5 de junho de 2026

Vantagens da “Financeirização” superiores à da “Desfinanceirização”, por Fernando Nogueira da Costa

A “financeirização” possibilita diminuição da pobreza, mas não diminui desigualdade social. A “desfinanceirização” aumenta ambas.

Vantagens da “Financeirização” superiores à da “Desfinanceirização”

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por Fernando Nogueira da Costa

Se compreendermos a “financeirização” com o processo evolutivo do sistema financeiro, emergente de interações entre Finanças Pessoais, Corporativas, Públicas, Bancárias e Internacionais, verificaremos ele ter avançado por atender à demanda social. Nem sempre a submissão a arranjos sociais pressupostos injustos se dá por meio da coerção, da ameaça ou de barganhas.

Há cinco séculos, Étienne de La Boétie propôs o conceito de servidão voluntária. Muitas pessoas se submetem a sistemas exploradores – como é o sistema capitalista – sem resistência, afinal, os sistemas escravistas e feudais eram piores. Os trabalhadores ao venderem sua força de trabalho podem, em princípio, agir por vontade própria.

Ao obter mobilidade social, para si e seus dependentes, escalando faixas de renda e riqueza superiores, podem até mesmo demonstrar satisfação com seu próprio esforço de poupar uma parte da renda ao longo do ciclo de vida profissional ativa. Isto a despeito de posição de inferioridade social, onde ainda se encontram, sendo explorados em salário por empregadores ou não acumulando a mesma riqueza do topo da pirâmide.

Quais são as vantagens da “financeirização” diante da “desfinanceirização”?

A primeira diz respeito ao sistema de pagamentos. O Brasil ter uma moeda nacional aceita como unidade de conta e meio de pagamento, além de oferecer aplicações financeiras líquidas ou resgatáveis de imediato, evita a dramática situação argentina.

Lá, a dolarização da reserva de valor, concomitantemente à desconfiança em relação a possíveis calotes nos títulos de dívida pública, levou à desintermediação bancária, senão mesmo à não bancarização de toda a população. Boa parte não possui sequer cartões de crédito e mesmos os comerciantes optam por receber de imediato em papel-moeda.

Um exemplo notável foi a adoção brasileira do PIX, acima como DOC, TED e cheque, uma ordem de transferência entre depósitos à vista emitida pelo correntista. Porém, é 247, isto é, 24 horas por dias durante os 7 dias da semana, online em tempo real.

Em 30 de novembro de 2020, finalizou seu primeiro mês com quase 33 milhões de transferências. Em 31 de março de 2023, ultrapassou 3 bilhões. Em valor, atingiu quase R$ 1,3 bilhões, abaixo apenas de TED com R$ 3,6 bilhões.

Em quantidade, PIX representa 33% da quantidade de transações e TED apenas 1%. Em volume financeiro, o PIX abarca 13% do total, enquanto TED abrange 42%.

No consolidado dos meios de pagamento, a quantidade de transações com cartões (crédito, débito e pré-pago) ainda superam os PIX, mas estes se aproximam. Em termos de valor, as transferências via TED, DOC, TEC, cheque e intrabancárias superam largamente todas as demais por envolver grandes somas pecuniárias.

Fica evidente essa modernização (segura e online) nos pagamentos, via mudanças imediatas nas escrituras digitais dos correntistas nos bancos, atende ao varejo, isto é, Pessoas Físicas. As grandes somas em valor são dos demais “setores institucionais”.

Quanto à segunda vantagem da “financeirização”, diz respeito ao uso do sistema de crédito. Há uma “zona mista” entre os instrumentos de pagamentos e os cartões de crédito. No início de 2011, eram 81,1 milhões com 52,4% de ativação em relação aos emitidos. Em meados de 2022, alcançaram 190,8 milhões com 46,7% de ativação. Era um número superior ao da população adulta brasileira: 161 milhões ou 75% do total.

Em paralelo, os cartões de débito não cresceram tanto no mesmo período. Partindo de uma base próxima (79,9 milhões em 2011), praticamente dobraram (158,4 milhões em 2022). Este número sugere ter ocorrido a bancarização de quase toda população adulta.

Segundo uma pesquisa feita pela Serasa em todo o país, 29% das pessoas dizem ter cinco ou mais cartões, 18% afirmam ter quatro cartões, 23% declaram possuir três cartões e 21% responderam ter dois cartões, enquanto apenas 9% dos entrevistados dizem ter somente um cartão. Este é o número recomendado pela boa Educação Financeira…

Em março de 2023, entre as concessões de crédito com recursos livres por modalidade para Pessoas Físicas, a participação do crédito rotativo nos cartões de crédito (12%) foi superior à do parcelado (4%), mas ambos bem inferiores à dos cartões com pagamentos à vista na fatura (66%). Logo, cartões de crédito representam 82% desse crédito pessoal.

Na mesma data, em termos de saldo por modalidade, o total dos cartões de crédito atingiu R$ 496 bilhões. A participação do crédito rotativo nos cartões de crédito (5%) era superior à do parcelado (3%), mas ambos eram bem inferiores à dos cartões com pagamentos à vista na fatura (20%). Essa diferença entre concessões (82%) e estoques (28%) dizia respeito a ele ser um instrumento a ser usado em curto prazo.

