Invocações do povo a Lula
por Aldo Fornazieri
O dia 1º de janeiro de 2023 foi um dia alegre e festivo para a maioria do povo brasileiro. Alegres estavam os rios e as matas, os pássaros e os animais. Alegres estavam o céu e a terra porque um tempo de dor, de destruição, de abandono e de ódio foi derrotado nas terras brasileiras.
Lula, pelas suas virtudes e competência, pela sua boa fortuna, tomou posse em seu terceiro mandato como presidente da República. Os necessários ritos, regras e simbolismos da democracia e da república seguiram seu curso. Atos e atas foram lavrados e assinados no interior dos palácios, enquanto os jardins pareciam enfeitados por milhares de borboletas vermelhas, esvoaçantes numa tarde de verão.
Mas o ato mais significativo, mais emblemático e mais simbólico estava para acontecer na rampa do Palácio do Planalto. Ali o povo encarnado no cacique Raoni, numa catadora negra, numa cozinheira, num artesão, num influenciador que luta pelos direitos das pessoas deficientes, num professor e num metalúrgico entregou o palácio e a faixa presidencial a Lula. Esta foi a verdadeira posse, sem desmerecer os outros atos.
O mais simbólico ali foi a presença do cacique Raoni, descendente dos povos originários, perseguidos, dizimados, massacrados por colonizadores, grileiros, fazendeiros, desmatadores, garimpeiros, madeireiros e traficantes. Lula recebeu do cacique uma legitimidade originária e tornou-se cacique de todo o povo brasileiro. Nos seus pronunciamentos, Lula prometeu demarcar terras para seus povos, salvar as matas, os rios, a biodiversidade e a vida selvagem. Esta é uma invocação não só dos povos originários, mas dos brasileiros e de toda a humanidade.
Nessa encarnação do povo nas pessoas que receberam Lula estavam presentes outras invocações. A invocação para que os famintos tenham pão; para que os catadores, os moradores de rua e os deficientes não sejam invisibilizados enquanto cidadãos e seres humanos; para que os negros, negras e indígenas não sejam discriminados e assassinados; para que as mulheres não sofram violências e não tenham direitos menores do que os homens; para que as trabalhadoras e trabalhadores de todas as artes, ofícios e profissões sejam respeitados e vivam com dignidade com o fruto de seu esforço e de suas habilidades.
Ali na rampa do Planalto estavam invocações de dores antigas: dos famintos, dos esfarrapados, dos desabrigados, dos sedentos, dos injustiçados, dos doentes, dos tristes, dos abandonados, dos despossuídos, dos empobrecidos, dos desempregados, dos humilhados, dos perseguidos, dos desamparados. Mas ali por perto também havia júbilo por dias de justiça, de equidade, de direitos e de liberdade. Mulheres, homens, jovens, idosos, negras e negros, brancas e brancos, representantes de povos originários, pessoas descendentes de imigrantes gritavam, dançavam e cantavam, extravasando a alegria pela chegada deste dia e pela posse do presidente que carrega na sua história e nos seus sentimentos a dor e a sensibilidade de um povo sofrido.
As propiciações que ali foram trocadas entre o povo e Lula (também nos seus discursos) não foram apenas de um ano novo, mas de um novo futuro. Este futuro não pode ter a mesma lógica do passado: de avanços e recuos, de progressos e retrocessos, de caminhadas e de tropeços e quedas. As propiciações proferidas pelo povo dizem que é preciso fugir dessa trágica normalidade. Elas disseram a Lula que não basta melhorar o Brasil, mas que é preciso mudá-lo.
Essas propiciações disseram a Lula e ao Brasil que a sua dor, a sua emoção, a sua sensibilidade que são a dor, a emoção e a sensibilidade do povo, precisam encontrar uma materialização em mudanças que produzam resultados que superem a pobreza, que façam florescer justiça, direitos e igualdade. Estas são promessas de Lula e são invocações e rogos que um povo sofrido lhe dirigiu.
