Evolução do Capitalismo como um Sistema Complexo Adaptativo, por Fernando Nogueira da Costa

Para melhor zelar por aquilo chamado de “seus negócios”, os humanos negligenciam o principal: a coisa pública.

Evolução do Capitalismo como um Sistema Complexo Adaptativo

por Fernando Nogueira da Costa

Regras iniciais simples, adotadas por interagentes, seja com comportamentos miméticos, seja com divergentes, propiciam a emergência de um sistema complexo de economia de mercado. A evolução registra, desde as tribos até as cidades-Estado, rotas comerciais e mercados de capitais, nenhum desses fenômenos emergentes foram pré-programados a priori.

Por exemplo, no nível individual (ou microeconômico), seguiu-se a Regra de Ouro do Comércio: comprar barato para vender mais adiante caro. Outra racionalidade mercantil sempre foi comprar onde é barato para vender onde é caro. Uma é a especulação aplicada ao longo do tempo, outra é a arbitragem entre lugares ou mercados.

Outro exemplo, no nível coletivo (ou macroeconômico), é a Lei da Oferta e da Demanda. Os preços se elevam quando há escassez e são diminuídos quando há abundância. Tudo isso acontece se funcionar uma livre competição com múltiplos ofertantes e demandantes.

Uma terceira “regra” é, justamente, a “quebra de regras”! Trata-se da Inovação Disruptiva. É a destruição criativa com invenção de uma possibilidade tecnológica ainda não tentada, novos produtos ou novas fontes de matérias primas.

Empreendedores com iniciativa são capazes de mobilizar capital, avaliar projetos, administrar riscos, monitorar os administradores, fazer bons negócios, redirecionar os recursos de velhos para novos canais.  Em um ambiente de negócios com direitos de propriedade, livre-comércio e câmbio estável garantidos, buscam a alavancagem financeira de seu negócio, aumentando a rentabilidade patrimonial com uso de capital de terceiros, isto é, de crédito farto e barato.

Como ocorreu a evolução da economia como um componente de um sistema complexo adaptativo? Essa foi a questão-chave motivadora de meu estudo e organização de um novo livro digital para socialização do conhecimento adquirido: Fernando Nogueira da Costa – Economia como Componente de Sistema Complexo Adaptativo. fev 2022

No Prefácio e nas Considerações Finais, reli e resumi a obra-prima de Albert Hirschman (1915-2012), intitulada As Paixões e Os Interesses: Argumentos Políticos para o Capitalismo antes de seu Triunfo (Paz e Terra, 1977). Apresenta uma ótica original a respeito da evolução do sistema capitalista.

Mostra como um fator crucial a identificação do interesse com uma determinada paixão: o amor pelo dinheiro. A avareza ou o desejo de ganho seria uma paixão universal a agir para a evolução capitalista em todos os lugares e sobre todas as pessoas.

O desejo por acumulação de dinheiro é imune à decepção da dissonância entre desejo e satisfação. Isso ocorre quando o dinheiro não é gasto ao comprar coisas supérfluas, mas sua acumulação se torna um fim em si mesma.

O caráter constante do “amor ao dinheiro” como uma “paixão obstinada” propicia uma qualidade distinta das antigas e violentas paixões. A insaciabilidade do auri sacra fames [maldita fome do ouro] era considerada o aspecto mais perigoso e repreensível.

Por uma estranha reversão, devido à preocupação com a inconstância do ser humano, essa mesma insaciabilidade se tornou então uma virtude, pois implicava constância. Dotou-se o “obstinado” desejo de ganho de uma qualidade adicional: a inofensividade por não causar danos mortais aos outros como causavam as paixões violentas.

O comportamento motivado pelo interesse e a atividade de ganhar dinheiro passaram a ser considerados superiores ao comportamento orientado pela paixão, seja por terras, seja por religiosidade. Perante a nobreza, era antes difamado o comerciante ou o malévolo rentista credor de dinheiro como personagens mesquinhos e trapaceiros.