Afinal, com juros no rotativo dos cartões de crédito em 430,5% aa e no parcelado em 192% aa, o mais prudente é sempre pagar a fatura na “data de aniversário” dela. Qual é a razão dessa taxa de juro?

A inadimplência no rotativo se elevou de 32,7% em dezembro de 2020, quando o juro era 328,2% aa, para 48,2% em março de 2023, ou seja, o correspondente à quase metade do valor das faturas deixou de ser pago. No parcelado, a inadimplência subiu de 5,5% para 9,3%. É um instrumento para ser usado com planejamento financeiro, mas muitos usam-no em desespero pela carência de renda, outros usam-no pelo impulso emocional do consumismo “em parcelas a sumir de vista sem juros!”.

Diante desse crédito aos consumidores, são muito mais relevantes os financiamentos imobiliários (saldo de R$ 952 bilhões em março de 2023), representando 66% do crédito do sistema financeiro com recursos direcionados às Pessoas Físicas. Cerca de 60% tem taxa de juro regulada e 6% taxa de mercado. Eles propiciam mobilidade social porque “alargam o orçamento familiar” depois de pagar as prestações substitutas do aluguel.

A terceira vantagem da “financeirização” diz respeito à sabedoria na gestão do dinheiro. O sistema financeiro nacional oferece oportunidades de aplicações em renda fixa com taxa de juro real positiva fixada pelo Banco Central do Brasil no maior patamar mundial.

Segundo o FGC, o número de clientes – na verdade, “contas” – com produtos bancários eram 74,9 milhões em dezembro de 1999. Na faixa de saldos até R$ 5 mil estavam 92% deles, de R$ 5 mil a R$ 10 mil, 3,4%, e acima dessa faixa menos de 5%, mas tinham 80% do valor total. Este (R$ 246 bilhões) era distribuído entre 45% em depósitos de poupança, 14% em depósitos à vista, 37% em depósitos a prazo, Letras os 4% restantes.

Em dezembro de 2022, a riqueza financeira em títulos e valores mobiliários (sem fundos de investimento), ainda de acordo com o FGC, atingiu R$ 3,9 trilhões. As contas de clientes eram 537 milhões: acima de 7 vezes maior diante de duas décadas antes.

No entanto, a metade era praticamente inativa com saldos até dez reais e a outra quase metade era composta por contas com saldos até um milhão de reais. Cerca de 518 mil contas tinham acima desse valor, sendo 259 mil delas tinham 49% do valor de toda essa riqueza financeira. Pelos elevados saldos médios, sugerem ser de Pessoas Jurídicas e/ou de Pessoas Físicas milionárias do segmento Private Banking.

A ANBIMA mostra as evoluções dos diferentes segmentos dos clientes. Em termos de riqueza financeira de cada qual em relação ao PIB do ano, em dezembro de 2015, o Varejo Tradicional (VT) tinha 13,8% do PIB, o Varejo de Alta Renda (VAR) 9,8% e o Private Banking (PB) 11,9%. Somavam 35,4% do PIB.

Houve um enriquecimento geral, porque em dezembro de 2022 esses relativos foram VT 17,3%, VAR 14,4% e PB 19,3%. Mas houve maior concentração da riqueza financeira nos já ricaços. No início desse período, detinham 33,5% e no fim, 37,8%, embora em 2019-20 tivessem 40,1% do total. O VT caiu de 38,9% em 2015 para 29,7% em 2019, recuperando um pouco com sua participação de 34% do total em 2022. O VAR tinha se elevado de 27,6% em 2015 para 30,3% em 2019, mas caiu para 28,2% em 2022.

Uma diferença marcante refere-se ao número de contas de poupança. O VT tinha cerca de 60 milhões em 2015 e chegou a ter 86 milhões em 2020, mas caiu para 76,3 milhões em 2022. O VAR acrescentou apenas um milhão delas no período: foi de 1,9 milhão para 2,9 milhões. O saldo médio (per capita) dessas contas no período foi de R$ 11.049.

Comparativamente, a riqueza financeira per capita dos investidores em Fundos de Investimentos e Títulos e Valores Mobiliários por segmentos é maior, embora tenha caído, devido à significativa elevação do número de contas. A do VT caiu de R$ 46.410 em 2015 para R$ 13.272 em 2022; a do VAR de R$ 163.794 para R$ 100.740.

Em contrapartida, o PB tinha em suas contas o saldo médio de R$ 6,483 milhões em 2015 e chegou a atingir R$ 13,769 milhões em 2021. No ano seguinte, caiu para R$ 12,471 milhões. Como houve evolução de 7,3% no volume financeiro agregado de sua riqueza de R$ 1,78 trilhão em 2021 para R$ 1,91 trilhão em 2022, apesar da queda em ações/renda variável (22,3% do total) de -5,28%, a maior explicação da queda per capita parece ter sido o aumento no número de contas de 141.756 para 153.192 ou +8%.

Enfim, a “financeirização” possibilita a diminuição da pobreza, mais em termos de aumento do estoque de reservas financeiras em vez de gasto dos fluxos de rendimentos em juros. Ela não tem, porém, o dom de diminuir a desigualdade social. A “desfinanceirização” aumenta ambas: a pobreza e a desigualdade.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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