Por Juliana Sada, do Centro de Referências em Educação Integral



Com qual idade você entrou na escola? Por quantos anos estudou? Na sua cidade natal
havia creche? Por quanto tempo seus pais estudaram? Eles tiveram a oportunidade de frequentar a universidade? Agora pense nas crianças ao seu redor. Elas frequentam creche? Com quantos anos entraram na escola?
As possíveis respostas a tais perguntas podem ser as mais diversas pelo Brasil. Aspopulações da cidade ou do campo, branca ou negra, pobre ou rica, e das diferentes regiões podem trazer realidades totalmente distintas, revelando o cenário de desigualdade educacional no país. Para alguns setores da sociedade, o direito à educação enfrenta uma série de obstáculos para se efetivar, tendo como consequência grandes diferenças na escolaridade da população.
Historicamente, partes da sociedade foram menosprezadas e tiveram o acesso à educação dificultado ou negado. Foi apenas em 1988, com a promulgação da Constituição Federal, que a educação passou a ser vista como um direito de todos, sem distinção, e como um dever do Estado, que deve ofertá-la gratuitamente. “Não podemos nos esquecer de que a sociedade brasileira se institui sobre o racismo. Durante parte da nossa história, mulheres e a população negra foram excluídas do sistema de ensino, assim como os setores mais populares”, analisa a secretária doMinistério da Educação, Macaé Maria Evaristo dos Santos, à frente da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi).
Corrigindo desigualdades
Para afirmar e garantir o direito à educação das populações mais vulneráveis, a meta 8 aponta para o aumento dos anos de estudo de grupos específicos. Em 2024, as populações do campo, a 25% mais pobre e da região de menor escolaridade (segundo a PNAD 2012, hoje Norte e Nordeste empatam) terão de ter, ao menos, 12 anos de ensino. A meta prevê também a necessidade de igualar a escolaridade entre negros e não negros. “O recado do Plano Nacional de Educação (PNE) é que o Brasil quer garantir a universalização da educação básica, mas quer fazer isso com equidade, garantindo que toda a população brasileira, sem distinção, tenha o acesso garantido”, afirma Macaé.