Lula enfrentará dificuldades inauditas para superar os abismos imensos das desigualdades que separam os que têm muito e os que não têm nada. Mas para que as promessas do líder e as invocações do povo caminhem rumo a um encontro será preciso que o presidente lembre e cobre todos os dias os seus ministros e auxiliares de que será necessário manter a fidelidade do pacto sacramentado na rampa do Palácio do Planalto. O pacto ali sacramentado se expressa na substância de que o poder entregue pelo povo a Lula implica numa fidelidade de mão dupla: o governo Lula terá que garantir a promessa principal (e as outras promessas) de uma substantiva redução das desigualdades em troca da fidelidade e do apoio do povo ao governo.
A alegria do céu e da terra, das mulheres e dos homens, das crianças e dos idosos neste primeiro dia de 2023 se deveu também porque os doentes não serão mais abandonados, os enlutados não serão mais debochados, os pobres não serão mais esquecidos, os cidadãos e as cidadãs não serão mais ofendidos, a ameaça e a violência não mais pairarão como nuvens ameaçadoras sobre o Brasil.
A principal encarnação da maldade foi derrotada. Mas o mal continua presente, Por isso, Lula, corretamente, fez um apelo à união do povo e do país. União em torno dos valores da democracia e das instituições do Estado de direito. União que não apaga as disputas e os conflitos sociais e políticos que precisam seguir o curso das regras democráticas e constitucionais.
Lula não é um Aquiles que derrotou um Heitor até porque seria muito injusto com Heitor comparar Bolsonaro a ele. Heitor era um homem bom e corajoso que não merecia ser morto naquela guerra. Lula é mais comparável a um Odisseu, que sofreu toda espécie de perigos e vicissitudes para poder voltar à sua Ítaca. Lula guiou-se pela coragem sim, mas mais pela sabedoria e prudência para navegar nos mares revoltos da sua vida.
Odisseu possuía as artimanhas para enfrentar os perigos dos mares. Lula domina os ardis para lidar com os riscos e os lobos da política. Claro, há muitas diferenças: em seu naufrágio, Lula não teve uma ninfa Calipso que o resgatasse e o aprisionasse para seduzi-lo. Foi aprisionado mesmo na Polícia Federal em Curitiba. Preso, enfrentou a dor de perdas, principalmente do neto. Também não teve uma Penélope a ficar tecendo um manto de desesperada esperança pela volta de Odisseu à Ítaca.
Mas Lula agora tem Janja que, pelo que se sabe, o ajuda a tecer conteúdos, propostas, pautas, que trazem frescor e inovação em face de exauridos vieses burocráticos. Ah, e Lula não teve um Argos que aguardou 20 anos o retorno de Odisseu e, ao reconhecê-lo, abanou o rabo de felicidade e morreu. Lula tem a Resistência que simboliza a luta num tempo de reveses, dor e retrocessos. Que o acolhimento da Resistência abandonada simbolize não apenas o acolhimento do povo pelo governo, mas uma nova fase da luta e da organização do povo para que ele, fortalecido em sua autonomia, resista às futuras tentativas de retrocessos. A “democracia sempre” é uma flor delicada que precisa de cuidados sempre. Sem lutas, ela fenecerá.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].
Recomendado:
DAISY MARIA XAVIER DE ABREU
2 de janeiro de 2023 2:21 pmMuito obrigada, Aldo!!
Descreveu com muita beleza, o que vivemos nesse momento!!
Ronaldo Volmer Frechiani
2 de janeiro de 2023 11:07 pmBelíssimo texto. Recordo um texto seu no período do golpe de 2016 em que dizia, de modo geral, que as instituições haviam falhado na defesa da legalidade/normalidade democrática e que apenas o povo poderia colocar as coisas no eixo novamente. Entendo que é isto que está no seu novo texto.
‘O povo unido jamais será vencido’
Katia Trindade de Brito Souza
3 de janeiro de 2023 6:00 amEsse é daqueles textos que dizem exatamente do que sentimos e pensamos. Muito claro, verdadeiro, direto. Vivemos nos últimos tempos momentos tensos e suas palavras soam como alívio e gratidão por tudo o que hoje se torna possível realidade. Parabéns por sua lucidez e por descrever tão bem e de forma até poética, o grande momento democrático vivido por nossa nação. Obrigada.
Aldo Fornazieri
3 de janeiro de 2023 4:58 pmDaisy, Ronaldo e Kátia, obrigado pelos comentários e pelas palavras