Vantagens da “Financeirização” superiores à da “Desfinanceirização”
por Fernando Nogueira da Costa
Se compreendermos a “financeirização” com o processo evolutivo do sistema financeiro, emergente de interações entre Finanças Pessoais, Corporativas, Públicas, Bancárias e Internacionais, verificaremos ele ter avançado por atender à demanda social. Nem sempre a submissão a arranjos sociais pressupostos injustos se dá por meio da coerção, da ameaça ou de barganhas.
Há cinco séculos, Étienne de La Boétie propôs o conceito de servidão voluntária. Muitas pessoas se submetem a sistemas exploradores – como é o sistema capitalista – sem resistência, afinal, os sistemas escravistas e feudais eram piores. Os trabalhadores ao venderem sua força de trabalho podem, em princípio, agir por vontade própria.
Ao obter mobilidade social, para si e seus dependentes, escalando faixas de renda e riqueza superiores, podem até mesmo demonstrar satisfação com seu próprio esforço de poupar uma parte da renda ao longo do ciclo de vida profissional ativa. Isto a despeito de posição de inferioridade social, onde ainda se encontram, sendo explorados em salário por empregadores ou não acumulando a mesma riqueza do topo da pirâmide.
Quais são as vantagens da “financeirização” diante da “desfinanceirização”?
A primeira diz respeito ao sistema de pagamentos. O Brasil ter uma moeda nacional aceita como unidade de conta e meio de pagamento, além de oferecer aplicações financeiras líquidas ou resgatáveis de imediato, evita a dramática situação argentina.
Lá, a dolarização da reserva de valor, concomitantemente à desconfiança em relação a possíveis calotes nos títulos de dívida pública, levou à desintermediação bancária, senão mesmo à não bancarização de toda a população. Boa parte não possui sequer cartões de crédito e mesmos os comerciantes optam por receber de imediato em papel-moeda.
Um exemplo notável foi a adoção brasileira do PIX, acima como DOC, TED e cheque, uma ordem de transferência entre depósitos à vista emitida pelo correntista. Porém, é 247, isto é, 24 horas por dias durante os 7 dias da semana, online em tempo real.
Em 30 de novembro de 2020, finalizou seu primeiro mês com quase 33 milhões de transferências. Em 31 de março de 2023, ultrapassou 3 bilhões. Em valor, atingiu quase R$ 1,3 bilhões, abaixo apenas de TED com R$ 3,6 bilhões.
Em quantidade, PIX representa 33% da quantidade de transações e TED apenas 1%. Em volume financeiro, o PIX abarca 13% do total, enquanto TED abrange 42%.
No consolidado dos meios de pagamento, a quantidade de transações com cartões (crédito, débito e pré-pago) ainda superam os PIX, mas estes se aproximam. Em termos de valor, as transferências via TED, DOC, TEC, cheque e intrabancárias superam largamente todas as demais por envolver grandes somas pecuniárias.
Fica evidente essa modernização (segura e online) nos pagamentos, via mudanças imediatas nas escrituras digitais dos correntistas nos bancos, atende ao varejo, isto é, Pessoas Físicas. As grandes somas em valor são dos demais “setores institucionais”.
Quanto à segunda vantagem da “financeirização”, diz respeito ao uso do sistema de crédito. Há uma “zona mista” entre os instrumentos de pagamentos e os cartões de crédito. No início de 2011, eram 81,1 milhões com 52,4% de ativação em relação aos emitidos. Em meados de 2022, alcançaram 190,8 milhões com 46,7% de ativação. Era um número superior ao da população adulta brasileira: 161 milhões ou 75% do total.
Em paralelo, os cartões de débito não cresceram tanto no mesmo período. Partindo de uma base próxima (79,9 milhões em 2011), praticamente dobraram (158,4 milhões em 2022). Este número sugere ter ocorrido a bancarização de quase toda população adulta.
Segundo uma pesquisa feita pela Serasa em todo o país, 29% das pessoas dizem ter cinco ou mais cartões, 18% afirmam ter quatro cartões, 23% declaram possuir três cartões e 21% responderam ter dois cartões, enquanto apenas 9% dos entrevistados dizem ter somente um cartão. Este é o número recomendado pela boa Educação Financeira…
Em março de 2023, entre as concessões de crédito com recursos livres por modalidade para Pessoas Físicas, a participação do crédito rotativo nos cartões de crédito (12%) foi superior à do parcelado (4%), mas ambos bem inferiores à dos cartões com pagamentos à vista na fatura (66%). Logo, cartões de crédito representam 82% desse crédito pessoal.
Na mesma data, em termos de saldo por modalidade, o total dos cartões de crédito atingiu R$ 496 bilhões. A participação do crédito rotativo nos cartões de crédito (5%) era superior à do parcelado (3%), mas ambos eram bem inferiores à dos cartões com pagamentos à vista na fatura (20%). Essa diferença entre concessões (82%) e estoques (28%) dizia respeito a ele ser um instrumento a ser usado em curto prazo.
Afinal, com juros no rotativo dos cartões de crédito em 430,5% aa e no parcelado em 192% aa, o mais prudente é sempre pagar a fatura na “data de aniversário” dela. Qual é a razão dessa taxa de juro?
