5 de junho de 2026

A pandemia da Covid-19 é, acima de tudo, uma pandemia do capitalismo, por Francisco Fernandes Ladeira

À medida que o patógeno foi circulando entre as classes sociais, revelaram-se as facetas cruéis de nossa desigualdade.

A pandemia da Covid-19 é, acima de tudo, uma pandemia do capitalismo

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por Francisco Fernandes Ladeira

No último dia 5, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a Covid-19 não é mais uma “Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional” (ESPII). No entanto, o status de “pandemia” permanece para a moléstia causada pelo novo coronavírus. “A batalha ainda não terminou e ainda temos fraquezas a melhorar no nosso sistema”, afirmou o diretor-executivo da OMS, Michael Ryan. 

Fato é que a Covid-19 representa, sobretudo, um reflexo do modo de produção capitalista e suas contradições. Não se trata de levantar hipóteses conspiratórias como, por exemplo, afirmar que o novo coronavírus foi criado para favorecer a indústria farmacêutica ou a política externa de uma grande potência. Porém, a dinâmica da Covid-19 pode ser melhor entendida se a associarmos ao funcionamento do capitalismo.

A China – onde se localiza Wuhan, epicentro da pandemia – foi a última grande fronteira adentrada pelo capital. Historicamente, novas regiões industriais, como Wuhan, são mais vulneráveis às pandemias; seja pelas aglomerações de trabalhadores em condições sanitárias adversas, seja pela expansão do espaço urbano em direção às áreas silvestres. Consequentemente, surgem as condições favoráveis para que determinados vírus migrem de animais selvagens para o ser humano.

Ao sair do território chinês, o novo coronavírus seguiu basicamente o mesmo trajeto das mercadorias que circulam no mercado globalizado. Foi para Europa, passou pela América do Norte para, enfim, chegar à América do Sul. É emblemático o fato de o continente africano, esquecido no processo de globalização, ter apresentado, relativamente, poucos casos de Covid-19.

Aqui no Brasil, o novo coronavírus chegou com a elite, pois estes indivíduos reúnem as condições favoráveis para viajar pelo mundo. À medida que o patógeno foi circulando entre as classes sociais, revelaram-se as facetas cruéis de nossa desigualdade. Se analisarmos um mapa de São Paulo, por exemplo, facilmente constatamos que os números de contaminações pelo novo coronavírus coincidem com a segregação social do espaço urbano. Isso significa menos casos nas áreas nobres e explosão de contaminados nas periferias.

Por outro lado, muitos dizem que a Covid-19 seria uma resposta do planeta às ações antrópicas. Não compactuo com o chamado “ecofascismo”, que, em sua versão mais extrema, defende, para o “bem da Terra”, a extinção do ser humano.

Mas é fato que os efeitos das quarentenas decretadas mundo afora – como a diminuição da poluição atmosférica – acendem um alerta. O problema não é o Homo sapiens em si, mas o modelo de civilização. Se há algum “aprendizado” a ser levado para o mundo pós-pandemia, é a urgência de superarmos o (insustentável sob vários aspectos) modo de produção capitalista.

***

Francisco Fernandes Ladeira é doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

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