
Artigo do Brasil Debate
Por Pedro Paulo Zahluth Bastos* e Marcio Pochmann**
O abuso da retórica da cientificidade como recurso de poder é comum entre neoliberais que travestem a opção política como julgamento neutro. O nível de autoengano, para dizer o mínimo, chegou a extremos em artigo recente de Samuel Pessôa (Folha, 12/10).
O físico-economista alude à genética de Bruna Marquezine para defender que progressos no bem-estar social dos brasileiros devem-se ou à “evolução natural” da sociedade ou a reformas de Fernando Henrique Cardoso que, no fundo, teriam semeado os avanços colhidos por Lula e Dilma. Pessôa alega que a retórica petista “descontextualiza” FHC e distorce informações para favorecer Lula e Dilma.
Na verdade, é Pessôa quem omite informações, recorre a truques de retórica e distorce a realidade visando ao melhor efeito político para o PSDB.
A principal omissão é que FHC executou a plataforma neoliberal de ampliar o papel do mercado e da competição para selecionar os melhores e punir preguiçosos, prometendo crescimento: privatização de estatais, desregulamentação do mercado de trabalho e liberalização comercial e financeira.
A promessa era falsa: a renda domiciliar per capita caiu entre 1995 e 2002, segundo dados do IBGE (Pnad), tendo aumentado mais de 50% a partir de 2003, com a recuperação do papel do Estado com Lula e Dilma. A melhoria de outros indicadores tampouco resultou da “evolução natural”, a saber:
1. Desigualdade (Gini): enquanto se manteve estável com FHC, caiu 10% com Lula e Dilma diante da valorização do salário mínimo, da defesa e formalização do emprego e ampliação do gasto social, que explicam a queda muito mais do que o avanço “natural” da educação e da demografia;
2. A propósito de progresso educacional, em 2001 FHC vetou o 1º Plano Nacional de Educação (PNE), que determinava investimentos de 7% do PIB até 2010, deixou o País sem meta de financiamento e concluiu mandato com 3,5% do PIB; em 2014, Dilma aplica 6,4% do PIB em educação e sanciona o 2º PNE com destino de 10% do PIB até 2024.
3. Sobre demografia, Pessôa alude a um conceito vago para explicar seu impacto na queda do desemprego: a “transição demográfica”. Talvez se refira à queda da natalidade e o envelhecimento da população, mas a verdade é que isso ainda não esgotou o bônus demográfico (maior proporção de pessoas em idade ativa), pois os adultos nascidos na vigência de taxas mais altas de crescimento populacional ainda não se aposentaram. Ao contrário de reduzir o desemprego, isso o aumentaria caso a oferta de empregos não tivesse aumentado e, principalmente, se não houvesse intensa inserção de jovens à escola, atrasando sua entrada no mercado de trabalho!
De fato, Pessôa omite a significativa ampliação das transferências de renda condicionadas à matrícula escolar, além de bolsas e crédito subsidiado para ensino técnico e universitário e a criação de 18 novas universidades federais (contra zero com FHC) e 178 novos campi. Com isso, as matrículas no ensino superior elevaram-se de 2 milhões (2002) para 7,5 milhões (2014), complementados por 8 milhões de alunos no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec): produto da evolução natural?
4. Pessôa alega que mais da metade do crescimento da dívida pública com FHC resultou da assunção de dívidas passadas não contabilizadas. Isso é pura invenção: a “assunção de dívidas” explica menos de 10% da dívida e foi compensada em dobro (!) pela venda de estatais e a elevação de impostos. O que explode a dívida são juros altos e títulos indexados em dólar para evitar a crise da âncora cambial antes da reeleição de FHC em 1998. No próprio estudo do IPEA citado por Pessôa, correção cambial e juros altos contribuem com mais do que 100% da multiplicação da dívida por cinco entre 1995 e 2002! A dívida só não se elevou mais por causa das privatizações e do superávit primário depois de 1998.