A inadimplência no rotativo se elevou de 32,7% em dezembro de 2020, quando o juro era 328,2% aa, para 48,2% em março de 2023, ou seja, o correspondente à quase metade do valor das faturas deixou de ser pago. No parcelado, a inadimplência subiu de 5,5% para 9,3%. É um instrumento para ser usado com planejamento financeiro, mas muitos usam-no em desespero pela carência de renda, outros usam-no pelo impulso emocional do consumismo “em parcelas a sumir de vista sem juros!”.
Diante desse crédito aos consumidores, são muito mais relevantes os financiamentos imobiliários (saldo de R$ 952 bilhões em março de 2023), representando 66% do crédito do sistema financeiro com recursos direcionados às Pessoas Físicas. Cerca de 60% tem taxa de juro regulada e 6% taxa de mercado. Eles propiciam mobilidade social porque “alargam o orçamento familiar” depois de pagar as prestações substitutas do aluguel.
A terceira vantagem da “financeirização” diz respeito à sabedoria na gestão do dinheiro. O sistema financeiro nacional oferece oportunidades de aplicações em renda fixa com taxa de juro real positiva fixada pelo Banco Central do Brasil no maior patamar mundial.
Segundo o FGC, o número de clientes – na verdade, “contas” – com produtos bancários eram 74,9 milhões em dezembro de 1999. Na faixa de saldos até R$ 5 mil estavam 92% deles, de R$ 5 mil a R$ 10 mil, 3,4%, e acima dessa faixa menos de 5%, mas tinham 80% do valor total. Este (R$ 246 bilhões) era distribuído entre 45% em depósitos de poupança, 14% em depósitos à vista, 37% em depósitos a prazo, Letras os 4% restantes.
Em dezembro de 2022, a riqueza financeira em títulos e valores mobiliários (sem fundos de investimento), ainda de acordo com o FGC, atingiu R$ 3,9 trilhões. As contas de clientes eram 537 milhões: acima de 7 vezes maior diante de duas décadas antes.
No entanto, a metade era praticamente inativa com saldos até dez reais e a outra quase metade era composta por contas com saldos até um milhão de reais. Cerca de 518 mil contas tinham acima desse valor, sendo 259 mil delas tinham 49% do valor de toda essa riqueza financeira. Pelos elevados saldos médios, sugerem ser de Pessoas Jurídicas e/ou de Pessoas Físicas milionárias do segmento Private Banking.
A ANBIMA mostra as evoluções dos diferentes segmentos dos clientes. Em termos de riqueza financeira de cada qual em relação ao PIB do ano, em dezembro de 2015, o Varejo Tradicional (VT) tinha 13,8% do PIB, o Varejo de Alta Renda (VAR) 9,8% e o Private Banking (PB) 11,9%. Somavam 35,4% do PIB.
Houve um enriquecimento geral, porque em dezembro de 2022 esses relativos foram VT 17,3%, VAR 14,4% e PB 19,3%. Mas houve maior concentração da riqueza financeira nos já ricaços. No início desse período, detinham 33,5% e no fim, 37,8%, embora em 2019-20 tivessem 40,1% do total. O VT caiu de 38,9% em 2015 para 29,7% em 2019, recuperando um pouco com sua participação de 34% do total em 2022. O VAR tinha se elevado de 27,6% em 2015 para 30,3% em 2019, mas caiu para 28,2% em 2022.
Uma diferença marcante refere-se ao número de contas de poupança. O VT tinha cerca de 60 milhões em 2015 e chegou a ter 86 milhões em 2020, mas caiu para 76,3 milhões em 2022. O VAR acrescentou apenas um milhão delas no período: foi de 1,9 milhão para 2,9 milhões. O saldo médio (per capita) dessas contas no período foi de R$ 11.049.
Comparativamente, a riqueza financeira per capita dos investidores em Fundos de Investimentos e Títulos e Valores Mobiliários por segmentos é maior, embora tenha caído, devido à significativa elevação do número de contas. A do VT caiu de R$ 46.410 em 2015 para R$ 13.272 em 2022; a do VAR de R$ 163.794 para R$ 100.740.
Em contrapartida, o PB tinha em suas contas o saldo médio de R$ 6,483 milhões em 2015 e chegou a atingir R$ 13,769 milhões em 2021. No ano seguinte, caiu para R$ 12,471 milhões. Como houve evolução de 7,3% no volume financeiro agregado de sua riqueza de R$ 1,78 trilhão em 2021 para R$ 1,91 trilhão em 2022, apesar da queda em ações/renda variável (22,3% do total) de -5,28%, a maior explicação da queda per capita parece ter sido o aumento no número de contas de 141.756 para 153.192 ou +8%.
Enfim, a “financeirização” possibilita a diminuição da pobreza, mais em termos de aumento do estoque de reservas financeiras em vez de gasto dos fluxos de rendimentos em juros. Ela não tem, porém, o dom de diminuir a desigualdade social. A “desfinanceirização” aumenta ambas: a pobreza e a desigualdade.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
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