O Papa Júlio II, Lira e o PT
por Aldo Fornazieri
César Bórgia (1475-1507) era filho de Alexandre VI (Rodrigo Bórgia), papa que fortaleceu muito o poder da igreja. César foi nomeado cardeal aos 16 anos de idade, tornou-se capitão geral da igreja e conquistou várias províncias italianas, com destaque para a Romanha. Grande estrategista, o que valeu ser um dos estudos de caso de Maquiavel, acumulou notável poder, mas, em grande medida, graças às forças auxiliares concedidas pelo seu pai. O seu problema sempre foi não ter numerosas e poderosas forças próprias. Assim, se valeu muitas vezes de forças auxiliares e, outras, de forças mercenárias.
Em 1503, Alexandre VI faleceu, antes que César consolidasse o poder que havia conquistado. O sucessor do papa falecido foi Pio III, aliado da família Bórgia, que teve um pontificado de apenas 26 dias. No conclave que elegeria o novo papa, César Bórgia não tinha força suficiente para eleger um aliado seu. Deixou-se convencer pelas promessas do cardeal Giuliano Della Rovere, que havia sido inimigo da família Bórgia.
Rovere tornou-se o papa Júlio II e tratou logo de romper as promessas, perseguir, atacar César e extinguir o poder dos Bórgias na igreja. Pouco tempo depois, César, enfraquecido e doente, veio a falecer.
Maquiavel julga que o apoio de César à eleição de Júlio II foi um dos grandes erros do capitão, pois isto se constituiu numa das causas de sua ruína. Se não tinha forças suficientes para derrotar cardeal Della Rovere, o melhor teria sido escolher um tercius, dividir as forças adversárias e enfraquecer o antigo inimigo.
Pois bem. No início de 2015, Eduardo Cunha lançou-se candidato à presidência Câmara dos Deputados e todos sabiam que ele poderia representar um perigo para o governo Dilma. O PT decidiu bater chapa, apresentando o nome do deputado Arlindo Chinaglia. Foi derrotado, o que reforçou o campo inimigo que se articulou em torno de Cunha.
Deu tudo errado. Cunha veio a ser o artífice do impeachment de Dilma. A tática correta do PT também deveria consistir na busca de um tercius como candidato. Mesmo que não viesse a vencer, poderia ter ampliado o leque de alianças na Câmara, evitar o isolamento e, quem sabe, ter força suficiente para impedir a abertura do processo de impeachment.
Com o tempo, o PT foi percebendo que a tática de 2015 foi equivocada. Agora, no final de 2022, querendo não repetir aquele erro, decidiu antecipar-se, declarando apoio a Arthur Lira para a presidência da Câmara na eleição que será realizada para a nova legislatura que começa em 2023.
Penso que foi um novo erro. Ao menos na forma de como isso foi feito. O PT declarou o apoio a Lira alimentando duas expectativas: 1) que Lira empreste seus préstimos na aprovação da PEC da Transição; 2) que Lira se sinta condicionado a não ser operoso em um processo de impeachment contra Lula.
Quanto à primeira expectativa petista, até é provável que Lira trabalhe pela aprovação da PEC. Mas a antecipação do apoio do PT à sua candidatura deu-lhe um poder de barganha para além do que aquele que ele já tinha: agora, para apoiar a aprovação da PEC, Lira está conseguindo arrancar nacos de concessões do futuro governo.
Quanto à segunda expectativa petista, também houve uma precipitação na antecipação do apoio. O cenário da transição estava, no momento do anúncio do apoio, e ainda está, bastante nebuloso. O resultado das eleições não decantou completamente e as forças partidárias ainda estão se movimentando para encontrar seu melhor ponto de posicionamento.
O mais importante, neste período de transição, consistia em construir uma base parlamentar sólida com vistas a dois objetivos. Primeiro objetivo: estabelecer uma trava a um processo de impeachment, o que implica ter, no mínimo, 172 deputados. Segundo objetivo: conseguir uma maioria no plenário da Câmara, o que significa ter uma base de, no mínimo, 257 deputados. A partir dessas metas, o governo poderia estabelecer bases de negociação vantajosas em relação a Lira. Poderia até, eventualmente, apoiar outro nome para a presidência da Câmara, que fosse capaz de dividir as forças do centrão e da direita.
Destaco as seguintes lições que nos deixaram os grandes mestres da política: 1) Evite fortalecer o poder de um poderoso que foi teu inimigo no passado. Ele não esquecerá as desavenças e as ofensas e aproveitará a primeira oportunidade para te enfraquecer ou para te golpear; 2) Não seja a causa do fortalecimento do poder de outro poderoso, pois, na luta pelo poder, quem o tem, quer mais e procurará sempre ampliá-lo.
Quem tem poder e quer exercê-lo com êxito deve sempre procurar fortalecer sua autonomia em relação a outros centros de poder, a outros poderosos. Além de ser condição de êxito político, a autonomia garantirá mais alternativas atrativas de escolhas e de decisão. Autonomia significa força política agregada. Esta força garantirá as liberdades disposicionais do líder, do chefe de governo, do chefe de Estado.
Se o líder ou o estadista tem forças políticas insuficientes para garantir autonomia e liberdades diposicionais, pode e deve fazer alianças que signifiquem ampliação de suas forças. Os conceitos de autonomia e de dependência são antípodas. Então, o líder, o governante, não deve buscar alianças que aumentam a sua dependência. A Liradependência significa perda de autonomia, perda de poder.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.
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AMBAR
19 de dezembro de 2022 6:51 pmÀs vezes analisamos os fatos apenas pelo viés digital. O,1, ser ou não ser, bem e mal de modo que certas particularidades nos escapam. Se deixamos o maniqueismo de lado por algum tempo o nosso horizonte de opções se amplia, tanto quanto as possibilidade e decorrências. Vejamos que Lira, supremo e empoderado colocou-se como candidato natural à continuidade do controle da câmara sem levar em conta o fato de que um novo governo tomará posse. Essa atitude, além de desrespeitosa e imprudente, expõe a sua intransigência e oposição ao novo governo. Ele se comporta como um primeiro ministro. Ora, sendo Lula um experiente negociador, por que motivo se oporia frontalmente ao Lira? Lula teria que estar mais que dois passos à frente: 1- aproximar-se amistosamente; 2- conquistar a sua confiança;3- O terceiro passo – o passo da ação – minar a confiança dp Lira desempoderando-o;4- o quarto passo, afastar dele o apoio da bancada interesseira – o centrão – que não tem preferências e está sempre do lado vencedor, e, finalmente, lançar um candidato de interesse do governo, que poderá ser o Renan. Essa parece ser a estratégia do Lula.
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