5. Três idas ao FMI: Pessôa cita artigo de M. Bolle que, à maneira de Goebbels, não chama as coisas pelo nome e alega que empréstimos do FMI não indicam que o Brasil “quebrou”, pois “facilitaram a empreitada” da inclusão social. Por que “quebrar” designaria o fato de não obter financiamento do FMI e decretar moratória, ao invés de precisar dele a ponto de, no desespero, realizar políticas que levaram o desemprego a 15% e prometer vender o Banco do Brasil, a Caixa e as demais empresas estatais ainda não privatizadas, inclusive a PetrobraX?
6. Sobre o desemprego, Pessôa incorre naquilo de que acusa o PT: o “truque retórico de escolher estatísticas e bases de comparação de forma oportunista”. Em 2011, ele escreveu que, “entre julho de 2003 e julho de 2011, a taxa de desemprego caiu mais de 50% (!), apresentando redução de 13% da população economicamente ativa para 6,2%”, citando dados de regiões metropolitanas captadas pela Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE. No domingo, usou a PNAD para afirmar que “se tomarmos como base de comparação 2002, último ano de FHC, o desemprego caiu 2,6 pontos percentuais (!), de 9,1% para 6,5%”, sem sequer discutir que a PNAD capta menos a “transição demográfica” que cita. Ora, 50% ou 2,6%? É provável que a diferença no modo de calcular a redução do desemprego em 2011 e em 2014 se deva a oportunismo político e truque de retórica, não?
A piada sem graça não é que a retórica petista se aproprie da “evolução natural” de Bruna Marquezine, mas que seus críticos precisem se iludir quanto à rejeição da “herança natural” do neoliberalismo tucano por Lula e Dilma.
* Pedro Paulo Zahluth Bastos é professor associado (Livre Docente) do Instituto de Economia da Unicamp e ex-presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (ABPHE)
** Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas
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Marcos K
17 de outubro de 2014 5:27 pmAinda não foi cunhada uma
Ainda não foi cunhada uma palavra suficientemente capaz de caracterizar os neoliberais, bem como o seu caráter nefasto e maligno. Só sei que tenho pavor dessa gente.
anab
17 de outubro de 2014 10:50 pmFoi sim: JUDAS, JOAQUIM
Foi sim: JUDAS, JOAQUIM SILVERIO DOS REIS.
altamiro souza
17 de outubro de 2014 5:27 pmos truques de retórica da
os truques de retórica da alta tucanagem
são esses e outros, geralmente culpando o outro.
o diabo é o outro, como dizia sartre.
Edsonmarcon
17 de outubro de 2014 5:31 pmA Evolução Natural dos Tucanos
Caetano.
17 de outubro de 2014 5:35 pmArtigo simplesmente
Artigo simplesmente mentiroso. Não esperava isso de pessoa pretensamente conceituada como o sr. Pochman. Quero saber onde está escrito ou em que declaração FHC “prometeu vender Banco do Brasil, Caixa e demais empresas estatais ainda não privatizadas, inclusive a Petrobras”.
Um país associa-se ao FMI para, se necessário, recorrer a ele; isso não é quebrar.
Raul Abreu Leite
17 de outubro de 2014 8:10 pmOnde está escrito?
Eu costumava ver aqui:
http://www.fazenda.gov.br/portugues/fmi/fmimpe02.asp
Agora que “sumiu”, pode ver por aqui:
http://1.bp.blogspot.com/_Nj7k-NFjuzA/S4N1WZke7VI/AAAAAAAAETA/5BN75apXiXE/s1600/fmi_privatizacao.jpg
Mas é a lógica em que as coisas estavam encaminhando, não ia dar outra.
André LB
18 de outubro de 2014 1:28 pmMentiroso onde, colega???
Mentiroso onde, colega???
Quanto ao FMI, o que vocÊ diz é o mesmo que tirar um empréstimo no banco só pra bater papo com o gerente. E empréstimo pra cobrir dívidas é o quê, é sinal de prosperidade? Não vá tucanar a falência.
