5 de junho de 2026

Eliana Rezende: O papel e a tinta por Da Vinci

 
“Certo dia, uma folha de papel que estava em cima de uma mesa, junto com outras folhas exatamente iguais a ela, viu-se coberta de sinais. Uma pena, molhada de tinta preta, havia escrito uma porção de palavras em toda a folha.
 
— Por que você não me poupou dessa humilhação? — perguntou, furiosa, a folha de papel para a tinta.
 
— Espere — respondeu a tinta —, eu não estraguei você. Eu cobri você de palavras. Agora, você não é mais apenas uma folha de papel, mas sim uma mensagem. Você é a guardiã do pensamento humano. Você transformou-se num documento precioso!
 
E, realmente, pouco depois, alguém foi arrumar a mesa e apanhou as folhas para jogá-las na lareira. Mas, subitamente, reparou na folha escrita com tinta, e então jogou fora todas as outras, guardando apenas a que continha uma mensagem escrita”.
 
A fábula traz em si o sentido de como o processo de produção origina um documento e com isso um testemunho para o futuro. Todos os que trabalham com as tintas que se derramam sobre o papel devem pensar sua produção como tendo valor de patrimônio e legado ao futuro.

Discussões sobre suportes e meios não importam tanto quanto aquilo que se imprime na folha que está em branco. Não são as tecnologias que trarão o sentido de inovação e sim as palavras! São delas este poder de permanência .

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Com o “poder” da tinta sobre o papel desenham-se e materializam-se ideias que auxiliam o povoar e habitar de outras mentes e outros pensamentos: a escrita é virtuosa exatamente porque “contamina”.

Tal como um vírus, ela se altera tanto quanto se dissemina.

Gosto de pensar que as palavras materializam ideias e disseminam prismas e quiçá num futuro, possam ser lidas como testemunho de um passado distante.

Únicos a ser capazes de atribuir sentidos, significados e sentimentos àqueles que em avulso representam apenas sinais pictóricos, o homem vive a crise dos suportes e dos meios tecnológicos. 
 
E assim, que venham tablets, internet, e-books, ou quaisquer gadgets: coexistirão sempre com as palavras que lado a lado expressam ideias corporificadas e carregadas de sentido.
As apocalípticas profecias do fim de tudo, felizmente continuam a existir para que engrossem pilhas de não cumprimentos.

Felizmente a vida vai passando, com elas muitas tecnologias e nós vendo-as passar e coexistir. 

Talvez seja essa a magia: perceber que tudo permanece pela eternidade que lhe é possível e em conformidade com o seu tempo e sua audiência.

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Publicado originalmente no Blog Pensados a Tinta
 
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  1. altamiro souza

    17 de setembro de 2014 3:34 pm

    lindo texto.
    belíssimo

    lindo texto.

    belíssimo exemplo do genio da pintura.

    tem muito de   leonardo, em “Variedades”,

    livro do grande poeta paul valery….

    as palavras é que ficam,

    em qq suporte,

    síntese racional e artística de uma época… .

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