do Observatório de Geopolítica
Origens da cibernética: Norbert Wiener e os projetos de automação da artilharia antiaérea na Segunda Guerra Mundial.
por Eduardo Barros Mariutti
O emprego da aviação na Primeira Guerra Mundial aprimorou a visualização da distribuição das forças no campo de batalha e aumentou a exposição da retaguarda ao fogo inimigo. Contudo, os aviões tinham pouca capacidade de carga e eram muito lentos, atingindo em média 160 Km/h (alguns aviões desenvolvidos na fase final da guerra – como o alemão Fokker D.VII e o britânico R.A.F. S.E.5 – conseguiam atingir a marca de 220 Km/h). O teto operacional era baixo (cerca de 4 km) e, como a base do avião era de madeira e lona, não era possível mergulhar com muita inclinação. Isso limitava demais a capacidade de dano dos aviões e, sobretudo, confinava o combate ao campo do sensório humano: a artilharia antiaérea podia operar com binóculos e próteses visuais simples, pois o avião entrava no campo visual dos defensores muito antes de conseguir causar dano.
A situação mudou muito rapidamente já no final da década de 1930, quando os caças se tornaram muito mais manobráveis e passaram a atingir mais de 500 Km/h. Além disto, passaram a contar com poder de fogo muito mais elevado e preciso, envolvendo a combinação entre metralhadoras e canhões nos caças e bombas relativamente precisas nos bombardeiros. Nesta velocidade os sentidos humanos não eram mais suficientes para dar conta dos combates com eficácia. A velocidade e a letalidade da aviação estimularam o desenvolvimento do radar para adiantar a detecção do ataque e, também, de sistemas apoio à artilharia antiaérea. Temendo o poder de dano dos caças alemães à marinha, Washington passou a financiar diversos projetos de automação dos sistemas de defesa antiaérea, capitaneados principalmente por Vannevar Bush, que chefiou o Office of Scientific Research and Development criado em 1941. Começava a nascer o famigerado complexo industrial militar. Bush financiou a engenhosa proposta de Norbert Wiener de criar um dispositivo preditivo de controle de fogo antiaéreo baseado na progressiva integração entre homem e máquina por laços de feedback negativo.
Wiener percebeu que o aviador e o avião formavam uma unidade. Para voar, o piloto precisa fazer constantes microajustes utilizando de forma inconsciente a sua propriocepção e demais estímulos sensoriais. O mesmo ocorria com o atirador do canhão antiaéreo ou qualquer outro acoplamento homem-máquina. A ideia do preditor era analisar o padrão de voo do avião inimigo – especialmente suas manobras evasivas – para tentar adivinhar a sua posição futura, posicionando o canhão levando em conta também o tempo que o projétil levaria para atingir o alvo. A ideia é que o sistema conseguisse aprender com os erros e, com isto, fosse capaz de se autorregular. O projeto não produziu nenhuma aplicação pratica bem-sucedida, pois ele tinha requerimentos sociotécnicos ainda indisponíveis. Mas o princípio que lhe servia de base era genuinamente revolucionário: a possibilidade de combinar determinação e aleatoriedade por meio de inferências estatísticas em sistemas cibernéticos baseados no intercâmbio de informações.
Este era o tema básico do livro Cybernetics, publicado originalmente em 1948, cujo subtítulo é bastante ilustrativo: control and communication in the animal and the machine. O termo cibernética é um derivativo da raiz grega kybernetes, cuja tradução direta é timoneiro ou governador. Foi esta imagem que Wiener usou: o timoneiro e seu navio formam, na prática, um servomecanismo, em que o navegador precisa corrigir sistematicamente a posição do navio levando em conta o vento, a maré e eventuais obstáculos na sua rota. A proposta de Wiener tem como duplo eixo a ideia de homeostase e a sobreposição entre comunicação e controle. Sistemas cibernéticos são sistemas descentralizados de coleta e processamento de informações sujeitos a mecanismos de feedback negativo, isto é, que limitam as variações possíveis. Assim, frente a perturbações, com intervenções mínimas e microrregulagens, um sistema cibernético tende a voltar ao seu estado regular de funcionamento. Mas o que realmente causou impacto foi o fato de a questão ser pensada levando em consideração a articulação entre o homem, as máquinas e os animais pelos processos cibernéticos. Essa postura pressupõe que, a despeito de suas particularidades, homens, máquinas e animais são tratados de forma homóloga, isto é, como unidades processadoras de informação.
A ideia de Wiener era ousada: criar uma nova ciência, capaz de estabelecer uma espécie de síntese entre o conhecimento de ponta entre diversas disciplinas até então separadas, mas que trabalhavam com um conjunto comum de princípios: informação, comunicação, aprendizado, feedback e controle. O ponto de aglutinação seria a constituição de uma espécie de teoria geral da comunicação, necessariamente interdisciplinar e supostamente capaz de articular áreas do conhecimento aparentemente tão distantes como a sociologia, antropologia, linguística, engenharia e a biologia.
Esta problemática particular entrou em sincronia com os esforços – impulsionados inicialmente por motivos essencialmente militares – de se criar e viabilizar a produção de uma máquina reprogramável – mecânica ou eletrônica – capaz de processar de forma rápida um grande número de informações: o computador. A conjugação dentre estas duas vias tornaram possível, tanto na teoria quanto na prática, englobar o maior número possível de processos e sistemas em torno de uma unidade básica de processamento central, que poderia ser controlada por meio de um programa. Portanto, essa percepção e suas práticas correlatas alteraram significativamente o que se entendia antes como informação: ela não somente passou a ser concebida como um dos elementos fundamentais para se compreender o mundo (físico e social) mas, também, como algo manipulável, isto é, a cibernética tornou possível decompor a realidade em códigos que podem ser reprogramados, dando origem a novos produtos e a formas radicalmente novas de produção e de interação com a realidade. E, o que é mais importante, a cibernética transformou radicalmente a geopolítica e a conduta da guerra contemporânea.
Eduardo Barros Mariutti – Professor do Instituto de Economia da Unicamp, do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas da UNESP, UNICAMP e PUC-SP e membro da rede de pesquisa PAET&D.
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