Charles Harnack
17 de outubro de 2014 7:09 pmOLHANDO A FOTO, FICO
OLHANDO A FOTO, FICO IMAGINANDO O BAFO DE MINGAU COALHADO.
Fabio.
17 de outubro de 2014 7:40 pmEm relação a Valle do Rio
Em relação a Valle do Rio Doce, se alguem souber da situação da empresa agora, ajudaria entender algumas privatizações que funcionaram ou não ,eu sei que foi vendida por um preço pequeno,mas o quanto esta empresa arrecada de impostos atualmente, e qual foi a melhoria para a região , houve investimentos o que aconteceu, de quando ela era estatal e depois ficou privada.Outras privatizações virarão cartel como a Telefonia, Sabesp e as estradas aqui em S.P apesar do preço alto de pedagio estão bem conservadas.
anab
17 de outubro de 2014 10:53 pmCom certeza é infio o
Com certeza é infio o imposto em comparação ao que lesou com a privataria da Vale.
O caso Vale do Rio Doce, CRIME DE LESA-PATRIA:
A empresa foi constituída em 1942. Cinqüenta e cinco anos depois, em 1997, ela era a maior mineradora mundial de minério de ferro, possuía a maior frota de navios transportadores de grãos do mundo, duas ferrovias com nove mil quilômetros de extensão, com 16% da movimentação de cargas do país, constituía um complexo de 54 empresas e sua receita havia crescido de R$ 198 milhões por ano, no início dos anos 70, para R$ 5,5 bilhões em 1995. Neste mesmo ano, o Instituto Brasileiro de Economia considerou a Vale a primeira entre as empresas nacionais.Tudo isso foi construído com dinheiro público, com recursos do povo brasileiro, portanto. Pois bem, ela foi privatizada em 1997 por R$ 3,3 bilhões – que é menos do que ela obtinha por ano em 1995 e é menos do que ela lucra hoje em apenas três meses.Por que um preço tão baixo por uma empresa tão importante?O edital que serviu de base para o leilão da privatização subdimensionava grosseiramente quase tudo o que a Vale tinha na época, mas, pior que isso, o edital omitia boa parte dos minérios que a empresa explorava: titânio, calcário, dolomito, fosfato, estanho/cassiterita, granito, zinco, grafita, nióbio.Nós poderíamos imaginar um empresário capitalista vendendo sua empresa, deixando de considerar, no cálculo do seu valor, a maior parte dos seus ativos?”
Giusepe
18 de outubro de 2014 3:34 amVergonha………..
A venda
Vergonha………..
A venda da Vale, ao contrário do vc diz, não trouxe nenhum ganho as regiões onde ela explora.
O legado deixado são; gigantescas crateras, destruição de mananciais, sonegação criminosa de impostos.
Veja o que os estados do Pará e MG receberam de roialtes entre os anos 1997 a 2014, uma vergonha.
No tempo em que era estatal MG e o Pará recebiam uma mixaria é verdade, mas pelo menos recebiam, agora é só na justiça, uma vergonha.
E pelo amor a Deus não diga “vendida a um preço pequeno” na verdade,ela foi doada a um bando de banqueiros e agiotas da bolsa, estrangeiros é claro!
O pior, é que a maioria das pessoas não sabem que foi vendida no modo; como dizem os caipiras; ” porteira fechada” foi tudo embora; as minas em operação, as minas prospectadas, os estudos geológicos de todo o território brasileiro, ferro, manganez, nióbio,diamante,ouro…..
A pura verdade é que os 3.3 bilhões pagos a época da privataria (maior parte financiado pelo BNDES) não faziam frente nem ao estoque de peças nos almoxarifados, para manutenção dos equipamentos rodantes, e das minas, um assalto.
Eu estava até meio esquecido dessa triste quadra do nosso Brasil, quando alguém traz a tona esse pesadelo, que foi a venda da maior mineradora do mundo e toda a riqueza do subsolo brasileiro, uma vergonha…..
André LB
18 de outubro de 2014 1:25 pmFabio, você parece ser
Fabio, você parece ser alguém com quem dá pra conversar. Não precisa concordar comigo, mas vamos a argumentos.