Após a Revolução Gloriosa inglesa com o pacto entre Monarquia e Parlamentarismo, no fim do século XVII, passou a se proclamar “la douceur” do comércio. Significa doçura, maciez, calma e gentileza. É o antônimo da violência.

Curiosamente, o triunfo do capitalismo, assim como o de muitos tiranos modernos, deve muito à generalizada recusa em tomá-lo a sério ou acreditá-lo capaz de grandes projetos ou realizações. Quem seria capaz de levar a sério, por exemplo, um capitão reformado expulso do Exército?! Hitler nunca foi promovido além de cabo…

O comércio exige outra regra geral: a empatia, ou seja, colocar-se no lugar do outro para propor um negócio aceitável para ambos. Onde os costumes são polidos, existe o comércio. Onde existir o comércio, os costumes são polidos.

O “ganhar dinheiro” não era “autopaixão”. Imaginava-se, quando exercido com moderação, ser “afeição natural”, capaz de realizar tanto o bem privado quanto o público. Tornar-se-ia uma “afeição não natural”, não resultante em bem algum, caso a pessoa se entregasse a essa atividade com excesso.

O comedimento ou a moderação, determinada pelas exigências das circunstâncias, separaria “o calmo desejo de riqueza” da avareza. Um desejo calmo seria, desse modo, definido como daquele capaz de agir de maneira calculada, ou seja, racionalmente.

Essa “paixão calma” se torna equivalente àquilo, no século XVII, entendido por interesse. Era distinta das anteriores “paixões turbulentas”, motivadoras de conquistas de territórios ou riquezas rurais, corações e mentes, através de guerras religiosas.

O capitalismo passa a ser louvado porque iria ativar algumas propensões humanas benignas à custa de outras malignas. Era a esperança de, desse modo, ele reprimir os componentes mais destrutivos da natureza humana. O capitalismo pacificaria o mundo!

Os indivíduos privados, ao buscarem a satisfação dos seus vícios ou simplesmente seu interesse próprio, poderiam contribuir para o bem-estar social. Essa Falácia de Composição passa a ser considerada um dos princípios mais básicos e distintivos, no estudo da Economia Política, por destacar a realidade sistêmica coletiva ser uma resultante distinta da pretendida por uma ação individual.

Entretanto, não haveria somente o efeito positivo do aumento da produtividade, mas também efeitos negativos da divisão do trabalho e do comércio, capazes de afetar a personalidade e os laços sociais do cidadão individual. Contrastou-se entre:

a solidariedade característica de tribos de caçadores e/ou extrativistas, onde os indivíduos estão intimamente unidos pela divisão igualitária de suas coletas entre todos os membros, e

o espírito reinante em um Estado comercial, onde o homem desligado e solitário lida com seus semelhantes como lida com seu gado e/ou sua terra, apenas por causa dos lucros propiciados.

Desse último modo, os vínculos de afeição são quebrados. O “espírito do comércio”, decidido a garantir seus lucros, de um lado, mostrou o caminho da racionalidade para a sabedoria política, de outro, não enfatizou a possibilidade de os cidadãos ricos imporem sérias dificuldades àqueles sobre os quais pretendiam o domínio.

A preocupação exclusiva com a riqueza individual pode levar à direção oposta da pretendida ao propiciar um governo despótico. Apoia-se a tirania quando há o medo de perder a riqueza e em situações nas quais herdeiros de sua família (clã ou dinastia) se encontram confinados e destinados a ser pobres em meio da afluência.

Esta é um mal-estar psicológico a afetar pessoas ricas até hoje. Há incapacidade de compreender as consequências de suas ações, devido ao privilégio financeiro. A idiotia acomete a quem não tem consciência do mal feito a si e aos outros por suas atitudes.

Por exemplo, um Estado neoliberal, não intervencionista e com permanente ajuste fiscal, para evitar aumento da carga tributária, é mais semelhante ao despotismo. Diferencia-se do comumente imaginado por adeptos liberais do Estado mínimo.

