foi o Lula. E que ele depois de ter falado tudo isso do Bolsonaro, voltar a apoiar o Bolsonaro para derrotar o Lula é um atestado de que ele desde o início estava com esse objetivo”. – Merval Pereira
Finalmente a imprensa abriu os olhos. Antes tarde do que nunca.
Antonio Uchoa Neto
21 de outubro de 2022 10:23 amAcredito piamente que um punhado de bravos jornalistas independentes, como o Nassif e mais dois ou três, tenham como parâmetro moral exercer funções nobres, dentro do jornalismo profissional. Mas isso é conto da carochinha, no que diz respeito às corporações de mídia, que precisam lucrar, em primeiro lugar, e informar, em segundo plano, desde que isso possa se converter em ganhos, de qualquer natureza, ou seja: lucro. Vá falar de ética e solidariedade, de questões sociais, para essa gente, e eles não perguntarão “quantas divisões essa gente tem?’, e sim, “quanto dinheiro essa gente tem, para comprar nossos produtos e consumir nossos serviços? Nenhum? Então, que se danem.” Verdade não vende jornal nem gera cliques e compartilhamentos. Já a mentira (aquela que deve sempre ser publicada, e não a verdade, como já dizia John Ford, porque é mais chamativa e vende mais) tem sustentado impérios (reais e de mídia) por décadas – está havendo apenas uma passagem de bastão, da mídia corporativa tradicional para a mídia corporativa algorítimica – ou seja, tudo mudou, para poder permanecer sendo a mesma coisa.
Também acredito que premissas falsas – tais como a de que a ‘ágora’ possibilitava o pleno exercício da democracia grega – levam a conclusões falhas: nunca houve uma democracia grega (como não as há americana, francesa, inglesa, ou em qualquer outra parte do mundo), as ágoras eram o que hoje são as audiências públicas locais, para discutir asfaltamento de vias públicas, melhorias no transporte e esgotamento sanitário, etc.; as questões relevantes (políticas, econômicas, relações externas, etc.) foram, são, e sempre serão daqueles que ocupam o topo da pirâmide social, das oligarquias nacionais.
O passo mais maduro das associações de jornais, rádios e televisões, seria reconhecer que seu tempo passou, e se vender (literalmente) logo, enquanto ainda há o que vender, aos novos gigantes corporativos, e curtir o resto da vida como um peixinho nadando ao lado do grande tubarão branco, evitando assim ser totalmente deglutida pelo bichão.
A televisão condicionava e manipulava; o google vai além disso, e também rastreia e vigia. O Big Brother de Orwell é hoje (além de – suprema ironia – um programa de televisão de sucesso que não é coercitivo, como seu homônimo, mas sedutor, e isso explica muita coisa sobre nosso mundo, hoje) uma disneylândia obsoleta. Os barões da mídia não tem mais empregados, somente acólitos, e o fascismo, sob sua nova roupagem tecnológica, virtual e algorítmica, em vez de ficar repetindo, com intenção apenas e tão somente irônica, como os esquerdistas, aquela velha frase – “não compre jornais, minta você mesmo” – colocou-a em prática. E com sucesso invejável.
A Lavajato soma-se ao imenso lixão de bagaços de laranja do Capitalismo (em nomenclatura política: Direita), lixão a céu aberto, podre, mas repleto de boas intenções: o único inferno que realmente existe.
Há cerca de 50 milhões de fascistas nesse país – senão em consciência, ao menos em voto. Uma população de país europeu rico. Pode ser que os outros 150 milhões não o sejam – não sei. Creio que os fascistas sejam minoria. Mas fazem muito mais barulho do que o restante, que se divide em apáticos, desinteressados, toda sorte de isentões, além dos ignorantes, pura e simplesmente.
É esta a maior obra da nossa heterogênea porém diminuta oligarquia: manter quase 3/4 de uma população na mais completa apatia e indiferença. E dar trela aos seus parasitas, a troco de umas poucas gotinhas de seu sangue.
Para a lavajato, os versos de Augusto dos Anjos:
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Vladimir
21 de outubro de 2022 11:07 amA mídia golpista serve o praguejamento sempre lembrado por minha falecida avó: aqui na terra de faz, aqui se paga.