A Vale (com um éle” só) foi vendida por 3 bilhões e meio de reais, em 1997. Agora imagine uma empresa mineradora, DONA de grande parte dos minérios de um país imenso como o Brasil, ser vendida por apenas esse valor. Isso porque o “cálculo” (e quem calculou também comprou, veja o conflito de interesses!) não se baseou no patrimônio, mas no tal fluxo de caixa. É algo como você vender sua casa não pelo que ela vale, mas pelo tempo que você passa lá dentro: se você tem viajado muito, vende uma casa de R$300 mil por, digamos, R$10 mil. No caso da Vale, não tem imposto que compense ese ROUBO, e ainda por cima a Vale SONEGA, e muito.
Quanto a outras privatizações, como da telefonia, via de regra aconteceu assim: o governo respectivo (Rio, SP, etc) jogava centenas de milhões para “sanear” a empresa, que era vendida por um valor ABAIXO do que valia, e quem comprava ainda pagava em PRESTAÇÕES de empréstimos públicos subsidiados pelo BNDES. Nesses moldes, eu e você poderíamos ter comprado qualquer empresa, porque MUITO POUCO dinheiro era colocado de cara, e ainda era emprestado, e ainda as dívidas anteriores assumidas pelo governo respectivo.
Estradas em SP: sou do tempo em que eram, quase todas, estaduais. Vou te contar uma coisa que até doi: todas, TODAS estavam quase exatamente do jeito que são. Vou fazer um paralelo com o metrô da linha 4 em SP: o governo construiu (pagou as construtoras), CEDEU a linha para que alguém assumisse (pra quê???) e, se o lucro ficar abaixo de certo limite, o governo estadual PAGA à empresa!!! É lucro garantido, e com as estradas funcionou do mesmo jeito!!
Experimente fazer isso: você construiu sua casa, mas quer ganhar uma grana. Passa pra alguém alugá-la por você e esse alguém FICA com o aluguel, a título de manutenção, mas se o aluguel ficar defasado, você AINDA PAGA!
Dá pra defender esas privatizações??? Se tem interesse no assunto, sugiro o livro “O Brasil Privatizado”, que conta com detalhes como essas vendas foram feitas.
Fábio de Oliveira Ribeiro
17 de outubro de 2014 9:07 pmÉ uma injustiça comparar FHC
É uma injustiça comparar FHC a Goebbels e Aécio Neves a Hitler. FHC é incapaz de fazer um filme e Aécio parece mais um guarda de Birkenau!
marcos zeni
18 de outubro de 2014 2:54 amNÓS E ELES, SIM !!!
Está muito claro que somos diferentes, sim. Nós somos o trabalhismo com desenvolvimento sócio-econômico, representado pela nossa honrada e competente presidenta Dilma, lutando, todos nós, contra o capitalismo rentista e entreguista, do retrocesso econômico e social, representado pelo inadequado, inconveniente e mal educado candidato do psdb.
seria mais simples
18 de outubro de 2014 2:59 amIsso é economês que o povão
Isso é economês que o povão nada tem como avaliar. Esse deveria explicar que inflação nunca foi preocupação das elites, bastou o povão começar aprender ganhar com essa que eles acabaram. Assim como, milhões de pessoas que viviam bem com renda de apenas 10 telefones alugados, essses privateiros safados colocaram na miséria. Ainda bem que o petismo nunca seria capaz de maldades dessas
tá gostoso
18 de outubro de 2014 8:59 amfico feliz vendo a área de
fico feliz vendo a área de comentário limpinha, sem anda contra que não seja elogio rasgado ao petismo
aliancaliberal
18 de outubro de 2014 11:00 pmQuando o país surfa na
Quando o país surfa na melhora da situação externa é por mérito do PT, quando o país tem recessão é culpa da conjuntura externa.
Faz assim tira o setor exportador da conta e vê como ficaria um governo petista.
Não tem mágica nem truque retórico só uma realidade nosso país depende muito da poupança externa para financiar o gasto estatal.