Enviado por Paulo Dias Filho
Boa dica de livro do blog do André Barcinski: “Desagregação”, sobre a derrocada dos valores da América nos últimos 30 anos:
do blog de André Barcinski
Um livro para entender a América

Acaba de sair no Brasil “Desagregação – Por Dentro de uma Nova América”, um dos livros de não-ficção mais impressionantes e reveladores que li em muito tempo.
Packer, repórter da revista “The New Yorker”, conta a história das últimas três décadas dos Estados Unidos. E faz isso de forma original e surpreendente, por meio de perfis de diversas pessoas.
O livro parece um quebra-cabeça: no início não se percebe a relação entre as histórias, mas, à medida que Packer vai revelando os personagens – de empresários a políticos, de lobbystas a operários, de celebridades a escritores – começamos a perceber como eles se completam e contam a mesma saga: a de um país que foi, pouco a pouco, vendo sua democracia e seus valores fundamentais sendo distorcidos.
“Desagregação” explica como os Estados Unidos passaram de um bastião da democracia e do otimismo no pós-guerra a uma monstruosidade dominada por megacorporações, com centenas de cidades dizimadas por crises econômicas, globalização e a perda de empregos para países do Terceiro Mundo.
Uma das personagens é Tammy Carter, uma operária negra de uma fábrica de carros em Youngstown, no estado de Ohio. Ao contar a história de Tammy, Packer explica como Youngstown, uma potência industrial do nordeste americano, viu sua economia destruída pela falência da indústria automobilística da região e seus bairros transformados em lixões dominados por gangues de traficantes. A história parece um romance policial.
Outro personagem fascinante é Jeff Connaughton, um idealista líder estudantil que vai a Washington trabalhar na campanha de um candidato, mas se desilude com a política e acaba virando lobbysta de grandes empresas junto ao governo. A saga de Jeff explica como nenhuma decisão em Washington é tomada sem uma bênção corporativa.
Às vezes, os personagens de Packer não são pessoas, mas cidades. Uma das histórias mais escabrosas é a da bolha imobiliária em Tampa, na Flórida. O autor conta como a ganância de empreendedores e a incompetência/corrupção de políticos permitiu a criação de centenas de bairros e empreendimentos em meio a áreas completamente desabitadas e desertas, criando cidades-fantasmas que logo foram abandonadas.
Packer também traça o perfil de celebridades, como a apresentadora de TV Oprah Winfrey e o cantor Jay-Z, e dedica um capítulo ao escritor Raymond Carver, cujas histórias melancólicas e realistas retratavam personagens vivendo nos subúrbios de classe média baixa, dominadas por gigantescas lojas de departamentos e lanchonetes defast food. E o perfil de Sam Walton, criador da cadeia Wal-Mart, é um primor de concisão e objetividade.
“Desagregação” fala dos Estados Unidos, mas algumas das histórias poderiam muito bem se passar no Brasil. Quando alguém vai escrever um livro explicando por que importamos tudo de pior que vem da América, mas não a crença na democracia que, mesmo maltratada, ainda é o que a América tem de melhor?
Luis Armidoro
29 de agosto de 2014 1:40 pmCara, estou lendo o livro, é
Cara, estou lendo o livro, é muito legal. E fico pensando que uma parte do Brasil passa pelo mesmo processo, mas de forma “deteriorada”, porque uma parte do Brasil é uma cópia rascunhada da sociedade norte-americana. E a parte do Brasil mais preocupante é o estado de SP: 20 anos de neoliberalismo na veia, individualismo feroz e selvagem; manipulação da mídia e outas catástrofes produziram uma sociedade que perde coesão aqui em SP: é cada um por si, basta andar na rua, cada isolado em seu celular, “facebooqueando” ou “tuitando”, e nem aí para o mundo ou para o próximo (sem falar no apoio a idéia reaças que escondem a completa anulação da sociedade e do indivíduo
Márcio de POA
29 de agosto de 2014 2:49 pmInteressante que já nas
Interessante que já nas décadas de 50 e 60 cientistas políticos e sociólogos como Charles Wright Mills, E. E. Schattschneider e outros já apontavam essas tendências. Entretanto, o poder das “power elites” (para usar o termo cunhado por Mills) foi deixado de lado no mainstream.
As abordagens pluralistas na Ciência Política sempre foram predominantes, com seus pressupostos de sociedade como um mercado, onde os mais diversos grupos disputavam entre si de maneira aberta e democrática, em uma espécie de “paraíso da participação”. A afirmação irônica de Schattschneider no clássico “The Semisovereign people” (publicado em 1960) torna-se cada vez mais atual:
“The flaw in the pluralist heaven is that the heavenly chorus sings with a strong upper-class accent.”
altamiro souza
29 de agosto de 2014 8:40 pmnão sei se entendi a frase
não sei se entendi a frase colocada em ingles pelo márcio, , mas se o que enteni é isso mesmo, tento parfaseá-la para o crucial momento brasileiro:
a falha no céu fundmentalista de marina é que o coro elestial dos seus economistas neoliberais canta com um fortíssimo sotaque de classe alta estadunidense.