Francisco Santos
21 de outubro de 2022 11:39 amA mídia tradicional está morta, vide Jovem Pan, CNN e Globo News com seus comentaristas azedos e parciais
Nas mídias digitais a situação também é desesperadora com comentaristas de opinião em que até um nabo tem uma inteligência maior
Estamos perdidos e a única coisa que nos salva do arraso total é nossa capacidade de discernimento crítico e intelectual que filtra as porcarias jogadas a cada milésimo de segundo nas nossas mentes
A mídia tradicional está morta
Viva à mídia tradicional
Vicente Ferreira
21 de outubro de 2022 1:01 pmComo sempre você foi no alvo.Parabens.
Odenir
21 de outubro de 2022 1:22 pmTalvez não seja apenas isso:
“A mídia cai em si porque nos próximos dias estará em jogo o destino da democracia no Brasil, e ambos os jornais se deram conta disso tardiamente”.
A imprensa quis se descolar da verdade nua e crua. Naquele momento o rei estava nú. E a imprensa seria cúmplice.
MAURICIO NOBORU FUJIYAMA
21 de outubro de 2022 3:12 pmPor que não “perceberam” quando Moro aceitou o ministério da justiça? Os jornalões são os mesmos que incentivaram o golpe de 64, e certamente não ficou nenhum aprendizado. A questão é que os jornalões foram deixados de lado pela turba bolsonarista e, estando do lado “de fora” do golpe, desta vez, o buraco é mais embaixo… até porque poderá ser um “golpe constitucional “!
Lucy Linhares
22 de outubro de 2022 7:20 pmTanto O Globo como o Estadão apoiaram a ditadura e depois pediram desculpas. Apoiaram o golpe contra a Dilma e apoiaram a Lava Jato, e agora precisam pedir desculpas novamente. É uma vergonha!
Gustavo Costa Lima
22 de outubro de 2022 10:38 pmSobre o império da lava jato não esqueçam da conivência da quase totalidade do STF, em especial, os ministros, Barroso, In Fux we trust, do Fachin, Toffoli que se dizia amigo pessoal do presidente, do próprio Gilmar que depois tentou se redimir. Um país que não pode contar com os supostos guardiães da Constituição está perdido.
sergio
24 de outubro de 2022 3:23 pmEstes atores (jornais, tv, imprensa, PF, STF …) estão vão todos serem engolidos pelo monstro que eles mesmo criaram. Os leitões devorando os Porcos.
Leonardo Marques Francisco
25 de outubro de 2022 2:44 pmO inferno são os outros. É vergonhoso a campanha que CIRO GOMES fez contra LULA e o PT, do tipo “esquerda caviar” “que cheira COCAÍNA”. E não é de agora. Depois da fuga para PARIS, o cara voltou e é recebido com tapete vermelho e flores por setores da mídia que se diz de esquerda. Exemplo lamentável, é Carta Capital do italianinho chauvinista MINO CARTA. Ciro sempre teve espaço para escrever… já FERNANDO HADAD não, não e renão!!! Bem, segundo o MINO, o ” MASP é maior que o Brasil”. E por quê MINO? Porque foi construído por dois patrícios meus, ponto. Agora vocês, NASSIF e Cia. assistem constrangidos o silêncio eloquente do coronel decadente CIRÃO DAS MASSAS.
Sobre a personalidade de Ciro releiam o lapidar tuíte (sic) do jornalista LIRA NETO.Lira é de um precisão cirúrgica: Sou cearense. Nascido em Fortaleza. Portanto, nasci em um estado que foi governado por Ciro. Nasci em uma cidade que foi administrada por Ciro. Mas não reconheço este bicho de peçonha em que se transformou Ciro Gomes.
Ciro reúne, em si, representação mais atrasada do patriarcado latifundiário cearense, do qual é originário, confeitado por verniz moderno, urbano, que nunca perdeu conexões com o poder de mando. Recente conversão ao discurso moralista, direitista, merece investigação acadêmica. Sim, Ciro Gomes sempre foi truculento, de maus modos, mas nosso machismo cearense sempre interpretou isso como virtude de um “cabra macho”
adauto
30 de outubro de 2022 9:31 pmUma coisa a campanha de lula e Bolsonaro mostrou, que não precisou da velha mídia ,que ficou deslocada na campanha politica.