Um primeiro passo rumo ao aumento dos anos de estudo já foi dado pela emenda constitucional 59 de 2009, que ampliou o ensino obrigatório. A partir de 2016, todos brasileiros de 4 a 17 anos devem estar matriculados na escola e o Estado deve garantir a oferta de vagas desde o ensino infantil até o médio. Com a efetivação desta premissa, as próximas gerações terão garantidos, ao menos, 13 anos de estudo. Os municípios e estados brasileiros tem diante de si os desafios, previstos no PNE, de universalizar a educação infantil e o ensino fundamental, e de aumentar as matrículas no ensino médio.
No entanto, o aumento dos anos da educação obrigatória e a oferta de vagas não bastam. As barreiras que impediram – e ainda impedem – o acesso à educação por estes grupos demanda ações específicas para ser extinta e são necessárias políticas que olhem para a vulnerabilidade em que estão e desenvolvam ações de apoio capazes de reverter esse histórico de desigualdade.
Diversidade e especificidades
Entre os grupos apontados pela meta, a população do campo é a que tem o menor número de anos de estudo, segundo o Observatório do PNE. Enquanto na cidade a escolaridade média é de 10,1 anos, no campo ela cai para 7,6 – o que não é suficiente para completar o ensino fundamental obrigatório, que é de nove anos. Elevar em quase cinco anos a escolaridade média desta população significa dar condições concretas de acesso à escola, como garantia de transporte, e criar um ensino que dialogue com a realidade local.
Os quase 30 milhões de brasileiros que vivem na área rural abrigam uma diversidade enorme; são agricultores familiares, indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e assentados da reforma agrária, entre outros grupos. “Há uma diversidade de sujeitos no campo: na Amazônia é uma coisa, com a população da floresta e os ribeirinhos, enquanto na região sul temos outra configuração”, explica Macaé.
A secretária explica que a educação do campo deve levar em consideração o contexto em que está inserida: “é importante reconhecer as diferentes identidades presentes e mesmo reconhecer a diversidade de biomas porque ela precisa dialogar com a região”.
Para isto, é importante que a escola esteja inserida no território, o que se apresenta hoje como um desafio. Entre os anos de 2003 e 2013, foram fechadas 32,5 mil instituições na zona rural, uma média de oito escolas por dia, segundo levantamento do jornal Folha de S.Paulo. “Com o fechamento das escolas, há crianças que passam a transitar quatro ou seis horas para ir e voltar. Elas acabam perdendo seus horários de alimentação e não tendo oportunidades para a convivência familiar e comunitária e para o seu desenvolvimento integral”, explica o membro do Conselho Estadual de Educação do Mato Grosso, Carlos Alberto Caetano.
Para evitar que isso continuasse, em março deste ano foi sancionada uma lei que dificulta o fechamento das escolas. Pela nova regulamentação, o estado ou município deve justificar a atitude, apresentar um plano de realocamento dos estudantes e consultar as famílias e os conselhos estadual ou municipal de educação. No entanto, Caetano explica que a realidade ainda é outra, destacando as escolas das comunidades quilombolas. “Elas estão sendo fechadas de forma arbitrária, sem que se respeite o que a lei define.”
Vulnerabilidades sobrepostas
Tanto em números absolutos quanto proporcionalmente, a população do campo brasileiro se concentra no Nordeste, que abriga mais de um terço de toda a população rural do país. A região é a de menor escolaridade do país, com uma média de anos de estudo de 8,9 e por isso também alvo da meta 8. O Nordeste acaba sobrepondo uma série de vulnerabilidades que são abordadas pelo PNE. Além de concentrar a maioria da população rural, o nordeste também concentra cerca de 60% das pessoas em situação de pobreza extrema do país.
Em relação às ações voltadas para a população mais pobre, Macaé destaca os avanços trazidos pelo programa Bolsa Família, que condiciona o recebimento do benefício à frequência mínima dos filhos à escola. “A articulação de uma política de transferência de renda com a condicionalidade de frequência é um grande exemplo de como associar a política de assistência social com educação.”
O Nordeste é também a região com mais negros proporcionalmente: quase 10% dos nordestinos se consideram negros, segundo o Censo de 2010. A desigualdade entre negros e não negros também é destacada pela meta 8. O PNE prevê que, em dez anos, a escolaridade média entre os dois grupos seja igualada. Atualmente, na faixa etária entre os 18 e 19 anos, os a população negra tem cerca de nove anos de estudo, e a branca chega a 10,6. “Esta diferença se dá pela desigualdade racial que existe no Brasil, o racismo é uma coisa estruturante. Desde a escravidão até hoje, você tem este racismo pautando as políticas públicas e o cotidiano”, explica a coordenadora de educação da Ação Educativa, Denise Carreira.
Nas políticas necessárias para garantir a equidade estão ações dentro das escolas e no âmbito das políticas públicas. A coordenadora destaca a importância de se garantir educação de qualidade para as escolas com população de maior vulnerabilidade. Dentro das escolas, Denise ressalta a importância da implementação dos conteúdos referentes à história afrobrasileira e de ações de combate ao racismo. “Temos proposto o uso de um indicador para a escola fazer uma autoavaliação sobre como está o enfrentamento ao preconceito.”
Ao destacar a necessidade igualar a média de escolaridade entre negros e não negros, o PNE explicita o problema do racismo, analise Denise. “No Brasil, a questão racial sempre foi muito negada e tornada invisível.” Ao não assumir o racismo, deixa-se de pensar em políticas para combatê-lo. “Os indicadores sociais das populações negras da periferia e do campo gritam, mas isto não é assumido como prioridade pela política educacional. Esta meta estimula os governos a olhar mais esta desigualdade e pensar ações que possam superá-la”, complementa.


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