O gosto pelos prazeres materiais se desenvolve mais rapidamente em lugar de o hábito da liberdade. Com os homens negligenciando os negócios públicos, para cuidar apenas de suas fortunas privadas, não há harmonia entre interesses públicos e privados.

Para melhor zelarem por aquilo chamado de “seus negócios”, os humanos negligenciam o principal: a coisa pública. Assim, os interesses estão longe de domesticar ou acorrentar as paixões dos governantes.

Pelo contrário, se os cidadãos vêm a se absorver na busca dos seus interesses privados, será possível para um homem oportunista e ambicioso assenhorear-se do poder. Veja o exemplo do capitão e seu chamado “Posto Ipiranga”, centralizando toda as áreas econômicas sob si, com a promessa de entregar tudo e o fracasso da inoperância total.

Uma Nação sem nada exigir de seu governo, além da manutenção da ordem, é uma nação escrava do seu bem-estar individualista. Contraditoriamente, elege um homem para pô-la estagnada sem nenhum progresso.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor do livro digital “Dívida Pública e Dívida Social: Pobres no Orçamento, Ricos nos Impostos (ou Pobres no Ativo, Ricos no Passivo)” (2021). Baixe em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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2 Comentários

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Pedro de Alcântara

- 2022-01-27 08:41:14

Talvez seja necessário acrescentar que a mais-valia é o alimento essencial da existência, da reprodução e da acumulação do capital. Sua vida, a do capital, depende, em termos absolutos deste processo de expropriação denominado mais-valia.

Pedro de Alcântara

- 2022-01-26 18:42:11

Guizot afirmava que até o parto no feudalismo era dado em feudo. É o que acontece em qualquer modo de produção. O parto no modo de produção capitalista tem a natureza que esse modo de produção lhe dá. Que, de um modo ou de outro, o capitalismo faz a nossa cabeça, seja enquanto tal, seja pela carga cavalar de ideologia que a classe dominante inculca sobretudo nas consciências do povo, não resta dúvida. Podemos dizer que o homem é o seu modo de produção. O resto é recorrer a farsas científicas como essa que começa a ganhar foros de ciência, a neuroeconomia. Marx, neste aspecto, foi curto e grosso: "a consciência é o ser consciente". Tudo isto, evidentemente, se refere a um modo de produção em seu estado de funcionamento normal, o que não é o caso do capitalismo, palavra, aliás que já perdeu, em boa medida, sua referência integral como modo de produção. Marx, que partira do socialismo como método em sua análise do capitalismo, já, em 1867, anunciava que o modo de produção capitalista entrara numa fase de destruição de forças produtivas. Senão, vejamos: entre 1867, primeira edição do Capital, livro I, e a 1ª guerra capitalista mundial, passaram-se escassos 47.anos. Entre 1867 e 1949, segunda guerra mundial, apenas 72 anos. Guerras que podemos identificar como puras políticas de destruição sistemática de forças produtivas. Estamos vivendo uma situação que pode ser caracterizada como "lucros sem produção". A dinheirama que atualmente rola pelo mundo sem destino claramente identificado foge do trabalho como o diabo da cruz. Aquilo que foi a natureza completa do capitalismo, ou seja, o casamento do dinheiro com o trabalho, fazendo disso uma aliança produtiva, já era. O caso de autoridades mundiais, entre elas os Ministros da Economia, que inutilizam suas fortunas enterrando-as nos chamados paraísos fiscais, é um exemplo completo de que o dinheiro abandonou sua destinação originária. A prova mais concreta disso se encontra no excelente livro do Dowbor, A Era do Capital Improdutivo, que contém dados que demonstram que a dinheirama atualmente existente vive sobretudo da pilhagem social e não da extração da mais-valia. Assim como a Economia Política teve como sustentação teórica uma nova forma do trabalho, e como luta prática a abolição das formas anteriores, tudo indica não restar outra proposição senão a abolição da forma capitalista do trabalho.

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